Mãe x Androides (2021)

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Mãe x Androides
Original:Mother/Android
Ano:2021•País:EUA
Direção:Mattson Tomlin
Roteiro:Mattson Tomlin
Produção:Bill Block, Rafi Crohn, Charles Miller, Matt Reeves, Mattson Tomlin
Elenco:Chloë Grace Moretz, Algee Smith, Raúl Castillo, Linnea Gardner, Kiara Pichardo, Oscar Wahlberg, Christian Mallen, Jared Reinfeldt, Liam McNeill, Stephen Thorne, Jon F. Merz, Tamara Hickey, Jason Bowen

Chloë Grace Moretz é bastante prolífica em sua carreira como atriz. Aos 24 anos, o IMDB já aponta um número expressivo de 72 produções e mais cinco em desenvolvimento, sendo que alguns destes dentro do cinema de ficção científica e horror, principalmente refilmagens. Ela atuou em Horror em Amityville (remake de Terror em Amityville), O Olho do Mal (remake de The Eye – A Herança), Deixe-me Entrar (remake/nova adaptação de Deixa Ela Entrar), Sombras da Noite (remake da série Dark Shadows), Carrie, A Estranha (remake/nova adaptação de Carrie, a Estranha) e Suspiria – A Dança do Medo (remake de Suspiria). Já, entre as produções scifi, é possível ver seu rosto nos cartazes de na franquia Kick Ass (2010 e 2013), A 5ª Onda (2016), Periféricos (2022) e em Mãe x Androides (2021). Este último tinha potencial para ser algo bem melhor do que foi.

Não apenas pela presença da talentosa atriz, mas pela proposta pós-apocalíptica. Quem não aprecia um enredo que apresenta um mundo dominado por criaturas (zumbis, infectados, alienígenas, monstros ou robôs), onde um grupo de personagens precisa se abrigar, tendo que enfrentar uma ameaça sobrenatural? Pensando rápido você deve lembrar da série The Walking Dead (e seus derivados), dos filmes de Romero, de Extermínio, de Um Lugar Silencioso, Guerra dos Mundos e até Blade Runner. Com um esforço técnico e de enredo, ambientação e sequências chuvosas, Mãe x Androides poderia remeter facilmente à obra de Ridley Scott. Poderia!

No entanto, o longa de Mattson Tomlin apostou em um lado melodramático transformando o que poderia ser divertido em um drama bobo e sem empolgação. Lembra daqueles episódios sonolentos de The Walking Dead que faziam os espectadores apelidar a série de “novela com zumbis“? Acontece quando querem forçar uma profundidade, dar mais tridimensionalidade aos personagens, mas esquecem de instigar o público, mantê-lo aceso durante sua condução. Tinha até potencial, pelo menos o prólogo permitiu uma quase sensação de que viria algo bom da proposta.

Em um futuro não tão distante, os avanços da inteligência artificial permitirão que famílias sejam auxiliadas por androides. Nos afazeres domésticos, atuando como babás ou garçons, esses robôs estarão por todas as moradias (imagine quantos pessoas perderão o emprego numa condição assim? Mas não é algo que o enredo pensou em explorar) até que um som estridente nos aparelhos celulares mudam o cenário, tornando esses ajudantes em perigosas ameaças. No tal prólogo, Georgia (Moretz) acaba de fazer três testes e descobrir que está grávida de seu namorado Sam (Algee Smith). Não está feliz com isso, até por duvidar de seus sentimentos pelo rapaz.

Na Noite de Natal, numa festa promovida pelos estudantes da faculdade de Sam, tem início um dos principais temores de Stephen Hawking: “AI takeover“, nome dado ao domínio do planeta pelos computadores e inteligência artificial. Androides partem para o ataque, e o caos toma as ruas. Um suspense que poderia ser bem desenvolvido é deixado de lado, uma vez que Georgia tinha consciência que seus pais tinham um androide em casa. Nove meses depois, com o barrigão prestes a explodir, Georgia e Sam vivem acampando em diversos lugares na mata. Sonham em chegar a Boston, onde dizem estar bem resistente aos ataques, ou até, no desejo de Sam, via transporte marítimo, em alguns países da Ásia – uma ironia do enredo talvez?

Encontram um acampamento militar, e são revistados e desarmados para que possam se abrigar. Uma médica local diz que a viagem no momento pode ser perigosa, e sugere que ela tenha o bebê ali mesmo, um ambiente seguro e com proteção de soldados. Porém, Sam se envolve numa briga com militares – algo que poderia também render alguma sequência interessante, mas é ignorada pela covardia do roteiro – e ambos são expulsos dali. Para chegar a Boston, precisam atravessar a chamada “Terra de Ninguém“, local dominado pelos androides. Um abrigo temporário numa casa – já faz mais de trinta minutos e o espectador não viu mais nenhum androide em ação – dá a chance de Sam consertar uma moto para facilitar a travessia.

Quando ela acontece, a tensão é breve. Androides correm junto com a moto, drones perseguem o casal, e eles precisam se separar. Georgia é ajudada pelo estranho e psicótico Arthur (Raúl Castillo), um homem que diz ter trabalhado na empresa de construção de androides e descobriu um meio de se camuflar, se tornar invisível para os inimigos. A garota precisará de ousadia para invadir um habitat de androides para resgatar o namorado preso, para continuarem a viagem.

A invasão a um território hostil até cria uma leve expectativa de melhora, mas ela é bem mal desenvolvida. Até mesmo os androides, quando estão com o rosto destruído, não são muito bem caracterizados, fazendo o infernauta sentir saudades do T-1000. Cortes entre cenas podem dar a impressão de alguma sequência onírica, mas não é o caso. Aquilo está acontecendo mesmo, ainda que você não acredite. E há alguns furos aqui e ali, como na cena em que precisam entrar em um barco e são vistoriados para simplesmente serem impedidos de viajar. Por que já não foram impedidos logo, já que de qualquer jeito não poderiam entrar?

E esqueça quem espera um confronto entre a mãe e os androides como sugere o título – a Netflix gosta desses crossovers (Vampiros x The Bronx, por exemplo. Logo vai adquirir Kids x Aliens, pode esperar). Georgia não tem realmente condições de lutar com androides, mesmo depois que seu bebê nasce. Mas até lá o filme já está em seus momentos finais, tentando forçar o espectador a derreter em lágrimas.

Com tantas produções em sua filmografia, o agente da atriz deve selecionar melhor seus papéis – fazer outros remakes, talvez? Mãe x Androides está entre seus piores trabalhos, perdendo pontos por ser uma produção pós-apocalíptica que não soube fazer uso de sua proposta, ainda mais tendo entre os produtores Matt Reeves (de Cloverfield – Monstro e dois filmes da franquia O Planeta dos Macacos). A direção até que não compromete, mas o roteiro é bem enfadonho, ainda mais pela longa duração. Quem é fã da atriz pode encontrar exemplares melhores entre seus 72 trabalhos. Outros que pelo menos façam jus ao seu talento.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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