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Love Kills
Original:Love Kills
Ano:2025•País:Brasil
Direção:Luiza Shelling Tubaldini
Roteiro:Luiza Shelling Tubaldini, baseado na graphic novel de Danilo Beyruth
Produção:Magali Assenço, Andre Skaf, Luiza Shelling Tubaldini
Elenco:Thais Lago, Gabriel Stauffer, Erom Cordeiro, Marat Descartes, Rosana Maris, Kiko Pissolato

No meio audiovisual, uma das coisas que mais me enche de alegria e esperança é ver um filme brasileiro de gênero estreando em circuito comercial. Fico ainda mais feliz quando descubro que esse filme irá ganhar uma rodagem fora do nosso país. E mais ainda se ele for uma adaptação de quadrinhos, mídia pela qual sou apaixonado, que foi o início da minha vida como roteirista e que ainda é um território tão pouco explorado pelo cinema e pelas séries nacionais. Love Kills (2025), primeiro longa-metragem com direção solo de Luiza Shelling Tubaldini, reúne todos esses fatores. Por isso mesmo é uma pena que ele decepcione. E o motivo fundamental para isso é um só: o roteiro.

Love Kills conta a história de Marcos (Gabriel Stauffer), funcionário de uma cafeteria decadente no ainda mais decadente centro de São Paulo, que repentinamente vê-se tragado para o submundo vampírico ao envolver-se com Helena (Thais Lago), uma sugadora de sangue com milhares de anos de existência e que é alvo de outros vampiros.

É muito bom ver nas telonas as nossas caras, as nossas cidades, principalmente quando são tão bem filmadas como aqui. Love Kills possui um apuro estético que impressiona. O centrão de São Paulo é retratado com todas as suas cicatrizes a céu aberto: a população em situação de rua, a prostituição, a sujeira. Mas tudo ali ganha a aura fantástica de um local místico, antiquíssimo, ao mesmo tempo temível e sedutor – que é o que essa região realmente é, embora quase nunca paremos para perceber. Seus prédios históricos são usados como ponto de encontro, refúgio e palco de combate dos vampiros. Há uma sequência em um hemocentro (ainda que não faça muito sentido na trama) que é especialmente bela. Palmas para o diretor de fotografia Jacob Solitrenick.

O elenco é outro acerto. Thais Lago, que vive Helena, e Gabriel Stauffer, intérprete de Marcos, se viram bem com o texto que têm em mãos. Em papéis menores, há atores do calibre de Marat Descartes (ainda que vivendo um patrão descabidamente escroto na cafeteria) e Rosana Maris. Quando surge encarnando a grande ameaça do filme, o vampiro Leander, Erom Cordeiro impõe respeito, ao menos visualmente.

Ou seja, todos os corações parecem estar no lugar certo em Love Kills. Mas aí chegamos ao roteiro. E problemas do coração são o que faz a trama do filme girar, ou ao menos deveriam ser. Uma vampira ameaçada pela sombra de um amante do passado começa a envolver-se com um rapaz mortal. O humano Marcos deveria ser os olhos do público dentro desse universo antigo e desconhecido. Mas ele não chega nem a ser isso e nem a tornar-se um personagem efetivo no enredo. O tempo todo tive a sensação de que a história andaria melhor sem ele, ou ao menos existiria independentemente de Marcos estar ali. Trata-se de um personagem tão mal desenvolvido, tão sem encanto, que em nenhum instante convence que uma vampira de milhares de anos de idade iria achá-lo interessante o suficiente para levá-lo pra cima e pra baixo, sem mais nem menos, durante um momento tão decisivo em sua existência.

Aliás, o que está em jogo aqui mesmo? Não chega a ficar claro. O lore e as regras desse universo são tão confusos que qualquer senso de urgência e risco é dissipado. Existe uma bagunça sobre qual vampiro é “progenitor” de quem, sobre os níveis de poder e, principalmente, sobre as motivações e as intenções de cada personagem. Vemos vampiros na cultura popular há mais de 100 anos, através de incontáveis interpretações, e, por mais que as pessoas conheçam o essencial desse mito, cada universo fílmico, literário, quadrinístico, etc., precisa estabelecer um mínimo funcionamento interno para que o público se sinta envolvido. Infelizmente, não é o que acontece aqui.

E, quando os personagens se põem a discutir a trama, os diálogos soam engessados, naquele português corretíssimo de um texto literário, e não com o sabor e o ritmo da vida real, com toda a sua coloquialidade, seus erros e simplificações. Se era para seguir esse caminho, melhor seria assumir de vez a artificialidade do texto e colocar esses vampiros ancestrais falando num português arcaico. Resolveria o problema e ainda daria alguma personalidade a eles.

Love Kills provavelmente irá encontrar um público, seja aqui ou no exterior, e isso é muito bom. Por outro lado, um filme tão visualmente caprichado, com um elenco talentoso e que conta com o envolvimento de nomes tão grandes como O2 Play e Warner acaba deixando o gosto meio amargo de que poderia ter sido muito mais.

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