![]() Hokum: O Pesadelo da Bruxa
Original:Hokum
Ano:2026•País:Irlanda, Emirados Árabes Unidos Direção:Damian McCarthy Roteiro:Damian McCarthy Produção:Derek Dauchy, Mairtín de Barra, Julianne Forde, Roy Lee, Steven Schneider, Ruth Treacy Elenco:Adam Scott, Peter Coonan, David Wilmot, Austin Amelio, Michael Patric, Will O'Connell, Brendan Conroy, Florence Ordesh |
O termo “hokum” poderia ser uma boa denominação para uma entidade demoníaca ou uma bruxa. Imagine a situação: seu amigo está mexendo com algo que encontrou no chão de um cemitério e você o alerta pela ofensa a Hokum. “Não diga o nome Hokum em uma encruzilhada de uma sexta-feira 13 para evitar que sua alma seja consumida por demônios pegajosos“. O acréscimo do subtítulo deixa a entender que se trata do nome de uma bruxa ou uma que está sendo aterrorizada pela entidade hokuminiana; ora bruxas também dormem e devem ter seus próprios tormentos! Na verdade, trata-se de uma gíria informal americana que significa “balela“, “bobagem“, geralmente usada quando alguém lhe conta algo e você duvida de que tenha acontecido. Surgiu no teatro, no início do século XX, para representar um truque de palco para provocar uma risada na plateia. Mas você iria assistir a um filme de horror chamado Balela, mesmo que venha acompanhado de algo como “A Bruxa do Mal“?
A palavra é pronunciada pelo personagem intragável de Adam Scott, assim que escuta as lendas que envolvem uma bruxa nos confins de um hotel. Ele interpreta Ohm Bauman, um autor americano que está prestes a concluir a última cena de sua trilogia bem sucedida, “Conquistador“, refletindo se o final deveria ser melancólico como parte de sua vida, influenciada por perdas trágicas. Após sentir a presença de sua falecida mãe em casa, ele parte para um refúgio no The Bilberry Woods Hotel, numa zona rural da Irlanda, local onde seus pais celebraram a lua de mel. Além de planejar o epílogo de sua obra, há a intenção de lançar as cinzas de seus pais em uma árvore onde a mãe foi fotografada, em um momento em que “estavam felizes“.
Não se trata de um Overlook, com assombrações espalhadas pelos cômodos, mas um ambiente que possui sua própria história aterrorizante. Ele conhece no local o proprietário Cob (Brendan Conroy), cujo primeiro encontro traz os detalhes de uma entidade que arrasta crianças com correntes para o submundo; há também o recepcionista Mal (Peter Coonan), o zelador Fergal (Michael Patric), a bartender Fiona (Florence Ordesh) e o carregador Alby (Will O’Connell), que sonha em ter os rascunhos de seu livro publicado.
Com um temperamento impaciente e desagradável, com respostas estúpidas, Ohm se amiga levemente com Fiona e com Jerry (David Wilmot), um homem que mora numa van na floresta e consome leite com cogumelos que permitem que ele consiga ver coisas — no caso, unicórnios coloridos e assombrações. Numa das conversas informais às vésperas do Halloween, ele diz “hokum” quando fica sabendo que a suíte de lua de mel é considerada assombrada por uma bruxa aprisionada e que o acesso é impossibilitado pela tranca do elevador.
Quem já viu o cinema criativo e aterrorizante de Damian McCarthy já sabe que o sobrenatural estará servindo como um subtexto da trama, um McGuffin da proposta. É o coelho de Caveat ou o golem de Oddity – Objetos Obscuros, para exemplificar o estilo do cineasta. McCarthy dá importância aos personagens, aos traumas que os perturbam, acrescentando elementos que trazem incômodo em pinceladas. Como de costume, é possível encontrar uma referência ao coelho de Caveat como no filme anterior, uma provável assinatura de suas obras.
Não é um filme assustador como aqueles que medem o medo pelos saltos no assento, mas um que explora a redenção do personagem através daquilo que o perturba, consequentemente despontando calafrios. Muito se deve à atmosfera proposta pelo roteiro que deixa o filme com uma leve vestimenta de fábula infantil, ao passo que introduz simbologias sobre a culpa, uma bagagem que formulou o caráter blindado de Ohm.
Como anti-herói e curioso pelas lendas locais, ele se vê motivado pelo desaparecimento de alguém que se importou com ele, partindo para um mistério e um escape room particular, confrontando seus traumas e crenças. Depois de conquistar o Midnighter Audience Award no SXSW 2024 por Oddity – Objetos Obscuros, McCarthy mais uma vez faz uso de um bom trabalho de som, explora bem os cenários irlandeses isolados, além de seus coelhos bizarros. Já demonstra nesse terceiro longa uma boa afinidade com histórias que mesclam mistério e o incômodo, com personagens profundos e indiretamente carismáticos.
Hokum: O Pesadelo da Bruxa está longe de ser uma bobagem do gênero. Em um período de muitas estreias de horror e fantasia, pode ter uma vida curta nos cinemas e até passar despercebido entre estradas fantasmagóricas e realidades paralelas. Mas vale o ingresso mesmo que seja a sua primeira experiência com um cineasta que aos poucos apresenta seu estilo e deverá figurar mais vezes na tela grande, com obras assustadoras e criativas.






