![]() Hellboy - Sementes da Destruição
Original:Hellboy - Seed of Destruction Ano:2020•País:EUA Páginas:148• Autor:Mike Mignola•Editora: Mythos |
por Lucas Freitas
Se você acompanha quadrinhos, e em particular os quadrinhos norte-americanos, é provável que, em algum ponto de sua jornada de leitor você já deva ter esbarrado em um personagem chamado Hellboy.
Criado pelo quadrinista Mike Mignola, Hellboy se tornou um dos títulos mais importantes do mercado independente norte-americano, virando um dos principais carros chefes da editora Dark Horse. Tendo iniciado sua carreira como ilustrações avulsas, o personagem se tornou um conceito que ficou na mente do artista até o momento de suas primeiras aparições, em 1993, em duas histórias curtas que serviram como uma propaganda/teste para a primeira minissérie do personagem, Sementes da Destruição. Publicada 1 ano depois dessas experiências curtas, a mini reuniu Mignola com John Byrne, renomado artista responsável por fases lendárias tantos nos X-Men quanto no Quarteto Fantástico.
E é sobre essa minissérie que iremos falar hoje.
Sementes da Destruição:
Dividida em quatro edições, Sementes da Destruição é, antes de mais nada, um arco introdutório e de teste. Introdutório porque é a partir dela que vamos ter nosso primeiro contato com a história do Hellboy, uma criatura trazida à Terra por ocultistas nazistas liderados por Rasputin e que tem como destino trazer o fim do mundo.
No entanto, o destino teve outros planos, e o jovem Hellboy foi encontrado pelas forças Aliadas. Dentre seus salvadores, estava o professor Trevor Bruttenholm, que será a figura paterna do nosso herói. Já adulto, Hellboy passou a ajudar o professor, ingressando no Bureau de Pesquisa e Defesa Sobrenatural, onde se torna um de seus principais agentes.
É a partir daqui que a história se inicia, com Hellboy atendendo ao chamado de seu pai para ajudá-lo a entender o que aconteceu em uma expedição mal sucedida no Ártico. Apesar de ser o único sobrevivente, Bruttenholm não tem qualquer memória dos acontecimentos passados, lembrando-se apenas de sua chegada em Nova York. Após sua chegada na casa do pai, Hellboy e o professor são atacados por uma criatura anfíbia. Sobrevivendo a esse primeiro assalto, HB perde seu pai e, enfurecido, decide investigar mais a fundo.
Essa investigação, por sua vez, irá levar a ele e seus companheiros mais próximos, o homem-peixe Abe Sapiens e a humana pirocinética Liz Sherman à Mansão Cavendish, família que patrocinou a jornada. O que Hellboy não sabe, porém, é que nessa mansão ele terá um encontro com seu próprio passado, dando o pontapé inicial também na sua saga nos quadrinhos.
Agora, antes de falar mais sobre a questão introdutória, preciso falar sobre o teste.
Por mais que já fosse um profissional com bastante experiência no mercado norte-americano, Mike Mignola era, antes de qualquer coisa, um artista, tendo o grosso de sua experiência no campo visual da nona arte. Assim, Sementes da Destruição é um de seus primeiros trabalhos com a história propriamente dita. Tanto é que ele pede a ajuda de John Byrne, que já havia lidado com as questões de escrita em sua passagem por editoras grandes como Marvel e DC Comics, para lhe dar uma força nessa sua primeira tentativa.
Trago esses pontos porque muitas das questões de Sementes da Destruição podem ser traçadas a esses dois componentes.
De fato, com Mignola ainda bastante verde na escrita, e tendo que apresentar todo o conceito de universo e de personagens, Byrne pesa um pouco nas informações aqui, muitas vezes indo de encontro ao tradicional conceito do “mostre, não conte”. Todas as quatro edições de Sementes são bem carregadas de recordatórios, muitos deles parte do monólogo interno do protagonista que, tratando o leitor como um Watson, precisa trazer para ele as informações de que dispõe para que ele também possa entender esse novo mundo. Não só isso, muito da construção de quem é o Hellboy nesse primeiro momento se dá por meio de seus monólogos internos, com o personagem apresentando suas reações e emoções diretamente para o leitor, o que termina datando um pouco a narrativa dessa minissérie.
Ainda assim, por mais hesitante que se mostre em alguns aspectos, a história capricha bastante em outros. Primeiro, ela consegue dar uma voz bem característica para o seu protagonista – voz essa que será afinada ao longo das próximas aventuras – de modo que, já nesse primeiro momento conseguimos entender quem é o Hellboy, assim como sua personalidade, permitindo, já nessa primeira minissérie, uma caracterização bem clara e definida.
Em segundo lugar, é bem interessante observar como o mistério em torno das origens de Hellboy vai servindo como mola propulsora. Nesse primeiro momento, descobrimos, ao lado do próprio HB, apenas uma parte de sua história, sendo esse processo de investigação e descoberta um dos grandes charmes da série. De fato, Hellboy é uma narrativa que vai crescendo junto com seu leitor, à medida que este aprende a verdade e conhece o universo da história junto com o seu protagonista, gerando, assim, um vínculo de cumplicidade entre ambas as partes.
Ao lado do mistério, é fascinante ver como a ação e o terror são bem apresentados, conferindo à Sementes da Destruição uma característica que vai acompanhar Hellboy ao longo de toda a sua saga: o ar de ficção Pulp. Grande fã de Lovecraft, Mignola trabalha bastante com os conceitos de horror cósmico do Cavalheiro de Providence, misturando, aqui e ali, pitadas de ação dignas de um Conan, personagem criado por Robert E. Howard, um amigo próximo de Lovecraft.
E nesse aspecto, a arte de Mignola ajuda bastante.
Com uma arte bem característica, onde prevalece um traço bastante sólido e blocado, bastante influenciado por Jack Kirby, Mignola nunca conseguiu um espaço apropriado no meio dos super-heróis, bastante demarcado por uma estética mais puxada para uma anatomia clássica. No entanto, em Hellboy o artista alça seu maior voo.
Aproveitando cada grama de liberdade que o terror lhe oferece, Mignola explora bastante as sombras e blocagens do seu traço, esculpindo seus personagens e cenários em um jogo de chiaroscuro digno de um Caravaggio dos quadrinhos. Esse peso garante uma elegância e unicidade ao seu traço, separando-o dos demais artistas e garantindo à sua obra uma atmosfera sombria e pesada única à Hellboy. De fato, sob essa luz, até mesmo humanos “normais” ganham um ar de estranheza, se tornando seres quase tão grotescos quanto os próprios monstros que enfrentam.
Além das sombras, a composição de Mignola se beneficia muito de seu interesse na iconografia católica (o próprio artista foi criado em um lar católico na infância), com a presença frequente de estátuas melancólicas e de aspecto sofrido, ao lado de ruínas, que dão um peso extra à atmosfera gótica de sua narrativa.
A tudo isso, soma-se as cores de Mark Chiarello, que com uma paleta opaca e sem brilho, consegue reforçar o peso desse mundo de sombras e melancolia criado por Mignola.
Agora, voltando para a narrativa em si.
Um ponto que acredito importante comentar aqui é o formato de minissérie escolhido para o lançamento de Sementes da Destruição.
Com apenas 4 edições, a narrativa ganha uma concisão e um escopo muito bem delimitados, ainda que ao custo de uma camisa de força bem significativa, visto que oferece um espaço relativamente limitado para o desenvolvimento da história. De fato, se considerarmos que cada edição possuía 26 páginas, e que o arco precisava começar e se encerrar dentro do limite de 4 números, estamos lidando com bem pouco espaço para desenvolvimentos – e aqui falo com a experiência de roteirista.
Por mais que essa limitação também ateste a habilidade da equipe em conduzir sua história com um ótimo ritmo e alterná-la entre gêneros, também traz alguns poréns. Afinal, como não dispõe de uma série longa, Byrne e Mignola precisam apresentar o máximo de informação sobre seu personagem e narrativa dentro de um intervalo exíguo, e isso acarreta não só a quantidade maciça de recordatórios ao longo da história, já presentes pelo fator introdução, mas também em alguns saltos e resoluções apressadas. Nesse sentido, acredito que a possessão de Abe pelo fantasma do patriarca da família Cavendish é um ótimo exemplo. Aparecendo brevemente ao final da terceira edição, esse fato retorna já no final do arco, atuando quase como que um deus ex machina que surge para dar uma resolução para o conflito final da mini.
Um outro exemplo bem curioso se dá com o papel de Liz Sherman, que, surgindo como uma aliada, termina tendo uma forte atuação de conveniência narrativa, uma vez que, após o seu sequestro, Rasputin descobre que pode utilizar a humana em seus planos.
Por mais que não sejam pecados mortais em termos de narrativa, esses dois são exemplos bem claros de como o formato curto, por vezes, termina atuando contra a própria história, encurtando rotas e forçando soluções rápidas para seus dilemas.
Mas para dizer que o formato curto só traz problemas, é preciso dizer que ele também traz um efeito bem positivo, realçando o efeito do mistério de Hellboy. Isso se dá, principalmente, pelo fato de termos possibilidades bem limitadas de descoberta, o que realça o valor das informações que vamos recebendo, ao mesmo tempo que estimula nossa curiosidade pelas próximas revelações.
Certo, depois de tudo isso, você deve estar se perguntando: “mas afinal, qual minha opinião sobre a obra?”
Bem, não creio que estou exagerando ao dizer que Sementes da Destruição é um verdadeiro clássico. Apesar de possuir seus problemas, como o excesso de informações e algumas resoluções apressadas, a consistência da narrativa, assim como o modo como a mesma alterna entre gêneros e apresenta seus personagens, é algo digno de nota.
Como arco introdutório, cumpre muito bem aquilo que se propõe, que é não só apresentar o personagem título e seu elenco de apoio, como também estabelecer alguns pontos e temas que irão guia-lo ao longo de toda a sua trajetória nos quadrinhos.
Não só isso, a minissérie apresenta ao mundo a belíssima arte de Mike Mignola, que, livre do padrão estético do meio mainstream, produz um marco dos quadrinhos fora das grandes editoras, criando um mundo próprio de sombras, horror lovecraftiano e arquitetura gótica, gerando, assim, um dos universos e séries mais peculiares da nona arte.
PS: Aqui no Brasil, Hellboy é publicado pela Mythos, podendo ser encontrado tanto na versão Coleção Histórica (mais rara de se achar), como também na Omnibus, que reúne vários arcos em um único – e gigantesco volume.
Apesar de não conhecer a Omnibus, atesto que a Coleção Histórica é um verdadeiro primor, carregando não só um material de qualidade, mas uma bela tradução acompanhada por notas que, muitas vezes, nos ajudam a entender um pouco melhor o sentido de algumas referências feitas pela equipe criativa.




