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Crime no Copan
Original:Crime no Copan
Ano:2026•País:Brasil
Autor:Victor Bonini•Editora: Companhia das Letras

No centro de São Paulo, dentre tantos arranha-céus gigantescos, um em específico se destaca. Não é o mais alto da cidade, apesar de ser a maior estrutura de concreto armado do país, mas sua arquitetura curvilínea certamente chama a atenção de quem passa pela Avenida Ipiranga. Concebido por Oscar Niemeyer, o Edifício Copan é um complexo urbano inspirado no conceito do Rockefeller Center de Nova Iorque, abrigando restaurantes, comércios variados e residências. Inaugurado em 1966, é considerado um símbolo da arquitetura moderna e, em maio de 2026, completou seus 60 anos.

É claro que em tantas décadas de existência, inúmeros casos e causos aconteceram dentro dessa gigantesca estrutura, com diversas lendas urbanas rondando o local. Funcionários relatam terem visto vultos no terraço e sétimo andar, onde diziam que morava um cafetão; há uma lenda sobre uma antiga moradora que costumava benzer os corredores, apelidada de Bruxa do Copan, sem contar um apartamento específico considerado amaldiçoado, pois seus moradores faleciam ou eram acometidos por tragédias. Enfim, lendas não faltam envolvendo o Copan e, na nova obra de Victor Bonini, o histórico prédio ganha mais alguns mistérios para abrigar em homenagem ao seu aniversário.

O Copan completa 60 anos e está duplamente em festa: além do aniversário do edifício mais icônico de São Paulo, é também aniversário de Theo, filho do síndico Lorenzo, que vive e respira o Copan. Sim, o nascimento do filho foi milimetricamente planejado por Lorenzo para ser a data de aniversário do lugar, e tudo sempre precisa sair exatamente como ele quer. Por causa de seu jeito controlador e manipulador, o síndico coleciona desafetos apartamentos afora, mas isso não impede de que todos eles estejam na festa de Theo. A noite de comemoração logo se torna inesquecível para todos os presentes, mas pelos motivos errados: Lorenzo e seu filho são encontrados mortos na calçada do Copan. Um deles, baleado; o outro, com a cabeça esmagada contra o chão de concreto após a queda do vigésimo terceiro andar. As mortes aconteceram quase que simultaneamente, o que deixa muito difícil acreditar que tenha sido apenas uma infeliz coincidência. Como um narcisista como Lorenzo simplesmente cometeria suicídio? E ao mesmo tempo que o filho sofreu uma improvável tentativa de assalto? Entre segredos revelados e abusos de poder, o Copan esconde uma teia de mistérios muito maior do que se imagina.

A narrativa intercala o ponto de vista dos personagens – que não são poucos – e também a linha temporal, entre presente e tempos passados. Em dado momento estamos lendo sobre os acontecimentos pós-tragédia, no capítulo seguinte o que aconteceu semanas antes, no próximo voltamos no tempo até os anos 70, e por aí vai. É necessária muita atenção na leitura, pois algo que foi descrito brevemente em um capítulo, no futuro vai ser mostrado por outro ângulo novamente, acrescentando uma nova perspectiva, que serão cruciais para entender a complexa trama. Complexa pois, em um edifício como o Copan, é natural que haja diversos moradores, e boa parte deles são indispensáveis para contar essa história, de modo que seus dramas pessoais fazem parte do enredo, criando várias subtramas cheias de ramificações.

No início, é difícil pegar o ritmo pela quantidade de pessoas e informações que nos são apresentadas, com os pulos temporais deixando tudo um pouco mais confuso de acompanhar. Mas calma, que as peças aos poucos começam a se encaixar e, de repente, nos vemos fissurados para saber mais sobre cada pedacinho de história de cada morador, como cada visão é relevante para solucionar o crime e como todos, absolutamente todos, tem seus motivos para serem culpados. É um mistério digno de Agatha Christie, onde você tem certeza de quem é o criminoso, apenas para mudar de opinião uma dúzia de páginas depois inúmeras vezes, até chegar na chocante revelação. E as pistas estavam ali, debaixo de nossos narizes o tempo inteiro. A escrita de Bonini é brilhante justamente por isso, o leitor é levado a acreditar e levantar diversas hipóteses, para no final muitas se mostrarem equivocadas.

Como dito anteriormente, são muitos personagens envolvidos e muitas subtramas, mas, mesmo assim, o autor consegue trabalhá-las bem. Temos personalidades bem marcantes, alguns com um desenvolvimento um pouco mais aprofundado do que outros, mas todos de forma satisfatória. Sabemos seus traumas, passado, motivações e seus motivos para quererem o síndico morto. O núcleo menos desenvolvido é o policial, pouco sabemos sobre a única investigadora realmente competente, apesar de ser o suficiente, mas nada tão detalhado quanto dos outros. O que pode deixar o leitor perdido é realmente a quantidade de pessoas e informações, com muita coisa a ser revelada e explicada todas de uma vez.

Aliás, as lendas urbanas citadas no início do texto não foram à toa. Se você prestar atenção, vai reconhecer uma ou outra referência ao longo da leitura.

Crime no Copan é um thriller nacional denso, onde cada detalhe importa e cada pista está escondida nas curvas de um edifício tão importante na história paulistana. Ideal para fãs de um bom suspense, que não deixa a resposta óbvia logo na metade, mas requer atenção redobrada para não se perder na imensidão dessa construção tão bem arquitetada.

Recentemente, foi anunciado que a obra de Bonini ganhará uma adaptação cinematográfica, com direção e roteiro de Christiano Metri, em parceria com o roteirista Davi Kolb, e ainda não possui data de estreia.

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