![]() Não Alimente as Crianças
Original:Please Don't Feed the Children
Ano:2024•País:EUA Direção:Destry Allyn Spielberg Roteiro:Paul Bertino Produção:Jason Dubin, Michael Hagerty, Bill Kenwright, Josh Kesselman, Daniel Ryniker Elenco:Michelle Dockery, Zoe Colletti, Andrew Liner, Dean Scott Vazquez, Regan Aliyah, Joshuah Melnick, Emma Meisel, Giancarlo Esposito, Vernon Davis, Lilit Grigoryev, Jessica Osbourne |
O longa de estreia de Destry Allyn Spielberg, filha de Steven Spielberg, é um horror apocalíptico na última casa à esquerda. É uma visão claustrofóbica de um mundo devastado por uma doença que transforma adultos em canibais selvagens, resultando em milhares de mortes e uma atmosfera de ameaça crescente. Nos créditos, reportagens e áudios situam o espectador na cronologia dos acontecimentos, evidenciando que crianças e adolescentes são assintomáticos mas portadores de um vírus que acomete a população. O temor da extinção faz o governo criar ambientes de quarentena e autorizar que menores desacompanhados sejam executados, independente da condição.
Nesse cenário pessimista, a órfã Mary (Zoe Colletti), de 16 anos, almeja cruzar a fronteira. Guarda nas lembranças a morte da irmãzinha, que retornou para buscar um ursinho de pelúcia e levou um tiro na cabeça, e acredita que possa tentar se infiltrar nos ônibus que estão de partida sob o controle militar. A tentativa frustrada a faz conhecer o garoto Jeffy (Dean Scott Vazquez), que a leva para seu esconderijo onde há mais quatro órfãos, Ben (Andrew Liner), Vicky (Regan Aliyah), Crystal (Emma Meisel) e Seth (Joshuah Melnick). Mary apresenta seu plano de acesso a um túnel secreto que permite a travessia para o México, convencendo o grupo a partir, quando percebem, pelo rádio da polícia, que o local onde estão foi descoberto.
No caminho, ao tentar roubar mantimentos e gasolina em uma loja de conveniência, uma troca de tiros fere Ben no ombro. Na fuga, sem combustível, eles percebem que estão próximos a um casarão, e pensam em roubar algum veículo. São atendidos pela estranhamente simpática Clara (Michelle Dockery), que oferece leite e biscoitos adulterados com um plano mórbido de aprisionamento e alimentação de algo sinistro, mantido também em cativeiro. A partir de então, esqueça o mundo apocalíptico e a doença que assola o país: o objetivo do grupo é encontrar uma saída do sótão, enquanto Mary é tratada como a filha que Clara perdeu.
Quem espera um estilo survival horror em um contexto apocalíptico pode esquecer. Tudo o que foi descrito acima, o primeiro terço do filme, é apenas posicionamento de peças para a proposta insana da anfitriã, em um thriller claustrofóbico de fuga. O enredo poderia nem envolver a tal ameaça contagiosa ou repressão policial, uma vez que a ideia é confrontar uma mulher com intenções macabras em um amontoado de clichês do subgênero “escape room“, lembrando vagamente As Criaturas Atrás das Paredes entre outros. Conta com a atuação incômoda de Michelle Dockery e suas ações imprevisíveis.
Se essa falha de personalidade (e até identidade) do roteiro de Paul Bertino fosse o único problema de Não Alimente As Crianças, até poderia ser relevado. Mas há algumas ideias bobas ali como o acesso que as crianças encontram pra fugir do sótão em que apenas uma tenta sair, sendo que o buraco evidentemente permitiria uma tentativa em massa, poupando somente o ferido Ben. E o que dizer da personagem que consegue drogar a vilã e fugir com as chaves, mas opta primeiro em trazer o veículo de fuga antes de fazer o óbvio que seria libertar os demais. Em meio ao caos, há uma participação pequena e desnecessária de Giancarlo Esposito como um detetive que nem consegue investigar adequadamente uma residência, ignorando lugares como o celeiro e o sótão.
A direção de Spielberg é adequada. Ainda distante de se destacar como o pai — e talvez precise escolher melhor seus projetos —, ela demonstra um bom cuidado com as câmeras, embora opte muitas vezes por planos fechados sem dar a dimensão que a proposta pede. Se fosse auxiliada por um roteiro mais ágil e sem as convenções apresentadas, Não Alimente As Crianças poderia figurar como um curioso cartão de visitas. O resultado é um suspense lento e pouco inventivo, uma refeição rápida em um restaurante na estrada dos filmes disponíveis sem alarde nos streamings.





