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Kwaidan - As Quatro Faces do Medo
Original:Kaidan
Ano:1964•País:Japão
Direção:Masaki Kobayashi
Roteiro:Lafcadio Hearn, Yōko Mizuki
Produção:Shigeru Wakatsuki
Elenco:Rentarō Mikuni, Michiyo Aratama, Misako Watanabe, Kenjirō Ishiyama, Ranko Akagi, Fumie Kitahara, Kappei Matsumoto, Yoshiko Ieda, Otome Tsukimiya, Kenzô Tanaka, Kiyoshi Nakano, Tatsuya Nakadai, Keiko Kishi, Yūko Mochizuki, Kin Sugai, Noriko Sengoku

Kwaidan é um filme de terror japonês, lançado em 1964 no formato de antologia, com realização do cineasta Masaki Kobayashi. O filme, um dos insights mais curiosos do horror japonês de então, é parte inspirado no livro Kwaidan – Histórias e estudos de Coisas Estranhas, de 1904, uma coletânea de folclore japonês em que o autor, Koizumi Yakumo (Lafcadio Hearn), apresenta várias histórias de fantasmas japonesas e um breve estudo de não ficção sobre insetos.

Composto por quatro segmentos pra lá de estranhos, as narrativas do Kwaidan se concentram no período feudal do Japão, e são protagonizados por espíritos rancorosos e passionais, daqueles que aprendemos a amar com os trabalhos de Takashi Shimizu (franquia Ju-On/O Grito) no final dos anos 1990. Só que, no caso, Kwaidan é a forma que se tornou referência para as décadas seguintes.

“O Cabelo Negro” é o título do primeiro segmento e narra a história de um espadachim arrependido que tenta voltar para sua antiga esposa. Ele a abandona na pobreza para tentar enriquecer através de um casamento com uma filha da elite. Mas a vida próspera não apaga o amor pela primeira esposa. Quando retorna, deve lidar com as consequências do seu abandono.

Em “A Mulher da Neve”, dois lenhadores em uma situação de sobrevivência em meio a uma nevasca são “visitados” pelo  ”yuki-onna”, um espírito feminino gelado que, conforme o folclore japonês, “leva” aqueles que se perdem na neve. Ela poupa a vida de um dos lenhadores, a quem é dada a chance de uma vida próspera, até que ele põe tudo a perder.

O terceiro conto, “Hoichi, o Sem Orelhas”, pode ser o carro chefe da obra. Conta a história de um garoto cego, e hábil tocador de biwa (instrumento de corda popular no Japão utilizado na contação de histórias), que é obrigado a tocar noite após a noite a mesma canção para um grupo de fantasmas de guerreiros mortos em uma batalha histórica.

“Em uma Xícara de Chá”, uma divertida história sobre um soldado que “bebe” um espírito que vê numa caneca de chá. A história não tem um final acabado e se liga à conclusão da antologia.

Apesar de ser um realizador que pode ter sido obscurecido por outros nomes maiores, como o próprio Akira Kurosawa, a obra de Masaki Kobayashi tem alcançado merecido reconhecimento ao longo das décadas. Apesar de sua filmografia apontar para  um cineasta mais versado no drama contemporâneo e de guerra, Kobayashi foi mestre em muitos momentos de Kwaidan, sendo esta uma de suas únicas incursões no horror, talvez a única.

O fato de Kwaidan ser seu primeiro filme em cores foi muito bem aproveitado pelo diretor e equipe, que utilizaram a luz e as possibilidades cores de maneiras pouco vistas no cinema do período, especialmente no segundo conto, “A Mulher da Neve”, um dos segmentos mais sinistros.

O uso de sombras em movimento nas paredes para representar a luta do protagonista contra os fantasmas no último segmento (Em uma Xícara de Chá) também é exemplo das boas soluções encontradas em termos de efeitos visuais.

Já a música do filme, tétrica em todas as suas entradas, tem sua culminância no terceiro segmento (Hoichi, o Sem Orelha), em que a narrativa é contada através dos “repentes” apresentados por Hoichi, uma música sombria e fantasmagórica, responsável pela atmosfera do conto. É realmente uma experiência bem estranha.

Apesar de ser associado ao universo do horror, Kobayashi declarou em entrevistas na década de 1970 que esse rótulo seria apenas uma “descrição abreviada” do que seria o Kwaidan. Ele enfatizou que seu objetivo principal era “explorar a oposição entre a existência material da humanidade e o reino espiritual, incluindo sonhos e aspirações, e focar no profundo significado espiritual da vida”. Para ele, a natureza do filme reflete o que chamou de “preocupações espirituais”, termo que comporta bem as aflições de um pacifista antibelicista e confrontador assíduo de traumas sociais em suas obras.

Kwaidan está disponível no Prime Video e Google Play Filmes para aluguel, e nos torrents web adentro. Eu indico que procurem pois cada segundo dos seus 183 minutos de duração valem muito a pena.

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