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Privadas de Suas Vidas
Original:Privadas de Suas Vidas
Ano:2026•País:Brasil
Direção:Gurcius Gewdner, Gustavo Vinagre
Roteiro:Gurcius Gewdner, Gustavo Vinagre, Antonia Baudouin
Produção:Tereza Alvarez, Berta Marchiori, Rodrigo Teixeira
Elenco: Majeca Angelucci, Rodrigo Apresentador, Regina Braga, Chandelly Braz, Benjamín Damini, Maria Gladys, Caetano Gotardo, Bruce LaBruce, Otávio Müller, Martha Nowill, Marco Pigossi, Débora Muniz

O terror gore ainda ocupa um espaço relativamente tímido na produção brasileira, e Privadas de Suas Vidas, dirigido por  Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, mergulha justamente nas possibilidades mais escatológicas e absurdas do gênero. Misturando violência gráfica, humor, elementos sobrenaturais e crítica social, o longa parte de uma situação doméstica aparentemente banal para transformar o cotidiano dos moradores de um prédio em São Paulo em um pesadelo de proporções literalmente sanitárias e catastróficas.

A história acompanha Malu (Martha Nowill), uma mãe solteira em luto que tenta reconstruir a vida após perder um de seus filhos gêmeos em um acidente trágico envolvendo uma privada. Praticamente sozinha, a produtora de eventos enfrenta dificuldades financeiras e uma relação cada vez mais conflituosa com Gênesis (Benjamin Damini), seu filhe adolescente não binárie. Incapaz de aceitar e compreender plenamente a identidade de gênero de Gênesis, Malu se vê encurralada entre o próprio luto, os choques geracionais e as demandas de uma família marcada por tensões que ela já não consegue administrar.

Pressionada pela situação econômica, Malu aceita organizar a festa de revelação de gênero de sua vizinha Suelen (Chandely Braz), uma influenciadora digital que só pensa em monetizar seu cotidiano através das redes sociais e vive uma vida de falsas aparências. Ela é mãe de um menino com deficiência física que sofre constantes e pesados assédios dos pais. A rejeição e os maus tratos fazem com que a criança se isole e crie uma conexão emocional com Gênesis, um encontro de seres humanos que enxergam nas dores familiares um forte ponto em comum e se apoiam.

O evento do “chá de revelação” parece apenas uma oportunidade de conseguir algum dinheiro, mas acaba agravando as tensões entre mãe e filhe. No meio desse turbilhão, Malu luta para lidar com uma angustiante prisão de ventre, que vem afetando sua saúde e capacidade de agir racionalmente. O banheiro então passa a ser um território hostil, pois, além de um esforço descomunal para tentar se aliviar da constipação, a protagonista ainda enfrenta o peso das lembranças da privada que estraçalhou e matou seu filho. Toda essa dor desperta uma força sobrenatural que transforma os banheiros do prédio onde vive em armadilhas mortais. 

O cotidiano familiar dá lugar a uma sucessão de acontecimentos bizarros vindos das profundezas dos encanamentos que irrigam todo o edifício, afetando também a vida dos demais moradores, que merecem o destaque atribuído a eles em cada minuto dedicado pela direção. Somos apresentados à excêntrica  Katka (Olívia Torres), uma vidente estrangeira que lê borras de cocô e catarro (sim, é isso mesmo) e conecta o filme à breve e divertidíssima participação do diretor Bruce LaBruce; ao zelador (Otávio Müller) e as moradoras mais veteranas interpretadas por Maria Gladys (avó da atriz britânica Mia Goth) e Regina Braga. Esses personagens complementam a narrativa com suas micro peculiaridades, como uma enorme Vila do Chaves vertical. 

É nessa premissa delirante que Vinagre e Gewdner encontram espaço para combinar o grotesco corporal à sátira dos códigos familiares e sociais. A ameaça sobrenatural funciona não apenas como fonte de horror, mas como uma extensão exagerada das tensões que já envolvem aquele universo. Conflitos de geração, dificuldades econômicas, relações familiares desgastadas e diferentes formas de preconceito são incorporados ao caos do gênero sem que o longa abandone seu prazer tragicômico. Ao mesmo tempo que o filme se mostra repugnante nas abordagens mais sangrentas e escatológicas, consegue ser extremamente carinhoso com o acolhimento às causas de gênero e inclusão.

Martha Nowill está no centro desse caos e segura todas as pontas do filme; a atriz abraça o exagero da personagem assumindo a posição de uma final girl e heroína improvável, enfrentando uma ameaça sobrenatural enquanto tenta sobreviver às próprias dificuldades cotidianas.

A fotografia e a construção de diversas cenas mostram indicações extremamente cinéfilas vindas dos diretores, como quando jorra uma cachoeira de água suja nos corredores e de repente nos transporta diretamente ao Overlook Hotel, de Kubrick. Esse e outros momentos icônicos compõem um mosaico de horror e comédia que Privadas de Suas Vidas constrói tão bem. O longa escalona do primeiro ao terceiro ato em situações cada vez mais perturbadoras e divertidas, para culminar em um final que ainda consegue acenar ao afeto.

O longa parece compreender que, no horror gore, o excesso também pode funcionar como ferramenta de crítica. Entre escatologia, acidentes absurdamente letais e referências ao cinema de gênero, Privadas de Suas Vidas transforma o banheiro em território de violência, trauma e caos, levando sua irreverência às últimas consequências. Produzido pela RT Features, o filme percorreu diversos festivais internacionais e foi premiado na 30ª edição do Fantasia International Film Festival.

A cerâmica, afinal, pode ser extremamente cortante. Nas mãos de Vinagre e Gewdner, até mesmo o mais banal dos ambientes domésticos pode se transformar em palco para uma combinação insólita, sanguinolenta e deliciosamente amaldiçoada de terror.

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