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Blaisie
Original:Blaisie
Ano:2026•País:França
Direção:Dimitri Planchon, Jean-Paul Guigue
Roteiro:Dimitri Planchon, Clémence Lebatteux
Produção:Alexandre Gavras
Elenco:Léa Drucker, Jacques Gamblin, Timéo, Nina Blanc-Francard, Nathalie Kanoui, Nicolas Lormeau, Isabelle Ferron, Christian Gonon, Carole Franck

Há algo particularmente desconcertante em Blaise, longa dirigido por Dimitri Planchon e Jean-Paul Guigue. A animação parte de uma família aparentemente banal para construir uma sátira política cada vez mais absurda, na qual a necessidade de aprovação, o medo do confronto e o desejo de pertencer conduzem os personagens a consequências completamente desproporcionais. O resultado é uma comédia de constrangimentos que encontra no comportamento humano o combustível para uma escalada de violência, confusão e absurdo.

No centro da história está Blaise (Timéo), um adolescente de 16 anos introvertido, apático e aparentemente desprovido de personalidade própria. Ele concorda com tudo e raramente se posiciona, tornando-se quase um recipiente para as expectativas daqueles ao seu redor. Seus pais também carregam suas próprias frustrações. Carole (Léa Drucker) acaba de assumir um cargo executivo em uma grande empresa, mas sua necessidade desesperada de ser querida pelos funcionários ameaça comprometer sua carreira. Jacques (Jacques Gamblin), desempregado e dependente da própria mãe, sente-se desrespeitado e tenta, sem muito sucesso, reorganizar a própria vida. Até mesmo a orientadora escolar de Blaise parece reconhecer que aquela família inteira está perdida.

A situação começa a sair do controle quando Blaise conhece Joséphine (Nina Blanc-Francard) em uma festa marxista. Interessado em impressioná-la, ele mente sobre sua condição financeira e afirma viver na pobreza. Joséphine, por sua vez, também esconde sua verdadeira origem: é filha do milionário que, sem que nenhum dos dois saiba, acaba de se tornar o chefe de Carole. A partir dessas pequenas mentiras, a narrativa estabelece seu mecanismo central. Joséphine radicaliza o discurso político para impressionar Blaise, e ele simplesmente concorda, ampliando cada afirmação para não contrariá-la. O desejo de agradar transforma-se, pouco a pouco, em uma cadeia de acontecimentos desconfortáveis que nenhum dos dois consegue controlar.

É nessa escalada que Blaise encontra sua principal força cômica. O filme transforma a incapacidade de seus personagens de estabelecer uma conversa franca em uma sucessão de consequências cada vez mais absurdas. O que poderia ser resolvido com uma simples conversa transforma-se em tumultos, relações extraconjugais e até atos de terrorismo. A sátira não está apenas no comportamento da esquerda revolucionária que o filme caricatura, mas também na forma como seus personagens confundem convicção com performance, levando discursos políticos ao extremo simplesmente para serem aceitos pelo outro.

A animação reforça esse estranhamento. Logo nos primeiros minutos, chama atenção o tratamento visual dos personagens, com rostos que parecem ter sido recortados de fotografias e incorporados a uma espécie de colagem em movimento. A escolha estética funciona como extensão da comicidade, criando uma artificialidade deliberada que combina com personagens igualmente deslocados de seus próprios papéis sociais, apáticos e egocêntricos. Há algo desconfortável em observar figuras tão próximas do real, mas simultaneamente tão pouco naturais, como se estivessem presas entre a fotografia e o desenho.

Embora a sátira política seja seu eixo mais marcante, Blaise também encontra momentos interessantes ao abordar os constrangimentos da adolescência e, por extensão, as inseguranças da vida adulta. Blaise não sabe quem é e tenta descobrir sua identidade a partir do olhar de Joséphine, enquanto seus pais permanecem igualmente incapazes de lidar com suas próprias frustrações. O pai de Blaise é inseguro e extremamente autocentrado, usando a conselheira escolar do filho como terapeuta para tratar seus problemas pessoais e escapando de qualquer assunto que envolva o filho. Já sua mãe, parece flutuar entre o trabalho e as dificuldades morais de lidar com sua nova equipe, chegando ao extremo de assumir um caso com a colega de trabalho para não ficar mal na empresa. 

Nesse sentido, a falta de personalidade do protagonista deixa de ser apenas uma característica cômica e passa a funcionar como instrumento narrativo: é justamente porque Blaise não consegue sustentar uma posição própria e parece não ser visto por sua família,  que o absurdo ao seu redor pode crescer indefinidamente.

O problema está no próprio excesso que alimenta o filme. À medida que a narrativa intensifica sua crítica social e transforma cada situação em algo ainda mais extravagante, o humor nem sempre acompanha a ambição. O que inicialmente provoca estranhamento e curiosidade pode, em determinados momentos, parecer uma tentativa insistente de chocar pelo pitoresco. A sucessão de situações absurdas eventualmente reduz o impacto de algumas delas, tornando a experiência menos engraçada do que o filme parece desejar.

O longa se destaca por sua personalidade autoral e pela disposição de levar sua premissa até consequências extremas. Mesmo quando exagera, há uma visão muito clara por trás de seu caos. Planchon e Guigue encontram na animação um meio particularmente eficaz para desmontar comportamentos sociais, relações familiares e discursos políticos

Blaise é uma experiência singular dentro da sátira política contemporânea. Seu protagonista pode ser deliberadamente sem graça, mas o mundo ao seu redor é tudo menos isso. Entre adolescentes tentando descobrir quem são, adultos incapazes de resolver os próprios problemas e revolucionários que parecem não saber exatamente pelo que estão lutando, o filme constrói uma comédia caótica sobre uma sociedade em que ninguém parece disposto a dizer aquilo que realmente pensa.

Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Internacional de Cinema Fantasia 2026.   

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