
![]() Marebito - Seres Estranhos
Original:Marebito
Ano:2004•País:Japão Direção:Takashi Shimizu Roteiro:Chiaki Konaka Produção:Tatsuhiko Hirata Elenco:Kazuhiro Nakahara, Miho Ninagawa, Shinya Tsukamoto, Shun Sugata, Tomomi Miyashita |
O diretor Takashi Shimizu anda meio sumido do público ocidental, mas ainda goza de um grande prestígio entre os fãs de horror, pois ficou famoso quando dirigiu o intrigante Ju-On – O Grito no ano de 2002, num momento em que o J-Horror sobre fantasmas vingativos de garotas cabeludas estava em absoluta alta. E após esta demonstração de capacidade de provocar medo, acabou “importado” pelos produtores yankees para encabeçar o remake estadunidense, o que gerou um imenso sucesso comercial que garantiu seu retorno no comando da continuação.
De forma que como Shimizu, pelo menos nos filmes lançados no Brasil, não foi muito além da “saga do rancor” e seus desdobramentos, foi com certa curiosidade que assisti Marebito – Seres Estranhos, filme de 2004 lançado em terras nacionais pela Dreamland Filmes direto para as locadoras em um DVD sem extras relevantes.
Marebito – que é uma palavra em japonês que significa “a vinda de um estrangeiro que é celebrado como se fosse um deus” (obrigado, Wikipedia) – foi concebido no ano de 2004 em apenas 8 dias de filmagens no intervalo de tempo entre as datas de produção do Ju-On original e O Grito, com um orçamento pífio, resultando em um exercício de arte acima de tudo com destaque à excepcional técnica de Shimizu, mesmo que os demais componentes (roteiro, elenco e efeitos) não sigam muito além do trivial.
No roteiro, Masuoka (Shinya Tsukamoto, diretor de clássicos orientais como Tetsuo, Vital e Tokio Fist) é um cameraman freelance muito esquisitão: vive só e é completamente deslocado do mundo em sua volta, sempre registrando com sua câmera suas andanças pelas ruas e as pessoas indiferentes que por elas passam.
Um dia ele acidentalmente grava o suicídio de um homem chamado Arei Furoki (Kazuhiro Nakahara) com uma apunhalada no olho em uma estação de metrô. As estranhas características do evento fazem Masuoka ficar obcecado pela ideia de que existe um sentimento de medo tão grande que só a morte poderia apagar.
Para tentar entender o que se passou pela cabeça de Furoki, o cameraman se embrenha pelos túneis subterrâneos de Tóquio e acaba descobrindo a entrada para uma bizarra caverna que parece uma passagem para outro mundo, talvez o inferno (embora nada seja explicado). Neste local ele encontra uma garota nua (Tomoi Miyashita) com dentes pontudos acorrentada a uma parede.
Ele a liberta e a leva ao seu apartamento no o mundo superior, mas logo descobre que a primitiva garota – a qual chama simplesmente de “F” – não é uma pessoa normal, não fala e não se alimenta, e que sua presença trará a tona o lado mais sombrio do humilde homem.
Baseado num livro de Chiaki Konaka (que também assina o roteiro), Marebito é quase uma versão “soft” de Guinea Pig – Mermaid in a Manhole transformada em um filme de arte, e, como tal, existem seus pontos caracteristicamente fortes e ao mesmo tempo fracos dependendo do que espera o espectador. Como exemplo: o ritmo a conta gotas e a narrativa intimista do protagonista que podem fazer adormecer quem espera mais ação. São frequentes as cenas em que vemos apenas Masuoka passeando a esmo pelas ruas ou confinado na diminuta sala de seu apartamento imerso em seus próprios pensamentos, o que convenhamos, não são situações que provoquem muito suspense.
E realmente não é uma produção que força a tensão, apenas leva a história mais para o lado da progressiva degeneração do comportamento humano. Neste caso, uma pessoa solitária canaliza sua atração pelo desconhecido e perigoso através da figura feminina selvagem de “F”.
De positivo, é inegável o poder de Takashi Shimizu por trás das câmeras, que pegou um roteiro teatral e simplista tornando-o interessante, conseguindo cativar o público de mente aberta na maior parte da projeção, mesmo que fuja um pouco dos elementos do horror convencional, entregando um filme que é no mínimo diferente para não dizer bizarro.
O desenvolvimento do personagem Masuoka é sublime, quase entendemos o porquê de atitudes tão ousadas dentro de seu minúsculo universo, ajudado pelo trabalho de seu interprete, Shinya Tsukamoto. Em contrapartida, não são dadas informações relevantes sobre os outros poucos protagonistas de modo que se por um lado é benéfico para ampliar a instigação sobre o roteiro (seria ‘F’ uma força demoníaca? Uma criatura inocente? Ou um delírio do cameraman?), por outro deixa uma impressão de desinteresse sobre suas origens, o que soa como relaxo do roteirista e isto acaba tornando a história menos potente do que poderia ser.
Então seguem as dicas para curtir Marebito – Seres Estranhos de forma plena: primeiramente, se você acha que filmes videoclipeiros na esteira de Premonição são os suprassumo do terror ou não aguenta uma narrativa lenta, nem pense em alugar. Segundo, não entre na onda da distribuidora nacional que promete um banho de sangue desenfreado, pois poucas pessoas morrem e ainda de maneira bastante contida. E por último, tenha consciência que é um filme grande em suas próprias limitações e que não pretende ser um blockbuster. Dito isto, basta sentar e curtir, pois vale a pena.




Me ganhou só no significado dessa palavra japonesa e na parte “versão artistica e soft” do conto da Sereia de Guinea Pig.
interessante, vou procurar por este filme!