
“Eu normalmente interpretava estes papéis aonde eu representava o lado negro. Eu sempre era uma deusa predatória em todos estes filmes com todos os tipos de elementos inenarráveis. Então o que é a vida sem um lado obscuro? A força propulsora do drama é o lado negro. Estas mulheres que eu interpretei normalmente sofreram por isso e por homens como estes.” – Barbara Steele
O que seria do horror gótico do fim dos anos 50 e anos 60 sem os estúdios Hammer e nomes como Mario Bava, Vincent Price, Peter Cushing, Christopher Lee. E o que seria do nosso gênero favorito como um todo sem a maior atriz desta era, Barbara Steele. Sem quase nunca posar de indefesa, Barbara é interpretava o total oposto de outras grandes da época como Janet Leigh (Psicose, 1960) e Tippi Hedren (Os Pássaros, 1963), por exemplo. Ao invés de se deixar abater como vítima e scream queen, a atriz era o maior sonho e o maior pesadelo dos homens que cruzavam seu caminho em seus filmes.
Dona do par de olhos mais penetrantes do cinema de horror e de uma beleza natural ímpar, você nunca saberia se ela tinha a intenção de beijá-lo ou matá-lo (talvez os dois ao mesmo tempo). Praticamente sumida desde sua época de ouro é mais do que hora do Boca do Inferno prestar tributo a esta grande mulher do cinema de horror.
Nascida em 29 de dezembro de 1937 na cidade de Birkenhead na Inglaterra (embora algumas fontes citem seu nascimento na Irlanda), Steele teve uma infância simples, mas sempre voltada as artes e estudou para ser uma pintora. Em 1957 integrou uma companhia de atores e estreou no cinema num pequeno papel na comédia britânica chamada Bachelor of Hearts (1958) estrelando Hardy Krüger.
Alguns pequenos e igualmente insignificantes filmes para a produtora Rank Organisation se seguiram, com Barbara ainda em papeis minúsculos até que seu contrato foi vendido para uma produtora em ascensão chamada 20th Century Fox e a atriz se mudou para Hollywood, onde toda a ação acontecia.

Era a chance do sucesso, mas infelizmente não para Barbara, que apesar do bom contrato não conseguiu trabalho por um bom tempo. Finalmente Steele conseguiu um papel e foi escalada para ser a protagonista do filme Estrela de Fogo (1960) com Elvis Presley no papel principal – inclusive é de se argumentar que este seja a melhor película do Rei do Rock. Contudo, desavenças com o diretor Don Siegel fizeram Barbara deixar os sets de filmagens batendo os pés e deixando o papel para a atriz Barbara Éden (de futura fama pelo seriado Jeannie é um Gênio).
Com vinte e poucos anos, a bela jovem atriz se viu no meio de uma encruzilhada: com sua reputação parcialmente queimada e no meio da greve do sindicato dos atores em Hollywood, aceitou um trabalho oferecido da longínqua Itália para estrelar uma produção de horror comandada por um ex-cameraman e diretor iniciante chamado Mario Bava. Contra todos os indicadores, este filme foi seu atalho para o estrelato, A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio/Black Sunday) de 1960.
A produção visualmente empolgante e com Steele interpretando um papel duplo – uma bruxa e sua reencarnação mais jovem – garantiu não só o estrelato para a atriz, mas também para o diretor, que foi direto para o status de cult. Curiosamente, a voz da atriz no filme não é dela, ela foi dublada para as audiências internacionais.
A Máscara de Satã foi bem recebida pelo público, o horror gótico estava em alta desde o fim dos anos 50 com as produções da Hammer, e este gênero de filmes não tinha dificuldades em conseguir distribuição ao redor do globo. Mesmo limitada a este segmento, Barbara foi catapultada de “ninguém” para estrela. Daí só apareceu um problema: capturou as atenções dos produtores de cinema de maneira que estigmatizou a talentosa atriz neste tipo de personagem. Não tarda e a AIP a faz retornar para a América e Roger Corman a contrata para sua próxima empreitada no horror gótico com O Poço e o Pêndulo (The Pit and the Pendulum, 1961), adaptação da história de Edgar Allan Poe.
Novamente o filme não retrata Steele como mera vítima, ao contrário, ela interpreta uma mulher que quer levar seu marido (Vincent Price) a insanidade com a ajuda de seu amante (Anthony Carbone). O efeito colateral é que os dois se sucederam tão bem que o marido passa a pensar que é seu próprio pai, que calha de ser o torturador de sua esposa… Apesar de não ter o mesmo sucesso que o antecessor, a produção continua uma trama misteriosa e arrepiante com grande destaque para as atuações do casal principal. O negócio foi tão real que Steele se feriu levemente durante as filmagens, pois em uma cena Vincent Price chegou a apertar pra valer o pescoço a atriz. Tudo pela arte, hehehe…
Steele então fez uma aparição na série Adventures in Paradise e filmou um episódio de Alfred Hitchcock Apresenta, intitulado Beta Delta Gamma (1961, direção de Alan Crosland Jr.), mas foi em seu retorno para a Itália que estrelou outro clássico do gótico, L’orribile segreto del Dr. Hichcock/The Horrible Dr. Hichcock (1962) de Riccardo Freda. Desta vez, para variar, Steele interpreta a vítima a mercê de seu marido necrófilo e maluco (Robert Flemyng).
Com três filmes na bagagem que seriam lembrados como clássicos de seu estilo, Barbara tenta sair um pouco do gênero e evitaria estes papéis pelo resto de sua vida. Sua primeira tentativa foi com Il Capitano di Ferro/Revenge of the Mercenaries (1962) captaneado por Sergio Grieco. Uma aventura de piratas estrelado por Gustavo Rojo, mas que não atraiu a audiência, pois nesta época as aventuras italianas saiam as dúzias e este filme não conseguiu se destacar.
De uma importância muito maior é seu próximo filme, 8 1/2 de Frederico Fellini, com Marcello Mastroianni e Claudia Cardinale. Apesar de Steele ter um papel menor como coadjuvante, foi suficiente para receber criticas positivas e a afastar um pouco do segmento que fez dela um nome.
Entretanto, outros filmes não-horror depois do lançamento de 8 1/2 quase colocaram a atriz no anonimato novamente. Foram as comédias Le Ore dell’Amore/The Hours of Love (1963) e Le Voci Bianche (1964), os dramas Un Tentativo Sentimentale/A Sentimental Attempt (1963) e I Soldi (1965), os filmes de antologia I Maniaci/The Maniacs (1964, direção de Lucio Fulci ainda longe da fama e do gênero terror), Les Baisers (1964) e Amore Facile (1964).
Neste período ainda temos um filme de crime, Tre per una Rapina (1964) e um de espionagem chamado Le Monocle rit Jaune/The Monocle (1964). Este último deu um certo problema entre a atriz e o ator principal Paul Meurisse, que supostamente contraiu um preconceito por ela ser uma atriz de horror.
As produções de horror que Steele participou nestes anos também não foram muito proveitosas para a atriz, porém encontraram uma audiência cativa, apesar de não possuir sombra da qualidade de seus primeiros filmes: Lo Spettro del Dr. Hichcock/The Ghost (1963), pseudo-continuação de The Horrible Dr. Hichcock, também dirigido por Riccardo Freda, mas sem nenhuma relação com o original. O grande destaque deste filme são as cenas finais com Steele em uma atuação monstruosa (não literalmente falando) que sozinhas valem pelo filme inteiro.
Na sequência dois filmes do artesão de películas Antonio Margheriti, Danza Macabre/Castle of Blood (1963) e I Lunghi Capelli della Morte/The Long Hair of Death (1964). Em Castle of Blood, a atriz interpreta um fantasma amaldiçoado a repassar a noite de sua morte para sempre e em The Long Hair of Death, Steele novamente em papel duplo, interpreta uma esposa com planos obscuros e sua irmã, uma bruxa queimada que volta dos mortos.
Ainda temos 5 Tombe per un Medium/Terror Creatures from the Grave (1965) e In Gli Amanti d’Oltretomba/Nightmare Castle (1965) em que curiosamente Barbara interpreta papéis completamente opostos: no primeiro, um homem invoca a alma de seus desafetos que foram vitimas da peste para ter sua vingança e a atriz interpreta a esposa adúltera do homem, enquanto no segundo é a vez de Steele voltar dos mortos para se vingar do marido (Paul Muller).
Para fechar o pacote: In La Sorella di Satana/She-Beast (1966), dirigido por Michael Reeves de futura fama por O Caçador de Bruxas (de 1968, estrelado por Vincent Price) aonde Steele interpreta uma mulher que morre num acidente de carro, mas ressuscita possuída por uma bruxa, e finalmente Un Angelo per Satana/An Angel for Satan (1966), seu último papel em um gótico italiano, que é quase uma reprise de seu papel em A Máscara de Satã, todavia com uma qualidade muito menor.
Ainda em 1966 outra oportunidade cruzou a carreira da atriz para que ela provasse a si mesmo ser uma atriz polivalente em oposição a um único gênero: Der junge Törless/Young Törless, filme de estreia do diretor alemão Volker Schlöndorff (A Morte de um Caixeiro Viajante). A película é uma parábola ao nascimento do fascismo e Steele é coadjuvante, interpretando uma prostituta. Sua atuação é tão memorável que este é um dos favoritos pessoais da atriz.
Desafortunadamente, tal qual depois de 8 1/2, ao final dos anos 60 Barbara não conseguiu pegar mais papéis sérios como ela queria e mereceria. O lento e progressivo declínio começa com o melhor desta série, a comédia O Incrível Exército de Brancaleone (1966), onde a atriz interpreta uma princesa Bizantina sado masoquista. Os demais são Fermate il Mondo…Voglio Scendere (1968), o filme para a TV Honeymoon with a Stranger (1969) e o pior de todos, A Maldição do Altar Escarlate (1968) em que ela faz o papel de uma bruxa pintada de verde. Não só o talento de Steele é desperdiçado neste filme, mas também os de outros pesos-pesados como Boris Karloff, Christopher Lee e Michael Gough (o Alfred dos Batmans pré-Begins).
Ao final dos anos 60 Barbara Steele conheceu o roteirista e futuro marido James Poe e prometeu “nunca mais sair de um maldito caixão novamente“. Enquanto escrevia o filme A Noite dos Desesperados (1969), Poe escreveu um papel especialmente com Barbara em mente, porém o diretor Sydney Pollack divergiu e deu o papel de Alice LeBlanc para Susannah York.
Após este desapontamento, a atriz deixou a tela grande pelos próximos cinco anos, nesse ínterim nasce em agosto de 1971 seu único filho, chamado Jonathan Jackson Poe. Seu único trabalho neste período foi uma participação no seriado Galeria do Terror em 1972 no episódio “The Sins of our Fathers”, ambientado no século 19 em mais uma lembrança dos papéis góticos da atriz. Com o final do horror gótico anunciado, Steele estava tão identificada com o segmento que a fez famosa, que a falta de produções significou uma queda brusca de ofertas de trabalho.
Em 1974, Barbara Steele finalmente volta para a tela grande, ainda que coadjuvante e em um papel deslocado, no filme Celas em Chamas, um W.I.P. produzido por Roger Corman e que assinala a estreia de Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes) na cadeira de diretor. Provando que Steele dava sorte em “debuts” de diretores, em seguida foi a vez do canadense David Cronenberg e seu Calafrios (1975), novamente a atriz tem um papel pequeno, mas marcante.
Um pouco mais sério, I Never Promised You a Rosegarden de 1977 (direção de Anthony Page) é bem mais impressionante no impacto dramático que os anteriores – mais impressionante ainda por ser outra produção de Roger Corman – todavia a maioria das cenas com Steele acabaram picotadas no chão da sala de edição. Outros pequenos papéis apareceriam em 1978 com Pretty Baby – Menina Bonita de Louis Malle estrelando Keith Carradine, Susan Sarandon e uma jovem Brooke Shields, e La Clé sur la Porte/The Key is in the Door de outro diretor francês, Yves Boisset. Neste mesmo ano a atriz se separa de James Poe, que viria a falecer alguns anos depois.
A partir deste momento, por alguma razão, acabaram-se as ofertas para papéis em filmes mais sérios, entretanto o horror sempre a recebeu com os braços bem abertos. Não é de se surpreender que foi outra produção de Roger Corman que a reintroduziu no circuito com Piranha de 1978, em que Barbara interpreta a cientista louca que começou com todo o ataque dos peixes carnívoros.
Em 1980 Steele tentou entrar nos slashers com o subestimado Silent Scream (direção de Denny Harris), e apesar de ser um dos menos sangrentos da época, a atriz percebeu que esta não era a sua praia e abandonou o gênero pelo resto dos anos 80, este seria seu último trabalho (pelo menos até hoje) lançado nos cinemas.
Ao invés, Barbara Steele passou para o lado de trás das câmeras, como produtora associada (e em um minúsculo papel) na minissérie The Winds of War sobre os eventos que levaram ao ataque japonês a Pearl Harbor em 1941. A série foi um sucesso e rendeu quatro nomeações ao Golden Globe e a 13 Emmys, dos quais, levou três (fotografia, figurino e efeitos especiais). Uma sequência foi realizada em 1988, chamada War and Remembrance, também com Steele na cadeira de produtora. O êxito foi ainda maior: venceu três Golden Globes e três Emmys (edição, efeitos especiais e melhor minissérie, prêmio que por sinal foi recebido pela própria Barbara).
A associação da atriz com o produtor Dan Curtis (diretor de Drácula – O Demônio das Trevas) que resultou nas duas premiadas minisséries, possibilitou a volta de Barbara Steele ao horror: ela aceitou um papel no remake da novela sobrenatural Dark Shadows (1991), cuja versão original foi exibida entre 1966 e 1971 (lembrem-se que nos Estados Unidos, diferentemente do Brasil, as novelas são exibidas todas a tarde e não raramente chegam a romper décadas). Steele interpretou uma médica que tenta curar o personagem principal (Ben Cross) do vampirismo – sem sucesso, é claro. Em uma história paralela passada no século 18 a atriz também faz o papel de outra personagem.
Dark Shadows foi muito aguardada pelos fãs do original e inicialmente um grande hit na televisão, contudo o estouro da guerra do golfo fez com que os episódios precisassem ser remarcados a exaustão até que foi perdendo audiência com a confusão nos horários e foi cancelada após somente 12 episódios.
Em 1994, Barbara Steele foi até a Áustria para estrelar mais um filme do gênero, Tief Oben/Deep Above, dirigido por Willi Hengstler, uma original mistura de gótico, musical, zumbis e romance beirando o surreal. Infelizmente, a produção nunca foi lançada da maneira que merecia em qualquer mídia.
O absoluto oposto do próximo filme: após outros cinco anos de hiato, Barbara participou de uma ação bagaceira chamada O Profeta (que chegou a ter lançamento em VHS no Brasil). Se não acha que é fuleiro o suficiente, pense que este filme é uma produção de Roger Corman, dirigida por Fred Olen Ray com Don ‘The Dragon’ Wilson estrelando… Steele faz o papel de uma agente da CIA que realizou experiência com crianças e tenta eliminar suas cobaias, porém terá que sofrer as consequências nas mãos de Don Wilson. Nada muito complexo…
Após O Profeta, Steele passou quase 10 anos sem participar de qualquer outro filme, contudo em 2008 a a atriz participou da antologia de horror/comédia The Boneyard Collection junto com um elenco “all-star”: Tippi Hedren, Ray Harryhausen, Ken Foree, Brad Douriff, Robert Loggia (indicado ao Oscar por O Fio da Suspeita), Candy Clark (Zodíaco, A Bolha Assassina e indicada ao Oscar por American Graffitti), Susan Tyrrell (Do Sussurro ao Grito, indicada ao Oscar por Fat City), Kevin McCarthy (Grito de Horror, Piranha), Cassandra Peterson (a Elvira) e Brinke Stevens (The Slumber Party Massacre, Grito de Pavor, Vicious). Ufa…
Se um dia o horror gótico teve um rosto feminino, este foi o de Barbara Steele. A atriz se tornou muito maior que sua carreira e certamente merecia muito mais. Para fechar uso uma frase do autor Calvin Thomas Beck em seu livro Scream Queens – Heroines of the Horrors: “Sua emersão nos anos 60 trouxe não apenas glamour aos filmes de horror, mas também um estilo grandioso que foi aliado a um retorno às origens do gênero. Com madeixas cor de corvo delineando seus contornos e olhos verdes líquidos, ela é a elegância do horror personificada“.
Filmografia Selecionada:
1960 – A Máscara de Satã (La maschera del demonio/Black Sunday)
1961 – O Poço e o Pêndulo (Pit and the Pendulum)
1962 – L’orribile segreto del Dr. Hichcock/The Horrible Dr. Hichcock
1963 – 8 1/2 (8 1/2)
1963 – Lo Spettro del Dr. Hichcock/The Ghost
1964 – Danza macabra/Castle of Blood
1964 – I Lunghi Capelli della Morte/The Long Hair of Death
1965 – 5 Tombe per un Medium/Terror Creatures from the Grave
1965 – Amor de Vampiros
1966 – Un angelo per Satana/An Angel for Satan
1966 – Der junge Törless/Young Torless
1966 – La sorella di Satana/The She-Beast
1968 – A Maldição do Altar Escarlate (Curse of the Crimson Altar/The Crimson Cult)
1974 – Celas em Chamas (Caged Heat)
1975 – Calafrios (Shivers)
1978 – Piranha (Piranha)
1980 – Silent Scream
1994 – Tief Oben/Deep Above
1999 – O Profeta (The Prophet)
2008 – The Boneyard Collection






Eu assisti a Máscara de Satã, não costumo ter medo ao ver filmes de terror (normalmente eu começo a rir) mas esse realmente deu medo. Baita filmaço. Quem puder que assista porque é ótimo, mesmo a história não sendo tão original mas é muito bom sim. E a Bárbara é muito linda.