![]() Da Magia à Sedução
Original:Practical Magic
Ano:1998•País:EUA Direção:Griffin Dunne Roteiro:Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, Alice Hoffman Produção:Denise Di Novi Elenco:Sandra Bullock, Nicole Kidman, Stockard Channing, Dianne Wiest, Goran Visnjic, Aidan Quinn, Evan Rachel Wood, Mark Feuerstein, Caprice Benedetti, Camilla Belle, Lora Anne Criswell, Margo Martindale, Chloe Webb, Martha Gehman |
Quando Da Magia à Sedução (Practical Magic, 1998) estreou no Brasil — chegou por aqui em 8 de janeiro de 1999 —, não tive o menor interesse em vê-lo. Mesmo fã de horror e basicamente acompanhando todas os lançamentos, o trailer “alegrinho” deixava a entender que se tratava de um romance morno, com bruxas, paqueras e humor leve. Mesmo com um elenco de peso, contando com duas atrizes versáteis, Sandra Bullock e Nicole Kidman, e as veteranas Stockard Channing e Dianne Wiest, além de Aidan Quinn, parecia aquele filme que você termina com um sorriso no rosto pelo tom otimista, mas sem fazer jus a outras produções mais interessantes na temática, como a série teen Charmed, lançada no mesmo ano, e o polêmico divisor de águas, A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999).
Em 2001, Da Magia à Sedução teve sua estreia no SBT e passou a figurar na programação, mas também acontecia o surgimento do Boca do Inferno, e eu dava prioridade ao horror, à ficção científica, aos thrillers de investigação e à fantasia macabra. Assim, quando começaram a pipocar trailers e imagens de Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2, 2026), seguindo a tendência do cinema atual de reencontro, com produções cults apresentando continuações com resgate do elenco original, achei que era o momento de finalmente conhecer o longa de Griffin Dunne, mais conhecido como o amigo fantasma decrépito de Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London, 1981) e do clássico Depois de Horas (After Hours, 1985), de Martin Scorsese.
Não sei se eu teria a mesma impressão lá nos anos 90, mas a de alguém que está conhecendo o filme agora é a de que foi feita a escolha certa em tê-lo deixado passar. O filme tem inspiração light no romance homônimo de Alice Hoffman, que, de acordo com opiniões de leitores, tem um tom mais sombrio e evidencia melhor seu subtexto. Sim, dentro de um enredo sobre bruxas amaldiçoadas, na adaptação de Adam Brooks, Akiva Goldsman e Robin Swicord, é possível perceber um lado B sobre relacionamentos abusivos e rejeição social, além, é claro, do que salta aos olhos a respeito de empoderamento feminino.
Bullock e Kidman interpretam as irmãs Sally e Gillian, acolhidas por suas tias Frances (Channing) e Jet (Wiest), depois que perdem os pais, em decorrência da maldição de três séculos que atormenta os Owens. Ambientado em Massachusetts, o prólogo mostra a tentativa de execução da bruxa Maria (Caprice Benedetti), que sobrevive com a força de seus poderes, e amaldiçoa sua geração, por ter sido abandonada pelo pai de seu filho ainda não nascido. Dessa forma, todas as suas descendentes irão perder seus amados, quando a paixão se estabelecer e um besouro anunciar a tragédia.
Desde criança, Sally (interpretada pela semi-brasileira Camilla Belle) e Gillian sofreram bullying pelos locais, sendo já chamadas de bruxas. Mais poderosa que a irmã, Sally lançou em si um feitiço de somente se apaixonar por um homem que tenha olhos de cores diferentes, um verde e um azul, imaginando que tal condição especial pudesse evitar uma possível perda. Crescidas, Sally ainda sonha em ter uma companhia; enquanto Gillian alterna relacionamentos e explora outras regiões.
Mesmo consciente da maldição, Sally se envolve com Michael (Mark Feuerstein), um feirante, com quem tem duas filhas, Kylie (Evan Rachel Wood) e Antonia (Alexandra Artrip), ao passo que Gillian se encanta pelo búlgaro Jimmy Angelov (Goran Visnjic), sofrendo abusos e violência física. Quando Sally estava em seu momento de maior felicidade, a maldição entra em ação e Michael é atropelado por um caminhão. Ela resolve então buscar a irmã, resgatá-la do agressivo Jimmy, porém ambas se tornam reféns dele, que ameaça queimar o rosto de Gillian com seu anel. A partir daí, a trama adquire um tom temporariamente sério, com as irmãs assassinando o rapaz para depois trazê-lo de volta numa condição mais perversa.
Embora essa pudesse ser a proposta do segundo ato, o filme opta por provocar o flerte entre Sally e o investigador Gary Hallet (Quinn), que convenientemente “sofre” de heterocromia. Também o enredo não sabe muito bem lidar com o preconceito sofrido pelas irmãs por serem bruxas, e nem explora bem a ideia de tornar o vilão uma assombração ou entidade maléfica. Tudo é muito água com açúcar, até mesmo no último ato, com a possessão de Gillian. Facilmente as Owens conseguem convencer mulheres da cidade a participarem de um ritual bem cafona com vassouras compondo um círculo.
Quanto aos subtextos aos quais me referi, eles soam mais estranhos do que reflexivos. Como exemplo, é possível notar quando Sally perde Michael e pede que seja feito um ritual para trazê-lo de volta, sendo avisado de uma possibilidade assustadora de retorno: “Não me importa como ele voltará. Eu o quero de volta“, ela diz, remetendo a situações de agressividade que acompanhamos em telejornais em que moças aceitam o marido de volta em qualquer condição; com Jimmy, as irmãs chegam à conclusão que, por ele já ser ruim, provavelmente não tem como piorar. Mas por que pensam em trazê-lo de volta, se momentos depois o matam novamente e enterram no jardim? Outro subtexto perdido no enredo é o de rejeição social, que se resolve sem muito esforço como uma convenção do roteiro. Por outro lado, o empoderamento feminino é bem explorado, ainda que as moças da família Owen parecem ser dependentes de uma presença masculina. Aliás, você poderia se perguntar: por que a maldição envolve se apaixonar por algum homem e não simplesmente se apaixonar?
Para quem não se importa com essas reflexões e quer apenas uma comédia romântica com um bom elenco, Da Magia à Sedução pode valer a pena. A química entre Bullock e Kidman é absoluta, e suas personagens são carismáticas, dentro de suas diferenças, ao ponto de realmente sugerir uma continuação, ainda que tardia. Ora, como a tal maldição não foi sanada no primeiro, podemos concluir que o amor de Sally por Gary terá prazo de validade.






