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Se não me falha a memória, em meados do ano de 1976, mais ou menos, passava na TV, exatamente às 23 horas de sábado, a “sessão maldita” intitulada Cine Mistério. Bons tempos eram aqueles, e eu ainda um menino, deparava-me com minhas primeiras imagens de filmes de terror! Minha querida mãe proibia-me de assistir os mesmos, afinal eram cenas muito fortes para uma criança assistir. Então, eu e minha irmã mais velha dávamos um jeitinho e assistíamos escondidos. Foi neste tempo que vi pela primeira vez um filme sobre múmias! É lógico, eram os clássicos A Múmia (32) ou A Praga da Múmia (44), com Lon Chaney Jr.. Desta forma, considerei verdadeiramente este mito de terror e através de uma imagem de cinema, antes mesmo de eu aprender a ler e consultar livros, já tinha então uma ideia sobre o que seria o “antigo Egito”

A Múmia (1932)
A Múmia (1932)

No caso dos filmes de terror sobre a múmia, quase todos os enredos das histórias foram criados especialmente para o cinema. Parece que não saiu das linhas dos grandes livros de literatura, apesar do fundo que ilustram as obras com evocações e cenas que relembram os ritos mortuários do antigo Egito sejam evidentes.

A dramaticidade de um dos primeiros filmes sobre a múmia, em 1932, com o papel principal dado ao grande Boris Karloff, que parece mesmo ter nascido para fazer filmes de terror – é incrível, se meditarmos um pouco… Parece que o Monstro de Frankenstein (também magistralmente interpretado por Karloff em 31) e a múmia encontraram, no talento do ator, toda a expressão trágica que carregam em si mesmos!

A história do filme passava no deserto de Núbia, uma espécie de sítio arqueológico onde os pesquisadores faziam escavações e encontraram o túmulo da múmia com as relíquias do antigo Egito e a caixa contendo o papiro sagrado. É o início desta aventura pelos caminhos do desconhecido. Estes pesquisadores, financiados talvez pelo museu britânico, em expedição no ano de 1921, discutiam sobre o achado misterioso. A múmia encontrada pelos mesmos parecia ter sido de um condenado, que por sacrilégio fora enfaixado vivo e colocado dentro do sarcófago. Parece que sua morte foi bem desagradável, foi enterrado vivo…

A Múmia (1932)
A Múmia (1932)

Em uma das extremidades do sarcófago, as ditas palavras sagradas ou mágicas contendo orações do antigo livro dos mortos, com o objetivo de proteger o morto na outra vida, foram tiradas como parte do horrível castigo. Assim, parece que aquela múmia carregava consigo uma maldição muito forte pela eternidade afora. Junto do sarcófago, uma enorme arca de madeira que guardava uma outra menor que parecia ser de algum metal, ouro para ser mais exato! Mas antes mesmo dos arqueólogos abrirem a arca, uma terrível maldição escrita em hieróglifo alertava:

“Morte – punição eterna para qualquer um que abrir este ataúde, em nome de Amonha, o Rei dos Deuses!”

Ao decifrarem esta terrível maldição, hesitaram com prudência e não ousaram abrir… Os dois arqueólogos mais velhos discutem entre si, o abrir ou não abrir a enigmática arca, deixando um auxiliar, o mais jovem, sozinho na sala onde se encontrava o sarcófago da múmia, a arca de ouro contendo algo muito curioso… Que tipo de surpresa poderá conter dentro de uma arca mortuária lacrada há 3700 anos aproximadamente? Esta curiosidade levou o infeliz jovem a desafiar a maldição… A imprudência e a ousadia moram na juventude, por isso que vemos sempre a morte prematura de muitos mancebos… Com aquele indivíduo foi a mesma coisa! Aproveitou a oportunidade e abriu a arca de ouro, contendo o papiro sagrado de evocação dos mortos. Impulsionado pela curiosidade do desconhecido, invocou os mortos ao pronunciar os escritos. Para seu horror, atrás de si, a múmia voltava à vida, depois de mais de 3700 anos de sono profundo…

A cena da ressurreição da múmia lembrou-me um verso de Dante, extraído da “Divina Comédia“:

“Deste profundo sono fui tirado, por hórrido estampido estremecendo, como quem por força é despertado…”

Então, de repente, o choque! O jovem depara-se com a múmia viva, que imediatamente vai arrastando-se como medonho monstro do além. O jovem enlouquecido gargalha… mas sua imediata loucura já é o cumprimento da maldição! Mais tarde tem-se a notícia da sua horrível morte: “Um jovem completamente doido, enlouquecido, morre na aventura de uma expedição arqueológica…”

Particularmente, não tenho muito o costume de fazer a narração de um filme todo, pois dá-se a impressão que já não há mais o que se ver depois de “denunciadas” as melhores cenas, por isso quero reservar-me ao comentar sobre os filmes de múmias, ocultando as melhores cenas para que aqueles que ainda não assistiram, quando assim o fizerem, possam mergulhar no ainda desconhecido enredo de horror sem saber previamente as magníficas surpresas que esta arte lhes reserva…

A Mão da Múmia (1940)
A Mão da Múmia (1940)

O cinema soube explorar bem o assunto e produziu bastante filmes do gênero “horror da múmia“. Destacam-se: A Múmia, com Boris Karloff; A Praga da Múmia, com Lon Chaney Jr.; A Múmia, com Christopher Lee e Peter Cushing; A Mão da Múmia (40), com Tom Tyler; A Sombra da Múmia, com Lon Chaney; A Tumba da Múmia, também com Lon Chaney Jr.; e antes mesmo destes clássicos, já em 1909 estreava The mummy of King Ramses, depois em 1911, A Múmia Viva, e em 1915, Mummy and the humming bird, entre outros! Existe provavelmente cerca de mais de trinta filmes sobre múmias, sempre retratando os aspectos sobrenaturais onde a ressurreição da múmia parece evidente. Como uma antiga profecia, elas sempre estrangulam e matam os profanadores dos seus túmulos, mas uma coisa é certa, já existiram casos verídicos de pesquisadores ou esmo ladrões e profanadores de túmulos egípcios que foram inexoravelmente castigados ao abrirem túmulos escavados em solo egípcio. Não foram estrangulados por nenhuma múmia viva, mas com certeza morreram… Parece que a maldição ganhou um certo crédito pois dentre aqueles antigos túmulos, verdadeiras câmaras mortuárias, fungos e bactérias necrófagas pululam aos milhares, além de insetos venenosos como escorpiões e aranhas.

É provável que um indivíduo tão frágil como o homem moderno, tão desprotegido e cético, muitos destes, na ânsia de ficar milionário saqueando algum tesouro de um túmulo de faraó, tenham contraído alguma doença maligna nos pulmões, morrendo de alguma infecção ou peste oriunda da própria atmosfera da câmara mortuária! Mas não somente doenças pulmonares ou de pele causada por bactérias necrófagas, mas também vítimas de terríveis armadilhas projetadas pelos antigos egípcios com a específica função de castigo e morte. Poços com fundo repleto de lanças e espetos parecem esperar há mais de 3500 anos o corpo de algum infeliz! Em outros casos, morte por desabamento de enormes blocos de pedra ao forçar a entrada de algum túmulo que automaticamente aciona um dispositivo mecânico onde todas as portas se fecham por deslocamento de enormes pedras e os indivíduos morrem asfixiados como quem foi emparedado!

Estes acidentes raramente ouvimos falar, mas fazem parte do contexto ligado às maldições das múmias. Dentre as maldições antigas, outra que parece ter vingado ocorreu quando alguns idiotas, americanos, para variar, transformaram os corpos de várias múmias de plebeus em papel para indústria. O papel, não possuindo as características básicas de boa qualidade, acabou sendo usado para embrulhar carne. Mas todos os indivíduos que comeram carne embrulhadas com este papel, morreram! Este fato curioso foi narrado em um documentário muito interessante intitulado “Múmias – além da morte“, do qual possuo uma cópia em vídeo para os meus estudos.

A Sombra da Múmia (1944)
A Sombra da Múmia (1944)

Por volta do ano de 1881, Gaston Maspere, um célebre egiptólogo da França, junto com uma equipe bem preparada de pesquisadores, cientistas e arqueólogos, além, é claro, do auxílio básico e fundamental dos nativos egípcios, homens que se predispõem a fazer a parte bruta do serviço, as escavações e o transporte de pedras ou areia dos sítios arqueológicos, eles encontraram uma enorme câmara mortuária ao fundo de uma rocha. Para maior espanto dos mesmos, acharam urnas, caixas, estátuas raríssimas como peças de arte, várias múmias e objetos ligados aos ritos funerários. Como se não bastasse o achado, Gaston Maspere, que também era na época o diretor do museu do Cairo, descobriu que se tratavam das múmias dos maiores imperadores do Egito, Amenophis, Ramsés II, Thutmosis III e Sethos. Sendo Ramsés II um dos mais importantes faraós do antigo Egito. Também no ano de 1922, pesquisadores descobriram o túmulo de Tutankamon, e o curioso é que uma sinistra maldição estava ali escrita em hieróglifos. A inscrição parecia amaldiçoar com a morte todos os vivos que viessem a violar o sagrado túmulo.E é fato comprovado que diversos dos que estiveram envolvidos neste achado, acabaram tendo mortes súbitas ou violentas, pois os tesouros ali encontrados atiçaram a ganância e o ódio de muitos ladrões e saqueadores criminosos…

Concluindo, parece mesmo que é o fantasma da morte que está por detrás de todos estes ritos fúnebres, maldições, medos, condenações, desde já os primevos seres humanos, que ainda mal sabiam o significado da morte, culminando nas primeiras civilizações como as da Mesopotâmia até o Egito. Falei do Egito, mas não posso esquecer que aqui nas Américas, civilizações antigas como a dos Maias, Incas e Astecas, também tinham o costume de mumificar seus mortos, na esperança de conservar o corpo para uma suposta ressurreição. Mas, enquanto nada ainda ocorreu, ninguém ressuscitou até agora, cabe a nós invocarmos todas as lendas e maldições, histórias e fatos, nomes que estão ligados a estas fascinantes civilizações do passado, pessoas que de uma forma ou de outra sonharam um dia…

Livros, bons filmes, tudo deverá contribuir para que vivam para sempre na memória das gerações futuras. Somente assim, conservando, cultuando e respeitando todas as manifestações culturais e artísticas é que a humanidade terá uma segunda chance de regeneração…

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