4.2
(6)

0153.CR2

A Órfã
Original:Orphan
Ano:2009•País:EUA
Direção:Jaume Collet-Serra
Roteiro:David Johnson, Alex Mace
Produção:, Susan Downey, Jennifer Davisson, Joel Silver
Elenco:Isabelle Fuhrman, Vera Farmiga, Aryana Engineer, Peter Sasgard, Jimmy Bennett, CCH Pounder, Margo Martindale, Karel Roden, Rosemary Dunsmore, Brendan Wall, Genelle Williams

Vale a pena traçar um rápido perfil da Dark Castle, produtora americana cujo foco principal são os filmes de horror. Ainda no final dos anos 90, fãs assumidos do gênero (principalmente daquele produzido entre as décadas de 50 e 60), o produtor Joel Silver (Matrix) e o diretor Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro) se uniram para dar vida a Dark Castle Entertainment. O nome do projeto era uma homenagem ao lendário Willian Castle – cabe aqui uma pequena digressão: Castle ficou famoso pelo modo “criativo” como promovia seus filmes B. Entre as ousadas invenções e trucagens estão as famosas campainhas debaixo das poltronas do cinema, que eram acionadas nos momentos de maior tensão, em Força Diabólica (The Thingler, 1959); um seguro de vida foi distribuído aos espectadores de Macabro (Macabre, 1958); em A Casa Dos Maus Espíritos (House On Haunted Hill, 1958), uma estrutura batizada de Emergo permitia que esqueletos reais circulassem pela sala de exibição; em 13 Fantasmas (13 Ghosts), foram distribuídos óculos que supostamente permitiam ver os espectros que eram invisíveis a olho nu; em Trama Diabólica (Homicidal, 1961), um pequeno intervalo era dado para que os espectadores mais medrosos abandonassem a sessão; em Mr. Sardonicus (Mr. Sardonicus, 1961), o público recebia cartões fosforescentes com polegares desenhados que seriam usados pouco antes do término da exibição, onde poderiam votar em punir ou não o vilão da trama (isso mesmo, o predecessor do extinto programa Global Você Decide). E foram exatamente dois remakes de filmes dirigidos por Willian Castle as primeiras investidas da Dark Castle. Mas infelizmente, ainda que A Casa da Colina (1999) e 13 Fantasmas (2001) reunissem no elenco nomes de peso como Geofrey Rush e abusasse de “impecáveis” efeitos especiais, as duas primeiras produções da Dark Castle não empolgaram público ou crítica, e ainda deixaram os fãs do gênero um tanto quanto desconfiados. Seguiram produções no mesmo molde que também não chegaram a emplacar: Navio Fantasma (Ghost Ship, 2002), estrelado por Gabriel Byrne; Na Companhia do Medo (Gothika, 2003), com a ganhadora do Oscar Halle Barry e Robert Downey Jr.; A Casa de Cera (The House Of Wax, 2005), refilmagem de um clássico de 1953; A Colheita do Mal (The Reaping, 2007), com Hillary Swanky e muitos efeitos especiais; RocknRolla (RocknRolla, 2008), investida fora do gênero, com direção do ex-marido de Madonna, Guy Ritchie, que ironicamente agradou, mas acabou fracassando nas bilheterias norte-americanas.

Dirigido pelo cineasta catalão Jaume Collet-Serra (que já havia assinado pela produtora A Casa de Cera) e trazendo também entre os produtores o astro Leonardo de Caprio, A Órfã marca a maturidade da Dark Castle, que após vários tropeços, parece ter aprendido a lição. Desta vez deixaram de lado tanto os extravagantes efeitos especiais (que na maioria das vezes são persona non grata entre os fanáticos do gênero) quanto os nomes famosos no elenco, e num lapso de sensatez investiram num roteiro inteligente e original.

Na trama, Kate e John têm a vida conjugal abalada após a morte do terceiro filho, ainda durante a gravidez. Embora a união do casal seja mantida pelo amor dos outros filhos (Daniel e a doce Max, que sofre de deficiência auditiva), a mãe continua atormentada pelo sentimento de culpa e pela frustração. Numa tentativa desesperada de superar a tragédia, o casal decide adotar uma criança em um orfanato para meninas. Lá eles encontram a encantadora Esther, uma garotinha russa de 9 anos com uma inteligência excepcional. Mas “há algo errado com Esther“ (como avisa o pôster oficial). A primeira a suspeitar que aquele rostinho angelical possa esconder algum segredo perigoso é Kate. Mas bastam alguns dias para que a maquiavélica Esther já esteja manipulando a todos, corrompendo a família e despertando fantasmas esquecidos no passado, como o alcoolismo da mãe e uma suposta traição do pai. O maior mérito do roteiro escrito pelos novatos David Johnson e Alex Mace está no desenvolvimento do horror psicológico, que cresce de forma exponencial até o clímax, quando ocorre a sua materialização, de maneira violenta e perturbadora.

A Orfã (2009)

Filmes que mostram a maldade se manifestando em uma criança, direta ou indiretamente, como O Exorcista (The Exorcist, 1973), A Profecia (The Omen, 1976) ou O Anjo Malvado (The Good Son, 1993, cujo plot inicial se assemelha ao de A Órfã), sempre geraram muita polêmica, principalmente entre o público mais tradicional e conservador. Mesmo nos dias atuais, a ideia de uma criança capaz de cometer crimes violentos é inaceitável, principalmente para uma sociedade cristã que acredita num mito de pureza infantil incorruptível.

(os TRÊS próximos parágrafos apresentam SPOILERS: revelações importantes sobre o enredo)

Em A Órfã, a dúvida sobre a inocência da pequena Esther não dura muito tempo. O que parece apenas um drama envolvendo alcoolismo da mãe, o ciúme dos novos irmãos, e o instinto de autopreservação de uma criança que sempre viveu abandonada, transforma-se num suspense eficiente e muito bem trabalhado, que faz questão de não inventar motivos que condicionem Esther a ser o que realmente é. É a irracional manifestação da maldade. E neste ponto o filme não poupa o espectador comum (aqueles não acostumados às produções do gênero): entre outras crueldades, a menina mata uma freira a marteladas, empurra uma amiguinha de cima de um enorme escorregador, tenta matar o irmão queimado e acreditem, numa cena um tanto incômoda, tenta seduzir o próprio pai.

Outra sequência que chama a atenção, pela insanidade, é quando Kate ameaça bater em Esther. A mãe segura o filha pelo braço e a empurra para o chão. Rapidamente o pai intervém, condenando a atitude da mãe. Durante a noite, a garota desce até o porão, onde espreme o braço numa morsa até partir o osso (toda a sequência é mostrada on-screen). De volta para o seu quarto, Esther começa a chorar. O pai a leva ao hospital e acredita que foi Kate quem lhe quebrou o braço.

A Orfã (2009)

A Reviravolta

O filme ainda guarda uma reviravolta autêntica, mas que pode acabar desagradando alguns. A mãe, desconfiada do comportamento da filha, procura informações sobre o orfanato russo onde supostamente Esther teria vivido antes de vir para a América. Para surpresa de Kate, a entidade que consta nos documentos não é um orfanato, e sim um hospício. Isso mesmo, um hospital psiquiátrico para pacientes perigosos. Mas que Esther não é normal, como já foi dito antes, o próprio pôster já alertava. O problema é que o tal hospital russo afirma não aceitar crianças. Nem o mais esperto dos espectadores anteciparia tal twist. A demoníaca órfã é na verdade uma adulta, com mais de 30 anos, que sofre de um caso raro de nanismo (deficiência que já foi documentada na vida real). Esta reviravolta acaba amenizando a polêmica de algumas cenas mais fortes, como a violenta morte da freira ou a insinuação sexual para cima do pai, mas não deixa de ser originalíssima.

Nova Safra de Diretores Hispânicos

Só para relembrar alguns nomes consagrados que fazem parte desta nova geração de realizadores nascidos em países hispânicos: Guillermo Del Toro (Labirinto do Fauno, Espinha do Diabo e Hellboy); Jaume Balagueró ([REC], A Seita e A Sétima Vítima), o ótimo Alex La Iglesia (O Dia da Besta, A Comunidade e Ação Mutante), Alejandro Almenábar (Tesis, Preso Na Escuridão e Os Outros); Jaume Collet-Serra junta-se a este seleto grupo de diretores. Em A Órfã, seu único deslize é abusar de alguns clichês, como os sustos fáceis causados por ruídos ou a cena clássica do reflexo no espelho do banheiro. Mas Collet-Serra mostra habilidade ao explorar as belas paisagens de inverno que compõe o cenário. O local onde transcorre a ação é cercado por árvores e por muita neve, o que cria uma atmosfera opressora, mas extremamente verossímil. O cineasta consegue ainda manter a sobriedade e evitar os exageros característicos das produções hollywoodianas do gênero.

Mas a grande revelação em A Órfã é a jovem Isabelle Fuhrman (de apenas 12 anos) interpretando Esther, que se destaca em todas as cenas, mesmo quando contracena com atores mais experientes, como Vera Farmiga (a mãe) e Peter Sasgard (o pai). A jovem atriz convence em todas as nuances de sua personagem, de inocente ou manipuladora até o momento da reviravolta onde sua nova face é revelada. O desempenho do casal Vera e Peter não compromete, mas acaba apagado pelo talento do núcleo infantil (Jimmy Bennett, que interpretou o Capitão Kirk quando criança na nova versão de Star Trek e a pequenina Aryana Engineer também têm atuações acima da média, como os irmãos Daniel e Max). Curiosamente, Vera Farmiga já interpretou a mãe de outra criança problemática em Joshua, O Filho Do Mal.

A Órfã estreou em julho de 2009 nos cinemas americanos e no dia 4 de setembro nas salas brasileiras e faturou mais de 70 milhões de dólares. A crítica internacional ficou dividida e alguns grupos ligados a abrigos para órfãos questionaram se o enredo não seria nocivo e preconceituoso, e se não influenciaria negativamente os processos de adoção ao redor do mundo. (Opinião pessoal: esta é uma posição exagerada, já que A Órfã é somente um filme de ficção, não um documentário ou algum estudo científico sobre a adoção de crianças).

Enfim, se A Órfã não chega a ser um filme brilhante, pelo menos proporciona alguns momentos de muita tensão, partindo de um roteiro convencional, mas com uma reviravolta autêntica e um elenco infantil muitíssimo acima da média.

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10 Comentários

  1. É assustador no filme do terror como A ÓRFÃ, meu Deus dos céus 🙄🙄😬😬😬

  2. Um filme interessante, que ia bem até a tal reviravolta do final, que é forçada demais. Preferiria que toda trama fosse centrada no caráter de Esther, sem a surpresa final, desnecessária. A única coisa que a revelação faz é aliviar o incômodo deixado por uma criança tentando seduzir o próprio pai.

  3. Como pode um filme tão ruim, com tantos furos, previsível e “clichegista” ter 4 caveiras? Fala sério cara, isso não merece nem duas caveiras.

  4. Lembro que a crítica em geral estava massacrando o filme. Fui ao cinema sem levar muita fé e me surpreendi. Por isso é bom nem sempre dar muito crédito para a crítica, já que muitos críticos de cinema tem mesmo uma certa má vontade com o gênero e colocam tudo no mesmo balaio. O filme é envolvente, tenso e violento e tem um elenco fantástico. Adorei o final, principalmente porque alguns anos antes tinha lido sobre um caso muito parecido, achei até que o filme tivesse se inspirado neste caso, mas ninguém da produção confirmou isto (não vou entrar em detalhes pra não encher de spoilers aqui). Só posso dizer uma coisa, quem acha a reviravolta final inverossímil, saiba que a vida real pode ser muito mais chocante que os filmes.

  5. Este filme é uma obra de arte atual, o roteiro é coerente, forte. Te leva a passar o pensamento por vários clichês do que seria, e te surpreende com o real motivo de tudo. Lembro que vi com um grupo de amigos e as reações eram incríveis. Amo filmes de terror com monstros, mas uma menininha botar medo em adulto sem cara feia é muito mais difícil, e nesse caso é muito bom mesmo.

  6. Amo esse filme ele é muito massa na minha opinião ele devia ganhar o “OSCAR ” de o melhor filme de terror. Quem não gosta desse filme é muito trouxa que fica morrendo de medo eu não eu adorei o filme eu assisti sozinha e não fiquei com medo.

  7. CLÁSSICO DOS NOVOS TEMPOS,TBM ADOREI ESSE FILME,SEM FALAR NO ÓTIMO ELENCO.

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