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Esse Star Wars está diferente…

Desde o primeiro anúncio de um novo live-action com o Príncipe de Eternia, a primeira imagem que se consolidou entre os fãs foi esta primeira versão, de 1987, de Gary Goddard, exibida pela primeira na Tela Quente da Rede Globo em 1º de julho de 1991. Os adolescentes da época já estavam familiarizados com o universo criado por Mark Taylor nos desenhos exibidos na emissora durante o Balão Mágico e posteriormente no Xou da Xuxa. A ideia de ver os personagens de “He-Man e os Defensores do Universo” em “carne e osso” (só osso se pensar no vilão Esqueleto) trazia uma boa expectativa para os fãs, aceitando facilmente o protagonismo do astro de ação e luta Dolph Lundgren, enquanto imaginava como iríamos ver Gorpo, a Feiticeira, Mentor, Teela, Maligna, o Pacato e, claro, o vilão-mor das aventuras, em efeitos tradicionais de maquiagem, sem bonecos digitais. Com os trailers e imagens de Mestres do Universo (Masters of the Universe, 2026), de Travis Knight, atualmente nos cinemas, a vontade de rever o anterior, bastante questionado na época, cresceu como os músculos do Príncipe Adam na elevação da Espada do Poder.

O sucesso do desenho, principalmente na produção de bonecos e brinquedos, estimulou a ida do personagem aos cinemas. O Segredo da Espada Mágica (The Secret of the Sword, 1985), primeiro longa com o herói, estreou nos cinemas americanos em março de 1985 – e teve uma passagem no Brasil em julho do ano seguinte – e foi muito bem recebido, trazendo algumas ideias para uma versão live-action. O roteiro então foi rascunhado por David Odell, com reescritas de Goddard e Stephen Tolkin. A Mattel, responsável pela produção dos brinquedos, teve uma influência imensa na adaptação e protestou contra a escolha de atores, e pelas diferenças em relação aos produtos que produziam. Houve atrasos nas filmagens e até mudanças de cenas, com a empresa sendo maleável somente com a queda das vendas de seus bonecos.

Com um orçamento de US$22 milhões de dólares, a Cannon tentou vendê-lo como um novo Star Wars, ignorando que os personagens já tinham fãs próprios. O longa estreou em 7 de julho de 1987, ficando pouco em tempo em terceiro entre as estreias. Nas semanas seguintes, somado ás críticas negativas, o filme perdeu audiência, chegando ao final de sua passagem nas telas grandes com pouco mais de US$17 milhões, afundando qualquer perspectiva de criação de uma franquia. Chamado pelos críticos de “tédio colossal” e “épico mal feito e mal executado”, sua versão para os cinemas não apagou o interesse pelos “mestres do universo“, tanto que os desenhos continuaram sendo exibidos na TV durante os anos 90 e início dos 2000, foi lançada a série animada He-Man e os Mestres do Universo (He-Man and the Masters of the Universe, 2002-2004) com novos traços para os personagens, além de uma versão ainda mais atualizada de mesmo nome, em animação digital, pela Netflix, entre 2021 e 2022.

Depois de todas essas versões e criações (ainda só tenho na lembrança os desenhos originais e o primeiro live-action), rever Mestres do Universo é uma experiência bem divertida. É uma produção brega realmente, com personagens vestidos como cosplays do desenho, maquiagens toscas e uma relação imensa com o formato Star Wars. Mas é uma produção sincera e saudosa, algo como viajar ao encontro do Quarteto Fantástico do Corman e dO Incrível Hulk de Lou Ferrigno, com concepções risíveis, ainda que envolta em muito carisma.

O filme começa com uma visão tímida de Eternia, onde o Esqueleto (Frank Langella) está no comando do Castelo de Grayskull, considerado o centro de poder do universo. Com o controle, seu exército está em ação para capturar seus inimigos, conseguindo manter sob seus domínios a poderosa Feiticeira (Christina Pickles), drenando seu poder até a próxima Lua, quando se tornará o ser mais poderoso do universo. Em plena batalha está o herói He-Man (Lundgren) confrontando os inimigos com a ajuda de Mentor (Jon Cypher), o Mestre das Armas, e sua filha adotiva Teela (Chelsea Field), a Capitã da Guarda Real e uma das treinadoras do Príncipe Adams, jamais mencionado no filme.

Depois que salvam o prisioneiro e “chaveiroGorpo (Billy Barty), que no desenho é um feiticeiro originário da dimensão de Trolla e é o alívio cômico da produção, ele explica que foi sequestrado por ter criado uma Chave Cósmica, capaz de abrir portais para qualquer lugar a partir de suas notas musicais, e mostra o artefato aos heróis. Pensando em salvar Feiticeira, eles invadem o Castelo, mas são facilmente dominados pelo exército, buscando uma fuga com a Chave e indo parar no Planeta Terra dos anos 90, onde a órfã Julie Winston (Courteney Cox, bem novinha) está prestes a deixar a Califórnia antes mesmo da formatura, para lamento de seu namorado aspirante a músico Kevin Corrigan (Robert Duncan McNeill). Ambos encontram a Chave em um cemitério, enquanto visitavam os túmulos dos pais de Julie, mortos em um acidente aéreo, e, ao acioná-la, permitem que a terrível Maligna (Meg Foster, bem diferente da personagem original, mas ainda assim bem caracterizada) saiba onde ela e He-Man estão. Com a mentalidade de um vilão de desenho, o Esqueleto não quer matar seu arqui-inimigo para evitar que se torne um mártir em Eternia, mas fazê-lo se ajoelhar e tornar seu escravo. Com a ajuda de Maligna, ele envia alguns soldados à Terra, como o “homem-cobraSaurod (Pons Maar), Blade (Anthony De Longis), o Homem-Fera (Tony Carroll, com uma máscara estática) e Karg (Robert Towers) – senti falta do Aquático e do Mandíbula.

Apesar de terem um localizador, sempre que chegam a um destino a chave já está em outro. Impressionado com o poder musical da Chave e imaginando ser um sintetizador, Kevin tenta vendê-la para o amigo Charlie (Barry Livingston), que administra uma loja de instrumentos musicais, e é incomodado pela polícia, através do detetive Lubic (James Tolkan, falecido há alguns meses). Depois que He-Man encontra Julie e os demais, além da chave, ainda precisam enfrentar os inimigos e o próprio Esqueleto, que chega à Terra para aprisionar pessoalmente seu principal oponente. He-Man e os demais têm pouco tempo para salvar Feiticeira e retornar para Eternia antes do nascer da Lua.

Como se trata de uma fantasia épica, muitos dos percalços do enredo podem ser perdoados como exageros dos personagens, nenhuma morte significativa ou ousadias. O que não se explica é o desaparecimento da população da Califórnia em plena batalha nas ruas com destruição de lojas e lasers sendo disparados por todo lado; assim como a ideia boba do Esqueleto, depois de possuir as duas Chaves, de invadir a Terra para enfrentar o He-Man em vez de voltar para Eternia e deixá-los presos para sempre ali. Se o objetivo maior era a Chave, o retorno acabava com todos os seus problemas, sem que precise se preocupar com o que a população de Eternia vai achar disso. Ora, você é o ser mais poderoso do universo, então mantenha um reinado de autoritarismo, sem qualquer ameaça.

Se por um lado é bom ver os centuriões em ação, ainda que os efeitos não sejam muito convincentes, é impossível não sentir falta do Pacato, também conhecido como Gato Guerreiro. O Rei Randor também poderia ser brevemente mencionado, assim como a Rainha Marlena, pais do Príncipe Adams. Os fãs também devem ter sentido falta de um momento mais impactante no famoso grito “Pelos poderes de Grayskull, eu tenho a força“, o espinafre do personagem. Ele até acontece, mas sem qualquer mudança significativa; ora, o He-Man em nenhum momento está na sua condição Príncipe Adams. E, por fim, a aventura teria um gosto melhor se fosse somente ambientada em Eternia, sem a necessidade desse encontro entre mundos.

Mesmo com seus problemas e sem arranhar sequer a superfície do material original, Mestres do Universo ainda diverte como uma aventura de capa e espada cafona, monstros e combates entre o bem e o mal. Merecia uma produção melhor, uma dedicação mais absoluta à mitologia da série animada original, mas vale como resgaste saudoso de uma época em que as maiores preocupações era torcer para que o desenho exibido não fosse repetido, aguardando o próximo conselho de He-Man.

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