![]() Contatos Imediatos do Terceiro Grau
Original:Close Encounters of the Third Kind
Ano:1977•País:EUA Direção:Steven Spielberg Roteiro:Steven Spielberg, Hal Barwood, Jerry Belson, John Hill, Matthew Robbins Produção:Julia Phillips, Michael Phillips Elenco:Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon, Bob Balaban, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Roberts Blossom, Philip Dodds, Cary Guffey, Adrienne Campbell, Lance Henriksen, Merrill Connally, George DiCenzo |
Qual foi o seu primeiro contato com os seres extraterrestres de Steven Spielberg? Na inauguração da TV Manchete, em 5 de junho de 1983, eu estava entre os espectadores da primeira exibição de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, quando a emissora alcançou o incrível feito de superar a audiência do programa Fantástico, da Rede Globo. Com o sucesso, a Manchete passaria a vincular seus comerciais as cinco notas musicais, usadas na comunicação com os alienígenas. Naquela época, mesmo com sete anos, eu já havia visto E.T.: O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982) e estava apaixonado pelo cinema fantástico do cineasta e pela Sétima Arte, o que contribuiu significativamente para o desenvolvimento do meu caráter cinéfilo. Curiosamente, apesar de fã absoluto do longa, boa parte das vezes em que revi o filme foi através das reprises na TV aberta, ainda que duas versões alternativas tenham sido feitas nas décadas seguintes, com acréscimo de cenas e cortes do diretor em lançamentos especiais em DVD.
O conceito de Contatos Imediatos do Terceiro Grau já fazia parte dos planos de um jovem Spielberg, desde quando acompanhou ao lado do pai uma chuva de meteoros em Nova Jersey. Ele fez um pré-acordo com a Columbia Pictures em 1973 sobre a intenção de desenvolver um filme de ficção científica, pensando inicialmente em um documentário sobre pessoas que haviam sido abduzidas ou tido contatos visuais com seres de outro mundo, pois o orçamento estava em apenas US$2,5 milhões de dólares. Seria chamado de Watch the Skies, referenciando uma frase dita no final de O Monstro do Ártico (The Thing from Another World, 1951). Quando passou a imaginar uma produção de ficção, Spielberg já vinha com ideias megalomaníacas de fazer naves pousarem na Robertson Boulevard em West Hollywood, Califórnia, sem que o orçamento fosse capaz de cobrir seus intentos.
Adiou o projeto para a realização de um “filminho” sobre um tubarão branco atacando nas proximidades de uma cidade litorânea. O sucesso de Tubarão ampliou o orçamento para US$2,7 milhões de dólares para a realização de Watch the Skies, mas o roteiro de Paul Schrader, intitulado Kingdom Come, não agradou o cineasta. Trazia um oficial da Força Aérea de 45 anos chamado Paul Van Owen, que trabalhou no Projeto Blue Book (um nome secreto para estudos sobre OVNIs, inciado em 1952 e encerrado em 1969), e tentava desmascarar boatos sobre invasões alienígenas até ter uma experiência com um e passar a ameaçar o governo a revelar a verdade. Já a proposta de John Hill mudava o protagonista para um policial, numa trama de espionagem que duplamente desagradou Spielberg: ele queria que o personagem principal fosse uma pessoa comum e não queria um tom James Bond para seu filme.
A ideia de uma criança abduzida partiu de amigos de Spielberg, e ele decidiu escrever o roteiro por conta própria. Contratou J. Allen Hynek, que trabalhou com a Força Aérea dos Estados Unidos no Projeto Blue Book, para auxílio científico, para trazer um tom mais próximo do que poderia realmente acontecer a partir dos acontecimentos do filme. Quando a NASA escreveu uma carta para o cineasta pedindo para não fazer o filme por considerá-lo “perigoso“, Spielberg encontrou a motivação que precisava para a realização de um blockbuster: “Realmente encontrei minha fé quando soube que o Governo era contra o filme. Se a NASA dedicou tempo para me escrever uma carta de 20 páginas, então eu sabia que algo devia estar acontecendo.”
Enquanto as filmagens aconteciam, já com o título original, os valores de custos aumentavam, chegando a um total de quase vinte milhões. A Columbia atravessa um período complicado financeiramente, e chegou a dizer que se soubesse do orçamento final, jamais teria aceitado fazer o filme. Somava-se a isso as complicações da filmagem, problemas técnicos que se acumulavam, além de fenômenos meteorológicos como tempestades tropicais e raios que chegaram a danificar um dos estúdios. Mesmo com todos os entraves, Contatos Imediatos do Terceiro Grau fez um estrondoso sucesso, conquistando mais de US$280 milhões de dólares, críticas positivas e prêmios. Concorreu a nove Oscars, levando dois: Melhor Fotografia (Vilmos Zsigmond) e Prêmio Especial de Realização (por “Edição de Efeitos Sonoros“). Em geral, foram 13 prêmios mais do que merecidos, além do longa despontar até hoje em várias listas das melhores produções de ficção científica e até entre os melhores do cinema mundial.
Mesmo numa revisão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau ainda funciona bem nas três versões: Versão Original para Cinema (135 minutos), Edição Especial (132 minutos) e Edição de Colecionador/Corte do Diretor (137 minutos). Embora esta última seja a que tenha mais cenas, ela não é completa. Na verdade, nunca foi lançado um material bruto do filme. Por exemplo, a Especial contém cenas filmadas no interior da nave-mãe, vista na última cena do filme. Spielberg se arrependeu de tê-la filmado e não a acrescentou em sua versão final. Spielberg contou porque teve que filmá-la: “Eu queria ter mais seis meses para terminar este filme e lançá-lo no verão de 1978. Eles me disseram que precisavam desse filme imediatamente. Enfim, Contatos Imediatos foi um enorme sucesso financeiro e eu disse a eles que queria fazer minha própria versão do diretor. Eles concordaram com a condição de que eu mostrasse o interior da nave-mãe para que tivessem algo para apoiar uma campanha de [reedição de marketing]. Eu nunca deveria ter mostrado o interior da nave-mãe.“. Depois da Especial, ele lançou a sua versão ideal somente em 1998, excluindo a cena.
Agora, com o lançamento de Dia D, quarto encontro de Spielberg com alienígenas (quinto, se contar Firelight), vale a pena relembrar a trama principal de um de seus maiores sucessos e participar das teorias que dizem que o novo filme seria uma continuação direta dele. O longa começa com um fenômeno estranho, investigado pelo cientista francês Claude Lacombe (François Truffaut), junto com o intérprete e cartógrafo David Laughlin (Bob Balaban): o ressurgimento de cinco aeronaves do chamado Voo 19, que desapareceram sobre o Triângulo das Bermudas; mais tarde, eles também investigam o reaparecimento do SS Cotopaxi, que teria sumido em 1925 (somente em 2020, um naufrágio descoberto em 1980 permitiu entender o que motivou o desaparecimento). Já em Muncie, Indiana, um garotinho, Barry (Cary Guffey), acorda com seus brinquedinhos se movimentando sozinho e é atraído por luzes estranhas no céu, para desespero de sua mãe Jillian (Melinda Dillon).
Com diversos apagões na região, o operador Roy Neary (Richard Dreyfuss) é chamado para investigar, testemunhando luzes e seu carro sendo afetado por algo no céu. Ele quase atropela Barry, e tem o primeiro encontro com Jillian. Ambos ficam com queimaduras no corpo e desenvolvem um estranho fascínio por uma forma montanhosa: enquanto ela faz desenhos, Roy enxerga a montanha no creme de barbear, no purê de batata e até no travesseiro, tornando-se obcecado pela estrutura até resolver contruir uma minuatura em sua casa, e afastar a esposa Ronnie (Teri Garr) e seus três filhos. Em uma nova aproximação das naves, Barry é abduzido.
Apesar das inúmeras testemunhas, as aparições ainda são questionadas. Lacombe e Laughlin descobrem em Dharamsala, no norte da Índia, que os OVNIs estão emitindo cinco notas musicais, repetidas na canção dos locais. Ao enviar o som ao espaço, recebem números que logo são identificados como coordenadas geográficas, que apontam para a Torre do Diabo, perto de Moorcroft, Wyoming. É exatamente essa Torre que tem atraído o interesse de Roy e Jillian, que descobrem o local em uma reportagem na televisão sobre isolamento da área por vazamento de gás tóxico. Eles também percebem que outras pessoas também estão se sentindo atraídas e resolvem partir numa jornada à Torre em busca de uma resposta.
Contatos Imediatos do Terceiro Grau se divide em notados três atos: no primeiro, há a aparição das naves alienígenas e os fenômenos estranhos; no segundo, depois que Barry desaparece, os alienígenas dão lugar à jornada dos obcecados pela montanha, a relação familiar de Roy e as descobertas dos cientistas. O terceiro ato é sem dúvida o mais interessante de todos, no encontro com as naves e a comunicação sonora, em um espetáculo visual de luzes e cores. Diferente do que é costume em produções do estilo, os americanos e cientistas não fazem o estereótipo desagradável, com uma postura mais curiosa do que o combate com os invasores alienígenas. E você pode notar entre os rostos a presença de Lance Henriksen, ator de inúmeros filmes B, com bastante aparições no horror.
Há quem aponte algumas “falhas” na estrutura narrativa de Spielberg ao despender muito tempo na exploração científica e nos aspectos técnicos numa sugestão do que poderia ser uma aproximação alienígena. Pela forma como o longa se desenvolve, é até compreensível que o enredo saia do âmbito familiar para um fenômeno mundial. Realmente Spielberg arriscou no desenvolvimento de um blockbuster que poderia não ter dado certo, afundando sua carreira. Contudo, Contatos Imediatos de Terceiro Grau veio para consolidar sua carreira como cineasta de grandes produções, grandes orçamentos e elenco.
Ele aborda temas profundos sobre religiosidade, com analogias judaico-cristãs, fazendo associação entre a Torre do Diabo e o Monte Sinai. Há quem identifique até um Roy como Moisés, principalmente pela referência aos Dez Mandamentos, exibido na TV da família. Mas acho curioso, numa releitura, observar o quanto as mulheres são subaproveitadas na produção: não aparecem como cientistas, estudiosas, nem mesmo jornalistas. As únicas duas que se destacam é a esposa de Roy, apresentada com o perfil da incompreensão, e Jillian, que é desacreditada por alguns e precisa seguir os passos de Roy até alcançar a montanha.
A boa aceitação de Contatos Imediatos do Terceiro Grau daria mais condição a Spielberg desenvolver o cinema que quisesse. Em 82, traria mais um alienígena do bem, para somente com a refilmagem de Guerra dos Mundos mostrá-los de maneira hostil. De todo modo, este contato com alienígenas ainda se mostra bastante eficiente e impressionante, mostrando que a chuva de meteoros em Nova Jersey foi um acontecimento que mudou a forma como devemos olhar para o céu e testemunhar fenômenos estranhos.







