
![]() Dead Set
Original:Dead Set
Ano:2008•País:UK Direção:Yann Demange Roteiro:Charlie Brooker Produção:Charlie Brooker Elenco:Jaime Winstone, Andy Nyman, Riz Ahmed, Warren Brown, Liz May Brice, Beth Cordingly, Adam Deacon, Kevin Eldon, Kathleen McDermott, Davina McCall, Brian Belo, Chizzy Akudolu, Raj Ghatak |
Fazer parte de um reality show como o Big Brother é o sonho de muitas pessoas. Não apenas pela grana envolvida, mas, principalmente, pela simples possibilidade de aparecer na televisão e ser reconhecido pelo público em geral – mesmo que a imagem transmitida seja distorcida. Enviam fitas de vídeo apelativas e fazem inscrição na internet, caçam olheiros, embora saibam que os participantes escolhidos sempre serão estereótipos adequados para o formato do programa. Ora, os próprios telespectadores não querem ver pessoas feias na televisão, como aquelas que elas encontram nas ruas, nos mercados e shoppings; na verdade, os selecionados devem possuir no mínimo uma característica física interessante e ter personalidades diversas, já que representam o público dentro da casa. Assim, não é difícil identificar em cada edição os fortões, as turbinadas, os engraçados, os chatos, os pegadores, entre outros.
Embora seja um programa extremamente popular pelo mundo – principalmente no Brasil, que possui uma das melhores edições de vídeo e audiência -, há aqueles que abominam os reality shows, pois enxergam neles, nada mais nada menos, do que um zoológico humano, uma representação artificial de uma sociedade quase perfeita que não existe. Com exceção do capitalismo e consumismo evidentes, não há um sofrimento real, não existe sentimento, doença, fome, diferenças de classes sociais (eles querem acreditar que o mais pobre será o vencedor, mas não funciona assim), violência, o stress do cotidiano, o medo…por mais que tentem representar, trata-se da exibição de um universo glamouroso, rico e distante da realidade.
Aqueles que não gostam do Big Brother e de reality shows em geral já devem ter imaginado o que aconteceria se o mundo estivesse acabando fora da casa. Ou, se entre os participantes houvesse um serial killer como no filme canadense $la$her$ (2001); ou quem sabe, eles não percebam que foram selecionados por fãs de snuff movies – visto no espetacular O Olho que Tudo Vê -; um jogo mortal: quem fosse para o paredão seria realmente fuzilado; talvez despertassem um demônio escondido na casa; ou esta poderia estar sobre um cemitério indígena…quantas possibilidades! E se acontecesse uma epidemia no planeta, transformando pessoas comuns em mortos-vivos que se alimentam de carne humana, e você estivesse dentro da casa do Big Brother, vivendo uma realidade que realmente não existe…não mais?
Foi numa dessas divagações que Charlie Brooker resolveu criar a minissérie Dead Set, inspirada no formato do Big Brother inglês e no filme Despertar do Mortos (78), de George A.Romero, conforme o próprio autor relatou no site oficial. Fã assumido de produções de zumbis, principalmente de Romero, Brooker tem em sua carreira o roteiro e a produção executiva de diversas séries e minisséries, mas esta é sua primeira empreitada no gênero terror. Não bastava desenvolver um produto envolvendo zumbis e um novo reality show, era preciso fazer algo envolvendo o próprio Big Brother inglês – que em 2008 apresentava sua oitava edição -, sem deixar de lado a crítica social e a ironia numa boa história de terror com conteúdo.
Com Dead Set, Brooker foi além: conseguiu usar a própria casa do Big Brother como um dos cenários, além do envolvimento de diversos realizadores de todas as edições do programa e também ex-participantes em pequenas pontas como zumbis ou vítimas. Apesar de respirar Big Brother, felizmente a minissérie faz pouco uso das câmeras do programa e possui diversas ambientações além da casa e dos estúdios, como um supermercado, as ruas da cidade, um rio, uma casa abandonada e até a mata da região. Dividida em 5 episódios – somente o primeiro teve 50 minutos, os demais apenas 25 -, Dead Set é bem feita, possui ótimos efeitos especiais e maquiagem, cenas de violência e gore com mutilações e desmembramentos e, principalmente, muito sangue.
Depois da mensagem inicial que previne o espectador das imagens pertubadoras que verá, Dead Set tem início nos bastidores do Big Brother em dia de eliminação. Há um agito especial nos estúdios, buscando os melhores ângulos e edições para exibição na TV, enquanto uma multidão cerca o local para acompanhar de perto e torcer pelo seu participante preferido. Entre os ataques nervosos do produtor Patrick (Andy Nyman, que está em Black Death), espalham-se pelos bastidores alguns membros da equipe que acabam tendo destaque, como a jovem namoradeira Kelly (Jaime Winstone, de Prazeres Mortais), que além de auxiliar a produção, divide seu tempo livre em falar com o namorado distante Riq (Riz Ahmed, de O Caminho para Guantánamo) e beijar o companheiro de outra assistente do programa.
A tensão de um dia importante para o Big Brother é compartilhada pelo público por imagens de violência registradas na TV – cenas que mostram pessoas atacando outras e desespero nas ruas de Londres. A apresentadora do Big Brother, Davina McCall (a própria), anuncia a eliminação de mais uma participante, Pippa (Kathleen McDermott), alertando-a que tem 30 minutos para sair da casa (!!), enquanto o público se agita ao redor dos estúdios gritando pelos mais populares.
Nas proximidades, um carro pára na estrada para dar carona para algumas pessoas, sendo que uma delas aparenta estar ferida. Momentos depois, o mesmo carro é encontrado fora da estrada, instigando outro motorista a prestar socorro. Ele acaba sendo atacado por uma criatura voraz, que se alimentava dos passageiros. Assim, num efeito dominó, a praga dos zumbis vai se aproximando da casa do Big Brother, e as pessoas que simplesmente acompanhavam a eliminação de uma participante passam a ser devoradas e voltam como novos devoradores, numa onda de assassinatos violentos e sangrentos que logo invade os estúdios numa batalha sem chances de sobrevivência.
A falante Davina tem a garganta rasgada por um morto, obrigando a recém-eliminada do programa, Pippa, a se esconder numa sala, juntamente com o produtor Patrick. Kelly presencia a morte de seus colegas de estúdio, e procura um ambiente para se esconder, ao passo que dentro da casa do Big Brother os demais participantes apenas lamentam a saída da amiga e aproveitam para curtir uma festa, sem ter noção da gravidade dos acontecimentos externos. Longe dali, Eriq encontra abrigo numa loja até ser resgatado por Alex (Liz May Brice, de Alien Vs Predador) e ambos se refugiam numa fazenda abandonada, tentando entender como escapar da praga e chegar até os estúdios do programa.
Quando Kelly consegue entrar na casa, os participantes – o fortão Marky (Warren Brown), a sensual Veronica (Beth Cordingly), o odiado Joplin (Kevin Eldon), a engraçada Angel (Chizzy Akudolu), o companheiro Space (Adam Deacon) e o homossexual briguento Grayson (Raj Ghatak) – imaginam que se trata de uma brincadeira da produção, uma nova tarefa do jogo, até que um zumbi invade o local, ataca Angel e obriga Kelly a esmagar sua cabeça com um extintor.
Assim, Dead Set se divide em três núcleos distintos: a casa do Big Brother, a luta por sobrevivência de Eriq e Alex e o esconderijo de Pippa e Patrick. Este aos poucos se revela um dos personagens mais abominantes da minissérie, demonstrando a ironia do autor ao caracterizá-lo como um porco: urinando, defecando, vomitando e falando palavrão o tempo inteiro. Como se o público fosse obrigado a engolir tudo o que um produtor expele…
Fazendo críticas ao consumismo dos reality shows, o produtor acerta ao substituir os populares que antes apenas assistiam ao programa ao vivo por zumbis que agora querem devorar os participantes. Notem, o comportamento praticamente idêntico das pessoas antes e depois da praga… Em outro momento genial do roteiro, os brothers chegam ao telhado e observam os mortos se alimentando pelas ruas num caos total, e a participante Veronica solta a pérola: Quer dizer que não estamos mais na TV?
Os zumbis de Dead Set se assemelham aos de Madrugada dos Mortos e Extermínio na agilidade e perseguição de suas presas. Sangue pelo corpo e rosto, dentes apodrecidos e os olhos brancos como o símbolo do programa Big Brother inglês são suas características mais comuns. A forma de contágio e eliminação dos mortos são idênticas às produções similares do gênero, mas ainda funcionam quando uma boa história é contada. E o dinamismo de Dead Set consegue manter o interesse e entretenimento, embora o ritmo caia entre o terceiro e quarto capítulos – provavelmente um dos poucos defeitos da produção.
Já os personagens da minissérie seguem os estereótipos, mas é exatamente o que o roteiro exige em sua função de crítica ao estilo. Alex acaba tendo um papel artificial na trama, principalmente quando desperta um certo interesse por Eriq, tendo ficado próximo a ele por pouco tempo. Mas, você terá raiva mesmo de Patrick e também do imbecil do Joplin, que mesmo que não exista mais o programa insistem em agir como se estivessem nele, fazendo as mesmas bobagens – inclusive a maior de todas no ato final. Vamos me devorem…comam tudo!
Repleto de citações a enlatados como Lost e até 24 Horas, Dead Set tinha todos os elementos para não dar certo, principalmente ao usar um Big Brother como pano de fundo, no entanto, é surpreendentemente divertido, ficando acima da média de muitos filmes de zumbis que são lançados anualmente. Exibido pela TV a cabo pelo canal Multishow e lá fora no E4, a série é facilmente encontrada para download na internet, mas o ideal seria que alguma distribuidora brasileira resolvesse lançar em DVD, com extras e tudo mais. Assim como a mensagem final de Charlie Brooker, seria difícil desgrudar os olhos da TV, mesmo que seja para ver um Big Brother, não um qualquer, um interessante como este e que termina como todos deveriam terminar.





