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Mistério na Vila (2005)

Mistério na Vila
Original:Morke
Ano:2005•País:Dinamarca
Direção:Jannik Johansen
Roteiro:Anders Thomas Jensen, Jannik Johansen
Produção:Thomas Gammeltoft, Hanne Palmquist
Elenco:Nikolaj Lie Kaas, Nicolas Bro, Laura Drasbæk, Lisbet Lundquist, Anne Sofie Espersen, Lærke Winther, Morten Lützhøft

Jacob não se conforma com a tentativa de suicídio de sua irmã mais jovem, Hanne. Lamenta não estar ao seu lado neste momento de descontrole. Embora tenha sobrevivido, as consequências do incidente foram gravíssimas e a deixaram numa cadeira de rodas. Pouco tempo depois, Jacob estranha quando a irmã anuncia um noivado precoce com um rapaz que conheceu pela internet. Mesmo visivelmente contrariado, ele resolve não intervir, pois o simpático Anker pode ser a última chance de felicidade da irmã. Mas na noite em deveria comemorar o seu casamento, Hanne corta os pulsos e sangra até a morte.

Após a morte da irmã, Jacob torna-se ainda mais perturbado, abandona o emprego e a esposa. Certo dia, remexendo nas coisas que pertenceram à Hanne, encontra um livro de Anker com um pequeno recorte do jornal no interior. O recorte é uma nota de falecimento com a frase “Obrigado por tudo”. A mesma publicada no obituário de sua irmã. Curioso, Jacob tenta encontrar seu ex-cunhado, mas não consegue. O número do celular que Anker lhe forneceu não existe. Desconfiado, ele consegue com um amigo jornalista o paradeiro de ex-cunhado. E para seu espanto, Anker já está noivo e sua futura esposa, assim como Hanne, é deficiente. Jacob começa então a desconfiar dos acontecimentos que levaram sua irmã a morte. Teria Anker facilitado seu suicídio? Ou seria Anker um assassino em série? Ou estaria ficando paranoico?  A obsessão de Jacob o leva até Mørke, um pequeno vilarejo no interior da Dinamarca, onde Anker está realizando os preparativos para uma nova cerimônia de casamento, e de morte, talvez.

O pouco conhecido cinema dinamarquês teve seu momento de destaque em 1995 quando os cineastas, hoje famosos, Lars von Trier e Thomas Vinterberg elaboraram o manifesto experimental Dogma 95. Na contramão do mercado cinematográfico, o manifesto era uma tentativa de resgate do cinema realizado antes da exploração industrial e comercial Hollywoodiana. As restrições quanto ao uso de técnicas e tecnologias, quanto ao conteúdo e a suposta ética dos diretores resultaram em filmes tão controversos (Festa de Família e Os Idiotas, por exemplo) que projetaram internacionalmente os nomes de seus idealizadores. Hoje em dia o nome mais conhecido é o de Lars von Trier, diretor dos ótimos dramas Ondas do Destino e Dançando no Escuro e criador da mini-série O Reino (para a televisão dinamarquesa), posteriormente adaptada para o público americano mestre do horror Stephen King.

Outro nome promissor no cinema dinamarquês é o de Jannik Johansen, diretor da comédia E Agora? Roubei um Rembrandt, lançado no Brasil em 2006 pela Vídeo Filmes. E é de Johansen a direção do belíssimo e surpreendente suspense Mistério na Vila (Mørke, 2005). Uma trama forte e bem construída, escrita pelo próprio Johansen em parceria com o compatriota Anders Thomas Jensen.

Ao contrário do movimento Dogma, Mistério na Vila se destaca pela excelência técnica, principalmente pela maravilhosa fotografia. O cenário insípido do interior da Dinamarca causa ao mesmo tempo estranheza e admiração ao espectador, de modo semelhante o ritmo cadenciado, os personagens realistas distantes dos arquétipos construídos pelo cinema americano.

O memorável vilão, cuja aparência ingênua e patética se revela maquiavélico, doente e impiedoso no desfecho da trama, é verossímil não somente a realidade do enredo, mas também a vivenciada pelo espectador. Grande parte desta credibilidade é mérito do ótimo ator Nicolas Bro (que interpreta brilhantemente Anker); aliás, o elenco é outro ponto forte, com destaque ainda pra Nikolaj Lie Kaas na pele do inconformado e indeciso Jacob.

Mistério na Vila foi vencedor em 2005 dos prêmios de melhor filme (ao lado de Manderlay de Lars von Trier) e melhor atriz coadjuvante (para Anne Sophie Byder) no Bodil Awards (festival de cinema de Copenhagen). Ganhou ainda as premiações de melhor ator (para Nikolaj Lie Kaas), melhor trilha sonora, melhor fotografia e melhor som no Robert Awards (considerado o mais importante festival de cinema dinamarquês).

Infelizmente, o pouco caso da distribuidora (Vídeo Filmes) acaba com qualquer chance de sucesso comercial do DVD no mercado brasileiro. A originalidade do título escolhido (apenas Mørke, buma escolha mais acertada), a capa pouco atrativa e publicidade praticamente nula condenaram Mistério na Vila ao esquecimento. Embora não seja violento nem siga o padrão americano a que a maioria está acostumada, Mistério na Vila é uma gratificante surpresa, que merece ser visto e recomendado. Ainda mais diante de um mercado saturado de produções – refilmagens, continuações e “adaptações para o cinema” – que nunca deveriam nem sequer terem saído do papel.

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