3.7
(3)

A Viagem de Chihiro
Original:Sen to Chihiro no kamikakushi
Ano:2001•País:Japão
Direção:Hayao Miyazaki
Roteiro:Hayao Miyazaki
Produção:Donald W. Ernst, Toshio Suzuki
Elenco:Daveigh Chase, Suzanne Pleshette, Miyu Irino, Susan Egan, David Ogden Stiers, Lauren Holly, Michael Chiklis, John Ratzenberger, Rodger Bumpass

por Filipe Falcão

Existem algumas produções que, apesar de não serem qualificadas como de terror, possuem, seja em sua narrativa ou ambientação, elementos brutos que fazem com que tais trabalhos sejam obrigatórios para os fãs do gênero. E não faltam (boas) surpresas dentro deste universo que muitas vezes é subestimado pela maioria das pessoas. Um dos exemplos é a animação oriental A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001), que feito quase que 100% a mão, sem tecnologias digitais, merece destaque pela sua trama e ambientação, capaz de prender a atenção do público pela magia e encantamento da história, além de um pouco de morbidez e estranheza, apresentadas em níveis semelhantes, durante todo o filme.

Tendo sido o 1º longa-metragem de animação a ganhar o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cinema de Berlim, uma observação importante deve ser feita para A Viagem de Chihiro, pois, apesar de ser uma animação, o público infantil é o menos indicado para assistir ao filme. Não que a película tenha cenas de violência ou sexo explícito, como é comum com alguns projetos conhecidos de animação made in Japan, como Akira (1988). Na verdade, a criançada pode até achar bonitinho acompanhar os personagens do filme, mas com certeza, o público adulto vai tirar muito mais proveito da trama.

A trama gira em torno de Chihiro, uma garota mimada de 10 anos que está chateada porque está de mudança junto com seus pais. No caminho para a nova cidade, o pai da menina se perdeu e a família acaba descendo do carro em frente a uma estranha construção, semelhante a um túnel, que aparentemente está abandonada. Curiosos, os pais da garota resolvem entrar nesse lugar e todos acabam chegando a uma cidade estranhamente deserta. Famintos, os adultos resolvem comer em uma barraca que está com comidas expostas, enquanto Chihiro decide explorar um pouco o estranho local. A garota logo encontra um menino, um pouco mais velho do que ela, chamado Haku, que lhe diz para deixar o local o mais depressa possível. Já está anoitecendo quando Chihiro fica surpresa ao reencontrar os pais e ver que eles se transformaram em gigantescos porcos, enquanto que misteriosos seres, semelhantes a espectros, começam a surgir do nada povoando a então deserta cidade.

Vai ser após essa chegada e descoberta deste local, que o filme realmente começa, acompanhando a jovem Chihiro em uma jornada dentro de um mundo que ela, apesar de não entender, tem apenas uma certeza, não é habitado por seres humanos. Trata-se de uma espécie de casa de banho para espíritos, na qual as almas vão para descansar e recuperar forças. Dentro desse universo onírico, Chihiro vai tentar encontrar o caminho de casa e para isso, contará apenas com a ajuda do jovem Haku e de um misterioso e belo dragão branco.

O roteiro assinado por Hayao Miyazaki, que também dirigiu o filme, consegue criar um mundo que mescla entre a beleza de uma terra encantada com a morbidez de um pesadelo obscuro e surreal. E o caminho que separa essas duas realidades dentro do filme é, além de tênue, quase inexistente. Claro que o filme não deve ser considerado de terror, pois, apesar de possuir, alguns elementos que são interessantes aos fãs do gênero, a produção vai muito além disso, apresentando uma história fantasiosa, que mescla demais gêneros, como aventura e drama. Assistir A Viagem de Chihiro é como estar diante de um conto de fadas com traços góticos desenvolvidos dentro de uma estética visual única e de extrema qualidade. A começar pela primeira apresentação que é feita da misteriosa cidade, então deserta. O trabalho de criação consegue passar toda a estranheza do lugar e a sensação de que “algo de ruim” está prestes a acontecer é quase inevitável de se sentir.

E se a sensação é essa enquanto o lugar está sem seus “habitantes”, quando a noite cai, o diretor nos apresenta um dos melhores momentos de todo o filme: uma série de imagens que mostram o povoamento da cidade por seres translúcidos, como espectros, que surgem do nada e acabam por lotar o local. A sensação, para quem assiste ao filme, é quase semelhante a da pobre Chihiro que, passiva, permanece atônica sem uma ação. Dentro do filme, isso soa belo e ao mesmo tempo, assustador. Não que as imagens apresentadas sejam feias ou de monstros gosmentos babando sangue. Pelo contrário, a maioria dos tais seres fantasmagóricos são elegantes e até bonitos. É a ambientação e a narrativa quem dá o clima ideal.

Mas não só o tal universo no qual a garota se encontra é ao mesmo tempo paradisíaco e aterrador, mas também os habitantes deste estranho mundo são igualmente belos e misteriosos. Com destaque para o ser batizado de “sem face”, que é todo preto, como se estivesse usando uma bata que cobre todo o seu corpo além de uma máscara branca sem expressão. Este espectro começa a se aproximar de Chihiro provocando, na garota e no público, carinho e medo, simultaneamente. Uma curiosidade de alguns personagens é que eles foram desenhados tendo como inspiração pessoas conhecidas do diretor Miyazaki.

Visualmente muito bem trabalhado, A Viagem de Chihiro pode ser considerado um caso a parte nas animações feitas no século 21, pois praticamente foi desenhado todo a mão, diferente de demais produções que geralmente utilizam computação gráfica e demais efeitos visuais para dar um tratamento “especial” na história e no quesito gráfico. No caso de Chihiro, a ausência destas tecnologias digitais acabou gerando um resultado visual de extremo bom gosto. Semelhante a pinturas em movimento, o filme nunca abandona uma estética agradável aos olhos, sem parecer agressiva ou exagerada, ao mesmo tempo em que cria paisagens e cenários muitos bonitos.

Um outro grande mérito do filme é a forma como o seu espectador é tratado, quase como a própria Chihiro, pois a história, apesar de não ser complicada ou complexa, apresenta-se, a primeira vista, como uma série de acontecimentos que parecem não terem ligação, o que deixa a garota atordoada diante do novo mundo. O espectador, assim como a Chihiro, demora a se acostumar e entender essa nova realidade e essa “fase de adaptação” é muito bem desenvolvida no filme.

Mesmo com um final politicamente correto, a conclusão da história também passa uma ponta de angústia. Isso faz com quê se tenha a sensação de realmente estar terminando de assistir a uma grande produção do cinema oriental, que, se não fez tanto sucesso com os seus filhos, ao menos conseguiu capturar você pelo belo e estranho conjunto de imagens dentro de uma história que ao mesmo tempo soa inédito como também parece estranhamente familiar. Como a maioria dos projetos que trabalham com a questão onírica, A Viagem de Chihiro é uma obra para ser mais sentida, do que compreendida.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 3.7 / 5. Número de votos: 3

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Sobre o Autor

5 Comentários

  1. Esse e sem duvidas um dos melhores filmes que ja assisti.. Ja revi umas cem vezes e nunca canso… Otima critica …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *