3.6
(8)

O Terror da Serra Elétrica
Original:Pieces
Ano:1982•País:EUA, Espanha, Porto Rico
Direção:Juan Piquer Simón
Roteiro:Juan Piquer Simón, Joe D'Amato, Dick Randall
Produção:Stephen Minasian, Dick Randall
Elenco:Christopher George, Lynda Day George, Frank Braña, Edmund Purdom; Ian Sera, Paul L. Smith, Jack Taylor, Gérard Tichy, May Heatherly, Hilda Fuchs, Isabel Luque, Roxana Nieto, Cristina Cottrelli, Leticia Marfil, Silvia Gambino, Carmen Aguado, Paco Alvez, Alejandro de Enciso, Carlos H. Aztarán, Emilio Linder, Víctor Iregua

por Gabriel Paixão e Felipe M.Guerra

(Nota dos autores: Como já havia acontecido no texto sobre Oásis dos Zumbis, este é um novo artigo escrito a quatro mãos pelos colaboradores do site Felipe e Gabriel. Ambos viram o filme e resolveram que o artigo poderia ficar mais engraçado se escrito em conjunto. Assim, um fazia sua parte, outro emendava, o primeiro escrevia mais um pouco, o outro mudava, e por aí vai. Foram diversas trocas de e-mails, remendos, emendas, cortes, acréscimos… E o resultado é este extenso texto, onde, mais uma vez, os leitores antenados terão o desafio de tentar identificar quem escreveu o quê. Divirta-se!)

O que acontece quando a lenda do exploitation italiano Joe D’Amato resolve unir-se a produtores de filmes B norte-americanos para financiar, com recursos oriundos de Porto Rico (!!!), um filme de terror filmado em Madri com atores espanhóis, americanos e ingleses? E isso muitos anos antes de falarem de globalização! O resultado pode ser conferido no filme Mil Gritos Tiene La Noche (“A Noite Tem Mil Gritos“), que na América é simplesmente conhecido como Pieces (“Pedaços“), o que já dá uma ideia do que vem pela frente. Pois o filme é um slasher que – com o perdão da concessão poética – é exatamente o que se espera de algo com este título: barato, capenga e que rende um bocado de gargalhadas involuntárias pelo roteiro esdrúxulo, pela napa dos intérpretes e, principalmente, pelos exageros do diretor espanhol Juan Piquer Simón.

Vale destacar o currículo, digamos, “exótico” dos realizadores. D’Amato é lembrado pelas suas produções com elevado teor de sexo e violência gratuita, como Buio Omega e Erotic Night of the Living Dead (além, é claro, de uma série de filmes hardcore, versões pornô de Aladin, Tarzan, Robin Hood e até de Mozart e Marco Polo). O diretor Juan, que nos States é conhecido como “J.P. Simon” para “esconder” sua nacionalidade do xenófobo público ianque, tem um currículo “invejável“, que inclui o tosco Supersonic Man (1979, a resposta espanhola para o Superman, de Richard Donner), o ainda mais tosco O Retorno do Extraterrestre (1983, a resposta espanhola para o E.T. de Spielberg) e os sangrentos trashes Slugs (1988), Mansão Macabra (1990) e a horrível aventura A Maldição da Ilha do Diabo (1994). Já os produtores Stephen Minasian e Dick Randall foram os “responsáveis” por mandar aos cinemas “clássicos” como o slasher britânico O Terror pode Esperar (1984) e produções baratas de pancadaria tipo Bruce Lee Fights Back (1982), dentro da chamada “brucexploitation” – filmes vagabundos realizados aos montes com sósias do então falecido Bruce Lee.

Voltando à nossa atração principal, Pieces é de 1982, uma época em que os slasher movies estavam em alta e eram garantia de retorno financeiro certo para os produtores. Dois anos antes, Sexta-Feira 13 (1980), de Sean S. Cunningham, ensinou tanto aos grandes estúdios quanto aos realizadores independentes como era fácil (e barato) fazer um pequeno filme de horror de sucesso, substituindo uma história elaborada e consistente por chocantes e sangrentos efeitos especiais e sustos em sequência. Enfim, algo como um passeio no trem-fantasma, divertido, mas sem muito compromisso com a lógica. Claro que, com o dedo europeu em sua produção, Pieces é ainda mais brutal e sangrento do que qualquer Sexta-Feira 13 e mesmo suas imitações naturais.

Como muitos filmes daquele período, este também fez seu nome no berço do Grindhouse: estreou nos Estados Unidos timidamente, nas concorridas sessões duplas da meia-noite do cinema da 42nd Street, em Nova York, e aos poucos foi ganhando fãs e status de cult, chegando a levantar uma bilheteria superior a um milhão de dólares, o que não é nada mal, considerando o nível paupérrimo da produção – filmada em quatro semanas com um orçamento de míseros 300 mil dólares! Mas, a despeito do “sucesso” da película, o diretor afirma que até hoje não recebeu um puto do mercado estadunidense! Dizem que o distribuidor pegou toda a grana dos lucros e fugiu pro Brasil (acredite se quiser).

Pieces acabou se tornando um pequeno “clássico” nas locadoras pouco tempo depois, com a explosão do VHS. No mercado nacional, foi batizado como O Terror da Serra Elétrica (mesmo que, como no caso de O Massacre da Serra Elétrica, os assassinatos sejam executados com uma motosserra). Aqui, tal qual em seu país de origem, é mais conhecido pela fama “de mau” do que pelo conteúdo em si. A própria capinha do VHS brasileiro faz questão de escancarar isso, com um grande e sensacionalista alerta para cardíacos na capa, no estilo da série Faces da Morte e de outra podreira de produção italiana, O Rato Humano. Só faltou mesmo dizer que foi “banido em 50 países“! hahaha…

Então agora o leitor pode estar se perguntando se este status de “filme violentíssimo que quase ninguém viu” se justifica realmente. A resposta é um enfático “não“. No fim das contas, Pieces não é tãããão violento assim, embora contenha diversas cenas sangrentas de assassinatos, desmembramentos e mutilações. O grande problema, e isso chega até a ser engraçado, é a inocência (ou preguiça, embora prefira acreditar na primeira hipótese) da equipe técnica, pois a produção é pontuada de defeitos, limitações e situações mal-resolvidas. E se produções atuais como Hostel ou Viagem Maldita são bem mais sangrentas (e melhor realizadas), Pieces pelo menos se mantém numa média de crueldade e violência um tanto acima do que se fazia no período, num estilo tosco e exagerado que remete aos filmes do mestre Hershel Gordon Lewis, como Banquete de Sangue (1963). Mas vamos por partes. Ou, para não perder o trocadilho, por pedaços…

Como é de praxe no subgênero “slasher“, o filme começa com o chamado “Mal anterior“, ou seja, a história das origens do assassino que depois vai infernizar a vida de todos os personagens principais e secundários. Como é regra nestas produções, a infância de um psicopata normalmente é problemática: ou a criança é deformada, ou possui uma família desajustada. Neste caso, é a segunda opção.

O local é Boston, e o ano é 1942. Mas não pense que a produção tinha dinheiro para filmar cenas externas em Boston – o diretor Simón simplesmente reaproveitou alguns takes que tinha filmado nos Estados Unidos na época de Supersonic Man. E também não pense que existe uma grande recriação de época. Numa casa comum, o pequeno Jimmy está fechado em seu quarto completando um quebra-cabeça com a imagem de uma mulher nua, como qualquer menino normal de 8 anos. Sua mãe, a Sra. Reston (May Heatherly de Cannibal Apocalypse), se aproxima sorrateiramente e pega o garoto no flagra diante daquela imagem pornográfica. E, como típica mãe dominadora de filme de horror, ela surta, enche o garoto de bolachas e começa a pegar todas as suas revistas e brinquedos para queimar, praguejando sem parar – imagine se fosse nos dias atuais, com o acesso irrestrito à pornografia na internet!

Porém, quando a mulher ordena que o menino busque um saco de lixo para ajuntar todas as tralhas… Surpresa! Eis que o taradinho volta com um baita machado e mata brutalmente sua progenitora, desferindo repetidos golpes em sua cabeça. A cena é razoavelmente bem encenada, e, embora se perceba claramente que o machado não está cortando a atriz, mas apenas batendo em sua cabeça (deve ser de espuma ou algum outro material leve), a edição de Antonio Gimeno ficou muito boa. Além disso, dificilmente uma cena de violência envolvendo crianças (o ator-mirim acaba coberto de sangue da cabeça aos pés) seria filmada nos politicamente corretos dias atuais.

Enquanto o assassinato se consuma, uma senhora toca insistentemente a campainha da porta da frente, alheia à violência que ocorre dentro da residência. Preocupada ao não obter respostas, ela chama a polícia, enquanto o menino lá dentro termina o serviço arrancando a cabeça da mãe com um serrote. Repleto de sangue (sobre o próprio corpo e pelo quarto), ele ainda encontra frieza para continuar tranquilamente a montagem de seu brinquedo, que a mãe xarope tentara interromper momentos antes…

Do lado de fora, os dois policiais chamados pela velha senhora arrebentam a porta, entram na casa e, sem o menor senso forense (na época não existia o seriado CSI), invadem o recinto pisando em tudo, esfregando as mãos nas maçanetas e sem sequer cogitar a possibilidade de fazerem uma investigação. Quando um deles abre a porta do armário, depara-se com a cabeça decepada da Sra. Reston em seu interior. Inteligentíssimos, os tiras ainda cometem o absurdo de levantar a hipótese de que foi um animal que desmembrou a mãe do garoto, mesmo com o evidente machado ensanguentado ao chão. Você consegue visualizar a imagem de um urso ou algo do gênero carregando um machado? Hahahaha!

Enfim, a senhora que acompanha os homens da lei resolve abrir a porta de outro armário e lá encontra o psicótico garoto, falsamente chorando e chamando pela mãe. Como o pai está na guerra – mais especificamente na Força Aérea Americana -, e provavelmente morreu por lá, a prestativa mulher informa aos policiais que o melhor é deixá-lo com uma tia, para que possa se recuperar do “trauma“. E assim iniciam os créditos.

Qualquer fã de horror vai perceber semelhanças entre a abertura deste filme e a do clássico Profondo Rosso/Prelúdio para Matar, de Dario Argento (inclusive aqui a trilha sonora traz uma tétrica música que parece cantiga infantil). Mas, embora Pieces apresente ainda outros elementos que remetam aos gialli made in Italy, o diretor Simón jura, em entrevistas, que nunca se inspirou em Argento ou nas produções italianas na hora de fazer seu filme.

E, apenas a título de cultura inútil, três casos de “deslocamento temporal” se somam aos erros deste prólogo. Primeiro, o saco plástico de lixo, como o usado pela Sra. Renton, foi inventado somente nos anos 50. Segundo, em 1942 ainda não existia a Força Aérea dos Estados Unidos (que foi separada do exército apenas em 1947). Finalmente, é possível ver no cenário um telefone digital, que só seria encontrado no mercado lá pelos idos dos anos 70 – até então, os aparelhos tinham aquele disco numérico enorme para girar com o dedo, lembra? Enfim, não é que estejamos racionalizando sobre uma bagaceira desta categoria, porém estaria nosso jovem assassino de posse de uma máquina do tempo??? Que medo…

Após os créditos iniciais (onde o nome de D’Amato aparece escondido por trás do pseudônimo “John Shadow“, um dos inúmeros que ele usou em sua carreira), descobrimos que se passaram longos quarenta anos do esquartejamento da mamãe pelo moleque tarado. Um longo take mostra luvas negras abrindo uma gaveta, de onde é retirada uma caixa. Em seu interior, os sapatos e o vestido ensanguentado usados pela Sra. Renton, além de uma fotografia da falecida com um escandaloso “X” vermelho em cima. E, claro, aquele velho quebra-cabeças com a mulher pelada, ainda coberto do sangue do crime mostrado no início do filme. Isso demonstra que, após um bocado de tempo de silêncio e vida normal, o maluco, já adulto, vai voltar a atacar, por um motivo vagamente sugerido e que só os roteiristas sabem ao certo. Como também faz Argento, o diretor Simón filmou suas próprias mãos em todos os closes das mãos enluvadas do assassino.

A sequência seguinte poderá parecer tremendamente sem sentido – e é. A adolescente Jenny anda de skate, descendo velozmente uma ladeira, próximo ao campus de uma universidade, e acaba morrendo estatelada num espelho que está sendo transportado por uma equipe de mudança. Para 99% da humanidade, esta cena não tem qualquer lógica dentro do filme, já que nem a moça e nem o incidente do espelho são citados posteriormente. O 1% restante é o diretor e também roteirista Simón (que assina o roteiro junto com o produtor Dick Randall). Segundo uma entrevista do cineasta espanhol, é este acidente que faz aflorar a loucura até então adormecida no subconsciente do psicopata, pois, quando ele era criança, sua mãe arrebentou um espelho antes de ser esquartejada pelo garoto; 40 anos depois, a quebra do espelho detona as lembranças e o lado assassino da criança já crescida. Putz, ainda bem que ele nunca quebrou um espelho durante estes 40 anos… Ah, e muito obrigado a Simón por esclarecer este detalhe que no filme não fica nem ao menos subentendido.

De todo jeito, apenas dois minutos depois do acidente com a skatista, uma garota que tenta estudar deitada na grama do campus da faculdade é atacada pelo assassino, vestido como jardineiro. Usando uma enorme motosserra, ele decepa a cabeça da vítima – a cena é off-screen, mostrando apenas a lâmina atingindo o que devemos acreditar ser a garota, uma cabeça pra lá de fake rolando e um exagerado jato de sangue. Detalhe: apesar de haver outros estudantes próximos, inclusive um casal quase transando debaixo de uma árvore, ninguém é atraído pelo som da motosserra e nem pelos gritos de agonia da vítima, dando ao assassino todo tempo do mundo para terminar o serviço e fugir dali levando… a cabeça arrancada como troféu!

Entra em cena a lei, representada pelo tenente Bracken (interpretado pelo canastrão norte-americano Christopher George, de Embalsamado, Pavor na Cidade dos Zumbis e Graduation Day) e pelo sargento Holden (Frank Braña, que participou de inúmeros faroestes-spaghetti e também de produções espanholas de terror, como Crypt of the Living Dead e El Ataque de Los Muertos Sin Ojos, de Amando de Ossorio). Os dois são uma piada: Bracken passa o filme inteiro com um cigarro apagado na boca, pedindo, inutilmente, por fósforos (ele sempre pede para pessoas que não fumam, veja você o drama); já Holden é tão imbecil que não poderia ser um bom lixeiro, quem dirá policial (se o assassino passasse por ele levando a motosserra ensanguentada, possivelmente o sujeito nem perceberia!).

A dupla vai ao campus onde a morta estudava para procurar pistas que possam resolver o mistério por trás de tamanha brutalidade, e também em busca da desaparecida cabeça da jovem. Como nos filmes todo mundo é suspeito e os policiais sempre têm todo o tempo do mundo para ficar zanzando e interrogando quem passa no corredor a esmo (bem diferente da vida real), eles começam interpelando Fowler, o reitor da faculdade (“interpretado” pelo inglês Edmund Purdom, de O Terror pode Esperar e Absurd), que por sua vez indica o professor Arthur Brown (Jack Taylor, de El Buque Maldito e Pesadelos Noturnos, de Jess Franco) para ajudar os policiais. O único pedido do reitor, como esperado, é que eles mantenham a história em segredo para evitar pânico. Dando, assim, liberdade para que o assassino possa agir com a maior tranquilidade!!!

Em seguida, somos apresentados ao principal suspeito dos crimes por todo o restante do filme, um jardineiro grandalhão chamado Willard (Paul L. Smith, que interpretou Brutus na versão live-action de Popeye, dirigida por Robert Altman). Na primeira cena em que o moço aparece, está limpando masturbatoriamente a sua motosserra (provavelmente a mesma utilizada no assassinato anterior), e ainda está no mesmo jardim onde a garota foi morta. Em todas as outras cenas, Willard sempre é visto em comportamento suspeito, inclusive fazendo uma ridícula cara de malvado (porém é de se perceber que Smith não é capaz de fazer outra expressão). A propósito, o ator é tão feio e mal-encarado que qualquer pessoa que visse esse homem do mesmo lado da rua sairia correndo pro outro lado sem pensar muito! Contudo, a insistência do diretor Simón em manter o jardineiro como suspeito é uma ideia de jerico por dois motivos: primeiro, o garoto da abertura em nada se parece com Willard; segundo, e principal, o vulto visto investindo com sua motosserra contra a primeira vítima era extremamente mais franzino que Willard!

Logo em seguida, numa cena rápida, somos apresentados ao cenário da “universidade” e a alguns dos jovens que ali “estudam“. E estas duas palavras estão grifadas porque em nenhum momento parece que o filme se passa numa faculdade, e estudar é o que os jovens menos fazem. Praticamente todos ali parecem ser promíscuos (uma garota chega a dizer: “Não há nada melhor do que fumar maconha e trepar num colchão d’água“, comprovando o nível dos estudantes da instituição). Nunca se vê uma única cena da garotada em sala de aula; em compensação, pipocam takes de garotas tomando banho de piscina nuas (sim, piscina numa faculdade, e aberta para sacanagens diversas), jovens transando ou conversando sobre sexo (inclusive com os professores), garotas no chuveiro, garotas fazendo aula de aeróbica… E o que dizer de uma universidade que tem até uma enorme cama com colchão d’água (!!!) no vestiário? Sabe o nível de promiscuidade da série Sexta-Feira 13 nos áureos tempos? Bem, resta dizer que os jovens mortos por Jason parecem coroinhas perto da galera assanhada que aparece em Pieces

Mas voltemos ao filme: na biblioteca, o estudante garanhão Kendall James (o espanhol Ian Sera, visto em vários filmes de Simón) recebe um bilhete indecoroso da gatinha Alicia, que diz, romanticamente: “Quero fazer aquilo dentro da água. Me encontre na piscina“. A garota vai na frente e, alheia ao fato de estar numa faculdade frequentada por dezenas ou centenas de outras pessoas, e de estas poderem entrar ali a qualquer momento, tira toda a roupa, ficando apenas com a parte de baixo do biquíni (tão curta que é quase o mesmo que ficar pelada). De topless, numa cena de nudez gratuitíssima, mergulha na piscina e é literalmente pescada pelo assassino usando uma rede.

O vilão, pela primeira vez, é visto com seu traje habitual: chapéu e casacão de gola alta, cobrindo todo o rosto, e luvas pretas. Para ter ao menos uma ideia do que é o ridículo traje, pense num dos espiões daqueles quadrinhos Spy vs. Spy, da revista Mad, andando por aí numa faculdade. Em outras palavras, um visual tão suspeito que é incrível o fato de ninguém perceber esse fulano zanzando de lá para cá – até pelo fato de ele estar levando sempre uma enorme motosserra nas mãos. Ao contrário do que muitos podem imaginar, o visual do psicopata não é inspirado no giallo italiano, mas sim no super-herói norte-americano The Shadow (O Sombra), segundo confessou o próprio diretor Simón – apenas mais uma das barbaridades desta produção bizarra.

O psicopata não perde tempo e, depois de colocar a desacordada Alicia na borda da piscina, pega sua fálica motosserra e desmembra o corpo da garota. Neste momento, Kendall recebe um outro bilhete, desta vez escrito pelo próprio assassino, e vai até a piscina, onde encontra os pedaços ensanguentados de sua paquera (sem o tórax, surrupiado pelo criminoso). Willard o surpreende ali, corre atrás do jovem e a polícia intervém, mas, em outra passagem insólita do filme, o grandalhão simplesmente se aproveita do seu aspecto truculento e da experiência em filmes de artes marciais de baixa qualidade (como A Fúria do Protetor e Return of the Tiger) para encarar todos os guardas com as mãos limpas (!). Parece até que encarna o Brutus que interpretou em Popeye, já que chega a levar uma paulada nas costas e apenas o cacetete se parte no meio, mas ele nem ao menos sente cócegas!!! Willard só pára depois que uma arma é apontada para sua cabeça por Holden – e é de se mijar de rir a forma como o ator recita seu diálogo, do tipo: “Stop, or I BLOW your BRAINS out!!!“. Go, Go Willard! Hahahaha…

E o pior está por vir! Quando a polícia toma conta da cena do crime (o fotógrafo forense é interpretado pelo próprio diretor Simón, em participação especial), Bracken, mostrando toda sua percepção e inteligência à la Sherlock Holmes, chama o professor Brown e diz: “Não posso esperar por um laudo oficial… Você pode me dizer se isso [apontando para os pedaços do cadáver] pode ter sido feito com uma serra como aquela?“, e neste momento ele aponta para a motosserra completamente ensanguentada num dos cantos da piscina, que OBVIAMENTE foi utilizada como arma do crime. Pois o professor, ainda mais perspicaz que o homem da lei, responde, olhando curiosamente para a ferramenta: “Olhe, não sou um especialista, mas, pelo que vejo, foi isso mesmo“, e de lambuja ainda esfrega a mão na arma do assassinato, acabando com qualquer impressão digital que pudesse haver ali! Hahahaha… Dá pra acreditar?

Com base nestas evidências e informações altamente técnicas, e que certamente seriam decisivas num tribunal, Willard é detido, e o tenente Bracken encaminha Kendall para uma consulta com o psiquiatra Jennings (Gérard Tichy, que atuou com Paul Naschy em Beyond the Living Dead), para tentar traçar o perfil do assassino. Mas pode esquecer esse detalhe, pois o próprio diretor faz questão de esquecê-lo dez segundos depois, e nunca mais se fala nisso.

Finalmente, preocupado com o fato de um serial killer estar atacando misturado aos professores e estudantes da faculdade, Bracken tem a brilhante ideia de infiltrar uma bela policial, que também é campeã de tênis (hahahahaha), na escola. Ela é Mary Riggs (a loirinha Lynda Day George, na época casada com Christopher George, e que participou com o marido do filme Embalsamado). Resta saber como é que uma bela tenista (campeã, ainda por cima) entra para a força policial…

De qualquer maneira, Riggs assume o cargo de professora de tênis na faculdade sem maiores problemas, e Willard é solto da prisão por falta de provas, enquanto os corpos (ou os seus pedaços) continuam se amontoando. Quem estará cometendo tamanhas atrocidades? Seria o “aboiolado” professor Brown? O reitor Fowler? O jardineiro Willard? Ou até um dos investigadores? Qual o real interesse de tamanha barbaridade contra os jovens? E qual o destino dos pedaços retirados dos corpos das vítimas? Quem viver, verá – e rirá bastante! hahahaha.

Depois de tanta avacalhação, o leitor pode até imaginar que O Terror da Serra Elétrica é uma bomba à altura de Uwe Boll, só que não é bem assim. É verdadeiramente uma fina mistura do slasher dos anos 80 com o exploitation dos anos 70, levando ainda uma pitada de giallo, e com um elevado teor de nostalgia que poucos na geração Pânico e Jogos Mortais infelizmente conseguirão apreciar. E isso vale tanto para as coisas boas quanto para as ruins: as mortes bastante sangrentas (com cenas on-screen e efeitos repelentes pré-CGI) e a nudez gratuita feminina e masculina (argh!) contrastam com as muitas bobagens do roteiro e com as tentativas frustradas de se criar algum suspense, que sempre esbarram no exagero.

Há, ainda, um festival de cenas ridículas entrecortando os assassinatos. Lá pelas tantas, por exemplo, o diretor Simón tenta “criar tensão” numa cena pavorosa, onde Mary caminha pela escuridão do campus deserto e é atacada sem mais nem menos por um chinês lutador de kung-fu, que pula subitamente na sua frente já distribuindo porrada! Os dois trocam sopapos por alguns instantes, até que Mary consegue acertar as partes baixas do sujeito, e este cai estatelado. É quando surge Kendall, explicando que aquele é apenas o professor de artes marciais da universidade. Nisso, o sujeito levanta do chão justificando que estava apenas “se exercitando“. E ainda completa: “Bad chop-suey!“. Hahahahaha. Se houvesse uma lista das “cenas mais aleatórias do cinema”, esta certamente figuraria nos primeiros lugares.

Vale destacar que tal cena só existe por imposição do produtor e co-roteirista Dick Randall, que na época financiava inúmeras “obras” de brucexploitation – e Simón concordou porque precisava deixar o filme “mais comprido“!!! A bem da verdade, é preciso esclarecer que Simón trabalhou sobre um “esboço” de roteiro escrito por Randall, com meras 30 páginas, na época ainda intitulado “Jigsaw” (Quebra-cabeça), muito antes de Jogos Mortais transformar esta palavra em clichê. Numa entrevista a um site, Simón disse que pegou apenas a ideia básica deste tratamento e escreveu ele mesmo o roteiro. Mas, durante as filmagens, improvisava diálogos e cenas inteiras direto, porque o roteiro havia ficado muito curto e ele precisava “enrolar” para fechar pelo menos uma hora e meia de filme!!! hahahaha.

A ordem das mortes é bem manjada e não há qualquer tentativa de criar suspense: se as luvas negras aparecem montando o tronco da mulher no velho quebra-cabeça, significa que a próxima vitima terá o tórax desmembrado na cena seguinte, e assim sucessivamente, até que o desfecho aconteça. Também não dá pra engolir o fato de o assassino ficar andando pela faculdade vestido daquele jeito e levando uma motosserra escondida nas costas, principalmente quando se revela a identidade do dito cujo (algo que, vale destacar, fica evidente desde o início). Aliás, não bastasse o cara ficar zanzando com uma motosserra, em algumas cenas ele anda pelo campus arrastando um saco ensanguentado repleto de pedaços de cadáveres, e isso sem ser apanhado ou levantar qualquer suspeita! Se bem que, do jeito que a escola está sempre vazia, é no mínimo curioso o fato de ele conseguir encontrar vítimas perambulando por aquele deserto…

Entre os muitos defeitos de Pieces, é preciso salientar o fato de não haver qualquer tipo de desenvolvimento dos personagens secundários, em especial as vítimas – tão numerosas quanto irrelevantes. O roteiro nem ao menos explica como Kendall, um jovem universitário, é repentinamente recrutado como ajudante da polícia (só faltou mesmo dar um distintivo e uma arma pro rapaz). Já a súbita aparição de uma jornalista bisbilhoteira só se justifica porque precisavam de mais uma mulher para morrer violentamente. A tal moça, Sylvia Costa (a espanhola Isabel Luque), pelo menos protagoniza a melhor cena do filme, quando vai espionar a faculdade à noite (e o lugar está escuro e deserto, como convém) e é atacada pelo psicopata – desta vez inexplicavelmente com uma faca, e não com uma motosserra. Em câmera lenta, Sylvia é repetidamente apunhalada sobre o tal colchão d’água, e os jorros de sangue se misturam aos esguichos de água, até que a moça toma uma punhalada na nuca e a ponta da lâmina sai pela sua boca (cena que o mestre Dario Argento repetiria posteriormente, em Phenomena, de 1985). O resultado ficou tão bom que, segundo Simón, a atriz Isabel abandonou a sessão de estreia do filme neste momento, sem coragem para conseguir assistir a sua “morte“.

Nas demais mortes, os efeitos oscilam entre o convincente e o hilário, como na cena em que o assassino entra num elevador com a motosserra de quase um metro escondida nas costas, sem que sua próxima vitima sequer desconfie, e lhe decepa um dos braços sem a menor dificuldade (o detalhe é que fica evidente que a serra está DESLIGADA, e apenas a sonoplastia usa o som do motor da ferramenta!!!).

Mas a cena mais antológica e gráfica é a de uma garota de topless (claro) que acaba se trancando no banheiro após ser perseguida pelo psicopata. Eis que o vilão liga a motosserra e passa a cortar a porta (mas o barulho, que na cabeça do diretor consegue ser abafado por um hino horrível tocado nos alto-falantes da faculdade, nunca atrai a atenção de alguém, nem algum curioso vai passear por ali naquele momento). A moça, sem saída e apavorada, chega a mijar na calça de medo. Ultrapassado o obstáculo da porta, o psicopata serra o tórax da moça lateralmente, e Simón usa um close extremamente gráfico da carne sendo cortada pela lâmina (coisa que não se vê nem no moderno remake de O Massacre da Serra Elétrica). O realismo se justifica: Simón e sua equipe simplesmente serraram um leitão, vestindo a calça de ginástica usada pela atriz, para simular o assassinato, como mostra a sequência de fotos abaixo. O efeito ficou bastante convincente, embora os esguichos de sangue sem critério nas paredes do banheiro estraguem um pouco a cena no conjunto.

Tal cena também foi a mais difícil de filmar, conforme o cineasta declarou em entrevista a um site: “Usamos uma motosserra real a apenas alguns centímetros da garota. Eu fique um pouco preocupado quando o dublê, talvez possuído pelo espírito do assassino, chegou muito perto da atriz. E ela ficou tão apavorada que mijou mesmo na calça. Fiquei nervoso com o dublê por ter arriscado tanto, a garota podia ter entrado em pânico, movido um braço e se cortado, mas no fim ficou um belo take, e gostamos tanto da reação de medo da atriz que refizemos a cena em que ela mija na calça“.

Finalmente, algo precisa ser dito sobre a cena final – não exatamente sobre a revelação de quem é o assassino, mas sim sobre os últimos fotogramas. É melhor não entrar em detalhes para não “estragar a surpresa” daqueles que por ventura tenham interesse em assistir, mas é o típico “último susto” sem lógica, copiado dos finais de Carrie, Quem Matou Rosemary?, do primeiro Sexta-Feira 13, que só está ali para chocar, embora nos filmes citados o tal susto seja apenas um pesadelo, e aqui aparentemente a coisa é pra valer. Não tem sentido, e é uma versão irritantemente piorada do final de Macabre (1980), o debut de Lamberto Bava na cadeira de diretor, lançado dois anos antes de Pieces. Mas Simón, pelo menos, gostou: “Este toque surrealista no final é uma coisa meio Buñuel, mas com um senso de humor negro típico das pinturas de Goya“, declarou, muito “modestamente“, a um site.

A propósito, muito se falou em uma continuação da obra, devido ao excelente retorno financeiro tanto na Espanha quanto nos Estados Unidos. Nesta época, a realização de Pieces 2 a pedido da distribuidora não pôde ser executada, pois Simón estava envolvido em outro projeto. Todavia, quando anos depois o próprio diretor tentou tocar a continuação para frente, não conseguiu o apoio e o dinheiro necessários. Em suas próprias palavras: “No Show Business eles te esquecem muito cedo, mesmo que já tenha tido sucesso”. Agora, se a produção original é tão amalucada, fica para o leitor tentar imaginar como ficaria uma sequência de tudo isso. Até porque 99% dos personagens morrem no final!!!

Não bastasse a escabrosa dublagem em inglês dos atores espanhóis, o roteiro ainda nos brinda com todo tipo de diálogos imbecis e politicamente questionáveis. Além daqueles já citados ao longo do artigo, vale lembrar o reitor falando sobre o professor Brown: “Ele é um homossexual, mas, desde que não quebre as regras da faculdade, isso é um assunto dele. E acho que ele está mais preocupado com sua ‘aflição’ do que eu“. Ou ainda o sargento Holden ao telefone: “Obrigado pela ajuda, vou te mandar uma caixa de pirulitos“. E que tal o professor Brown (de novo ele) falando sobre seu trabalho: “Estou acostumado com corpos… Mortos, quero dizer“. Finalmente, nada pode ser mais falso e cômico que o faniquito de Mary após mais um dos sucessivos assassinatos, quando, com os punhos cerrados, ela olha para cima e grita: “Bastardo! Bastardooo! BASTARDOOOOOO!!!“. hahahahahaha. Se alguém conseguir levar Pieces a sério, certamente precisa de internação imediata.

Em meio a uma produção tão conturbada, um verdadeiro mistério é a participação do produtor D’Amato, já que, embora ele seja creditado como co-roteirista (com o pseudônimo “John Shadow“, cabe lembrar), o diretor Simón garantiu, em entrevistas, que o italiano não escreveu uma única linha do roteiro – ou seja, a bobagem é exclusivamente de autoria do produtor Randall e do cineasta espanhol. A quantidade de mulher pelada e de sangue esguichando certamente lembra as produções italianas de Joe D’Amato, mas vá lá saber…

Como era esperado de uma produção com este título e este teor, Pieces sofreu nas mãos da censura norte-americana. Há quem jure que a cópia que atualmente circula está incompleta. A tal cópia, que é a original do mercado americano, pode ser encontrada nos States em DVD numa versão “econômica” (ou seja, VHS-Rip full-screen e sem extras). O único DVD com a versão em widescreen é alemão, mas não há qualquer cena de violência adicional (apenas a qualidade da imagem está bem melhor).

O próprio Simón joga lenha na fogueira falando sobre cenas que supostamente teria filmado e foram cortadas: um take da cabeça decepada da primeira vítima caída no gramado (uma foto pode ser vista em alguns sites); o cadáver da jornalista originalmente seria despido e arrastado, nu, pelo assassino até o seu covil; e haveria ainda uma cena onde o psicopata espionava as garotas tomando banho, tentando decidir sua próxima vítima pelas “partes” do corpo das meninas. Este é um detalhe bastante interessante e que passa batido para quem vê o filme apenas uma vez: é possível identificar o psicopata quando ele começa a olhar, com bastante interesse, para os pés de Mary, a última “peça” que falta em seu macabro quebra-cabeça…

Para fechar, aproveitando a frase sensacionalista de divulgação nacional (Pieces foi lançado em VHS pela finada distribuidora Reserva Especial), este é um filme “terminantemente proibido para crianças, pessoas com problemas cardíacas” ou, ainda, qualquer pessoa que se impressiona com podreiras de baixo orçamento e roteiros sem nexo – ou para quem morre de medo de motosserras. Para quem não se enquadra nos termos acima, e quer testemunhar uma versão euro-trash do mais puro slasher-estadunidense, Pieces – O Terror da Serra Elétrica é a obra perfeita, e pode te prover uma noite de diversão descompromissada, regada a cervejas e muitas, mas muitas risadas.

Como piada adicional, não tem como não se divertir com a frase do cartaz norte-americano da película: “Você não precisa ir ao Texas para um massacre da serra elétrica“!!! Vá ter tanta criatividade lá longe…

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Média da classificação 3.6 / 5. Número de votos: 8

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5 Comentários

  1. A resenha se foca na versão em inglês, mas os diálogos da versão em espanhol são mais sérios, assim como score, que é totalmente diferente. Nesse último aspecto, é interessante notar o quão melancólica é a música tema do assassino, o que cria um contraste estranho com o que vemos em tela. Parece uma tentativa de criar uma espécie de pseudodrama com o que virou aquela criança que vimos no início do filme, mas, sinceramente, é uma forçação de barra total. Tem que ter tato pra fazer esse tipo de coisa, e num slasher isso é muito complicado de se fazer, ainda mais quando o assassino em questão mata as vítimas de forma tão cavernosa.
    Deve ser do conhecimento de alguns aqui, mas hoje esse filme se encontra na coletânea “Slashers”, da Versátil, mais especificamente no volume 3, e ele está na sua versão original em espanhol. Em razão de eu ter assistido o filme nesta versão, não consegui pegar a “energia” passada através dessa resenha, tratando-o meramente como um filme trash bobo.
    Na minha opinião, o que feriu de morte nesse filme foi a atuação dos atores, a falta de uma melhor construção dos personagens, problemas de continuidade e cenas extremamente desnecessárias. Sobre construção de personagens, é impressionante, mas os personagens de “Toxic avenger” são muito mais vivos e marcantes do que qualquer um de “Pieces”.
    Aí alguém pode dizer “Ué? Mas então o filme não presta, pra ter que mudar tanta coisa!”. Só que não é bem assim, pois se você analisa a linha geral do roteiro e algumas qualidades demonstradas na película, tem um bom filme escondido aí, a execução da idéia é que foi ruim.
    Aquele final é muito idiota também. Um melhor final seria apenas ter mostrado em detalhes em que estado estava o quebra-cabeças humano que o assassino vinha montando(com uma música bizarra de fundo). E só isso, não precisava de mais nada.
    Definitivamente, esse não é um bom filme trash pra se ver em galera, há outras coisas melhores.

  2. Chocante, eu peguei Pieces junto com Mother’s Day e Mutilator, todos os três em VHS pirata em 1986 numa locadora especializada em filmes de terror que existia em Sorocaba.

    1. As
      Assisti no YouTube tem um charme achei engraçado equase uma comedia nota 6.5 muito divertido

  3. Eu adoro esse slasher é um dos meus favoritos !
    ” Pieces ” obrigatoriamente está na minha coleção na versão sem cortes !

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