Doutor Sono (2019)

Doutor Sono
Original:Doctor Sleep
Ano:2019•País:EUA
Direção:Mike Flanagan
Roteiro:Mike Flanagan, Stephen King
Produção:Jon Berg, Trevor Macy
Elenco:Rebecca Ferguson, Ewan McGregor, Jacob Tremblay, Carel Struycken, Danny Lloyd, Emily Alyn Lind, Henry Thomas, Cliff Curtis, Zahn McClarnon, Chelsea Talmadge, Alex Essoe, Bruce Greenwood, Jocelin Donahue, Carl Lumbly, Kyliegh Curran

Um ensandecido Jack Nicholson, correndo atrás do filho em um labirinto gelado, está longe de ser o final que Stephen King gostaria de ter visto nos cinemas, quando O Iluminado fora adaptado pela primeira vez. A liberdade criativa de Stanley Kubrick não cerrou as portas do Hotel Overlook, o que teria feito as assombrações que habitam o local permanecerem ali ou acompanharem seu hóspede especial. Essa diferença foi de suma importância para a composição do livro Doutor Sono e provocou mudanças no último ato da versão cinematográfica, como uma espécie de justiça e homenagem. Contudo, o mais estranho surgiu num vídeo de divulgação do filme, em que o escritor aparece comentando a adaptação e assumindo que se trata de uma continuação do longa de 1980, aquele pelo qual ele sempre demonstrou repulsa.

No processo de desenvolvimento do projeto, Mike Flanagan conversou com King a respeito e parece ter entrado em um acordo curioso, a tal justiça quanto ao final original de O Iluminado. Assim, como os trailers já antecipam, a proposta de Doutor Sono é fazer uma nova visita ao hotel amaldiçoado, passeando pelos ambientes clássicos, recriando cenas antológicas e revendo velhos arrepios. Mas, isso só seria possível se Flanagan voltasse seus olhos para o que Kubrick fizera, só retornando ao texto original para uma troca justa com a continuação literária. O resultado parece ter agradado a ambas as partes, e, principalmente, o público, tanto leitor quanto cinéfilo.

E o desfrute dos fãs do filme de 1980 já começou na cena inicial de Doutor Sono, quando, após mostrar o ataque de Rose Cartola (Rebecca Ferguson) à pequena Violet (Violet McGraw, a jovem Neil de A Maldição da Residência Hill), recria a sequência em que o pequeno Danny (desta vez, Roger Dale Floyd) atravessa os corredores do Hotel com seu triciclo até parar em frente ao quarto 237. A porta aberta revela na escuridão a aproximação de uma senhora decrépita, acordando o garoto de mais um pesadelo. Recepcionado pela mãe Wendy (Alex Essoe, que refaz muito bem os trejeitos de Shelley Duvall), o pequeno se mostra aterrorizado pela assombração que o seguira até sua morada, sempre aguardando-o no banheiro.

Conversando com o fantasma de Dick Hallorann (Carl Lumbly, ótimo) – uma outra mudança que vai ao encontro do filme de Kubrick -, ele descobre um meio de aprisionar as criaturas do Hotel em caixas desenvolvidas pela mente. Apesar da boa solução, ele não conseguiu evitar a herança alcoólica do pai, o que o levou a um incidente trágico numa noite de bebedeiras e sexo, na vida adulta, agora interpretado por Ewan McGregor. A cena, que também está no livro, desponta como um divisor de águas do rapaz, que decide mudar de cenário em busca de uma nova vida. Essa mudança acontece no mesmo momento em que Rose está trazendo para a equipe a poderosa vingadora Andi Cascavel (Emily Alyn Lind, de Evocando Espíritos 2, e A Babá), e o procedimento vampírico é mostrado, incluindo as primeiras caracterizações dos demais integrantes do Verdadeiro Nó, como Papai Corvo (Zahn McClarnon) e o avô Flick (Carel Struycken).

Numa cidade pequena, Danny conhece Billy Freeman (Cliff Curtis), que o leva a sua morada. É lá tem o primeiro contato com a pequena Abra Stone (Kyliegh Curran), uma iluminada que tem tentado esconder seus poderes da família, o que a protegeu dos vampiros, até a morte violenta de um garoto. Essa aproximação se intensificará oito anos depois, com Danny já tendo prestígio nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos e com um bom emprego como enfermeiro de um hospital para pacientes terminais, ajudando os residentes a encontrar uma boa morte, o que lhe trouxe o apelido de Doutor Sono. Em breve, essa conexão entre os três levará a um inevitável confronto no interior do Hotel Overlook, despertando as assombrações escondidas na mente do rapaz iluminado.

Não foi apenas essa alteração no final que trouxe as principais mudanças da adaptação de Flanagan. O Doutor Sono literário facilita bastante os esforços de Danny e Abra, e quase não traz mortes significativas, além das esperadas. Embora tenha a marca cativante do autor, ela está a milhas de distante do livro original, e isso é um ponto que enaltece os esforços de Flanagan na construção de uma narrativa que remete a tudo que envolve Danny Torrance, além daquelas tradicionais referências ao universo de Stephen King. Talvez, tenha faltado um pouco mais de “doutor sono” no filme, tornando-se apenas uma passagem rápida no processo de amadurecimento do personagem, quando ele passa a usar seus poderes de maneira benéfica.

Como filme de terror, Doutor Sono possui algumas doses de arrepios, principalmente no primeiro ato, com a aparição da velha do banheiro ou do bebê zumbi, mas depois ele se torna mais interessante do que assustador. Você se envolve com os personagens nessa jornada contra as criaturas sobrenaturais, apenas se preocupando com o destino daqueles que estão envolvidos indiretamente, e se impressiona com a própria Abra, a cada novo truque aprendido. Os efeitos são até bem constituídos, sem nada de especial que não seja o voo de Rose como uma bruxa, embora alguns velhos conhecidos não lembrem suas versões originais e poderiam ficar apenas na obscuridade.

Contando com um bom elenco, com destaque para a atuação de Carl Lumbly e Cliff Curtis, Doutor Sono não se tornará um clássico de uma geração como foi o original, mesmo com todo o esmero técnico do diretor, mas é um bom resgate ao universo de King-Kubrick, incluindo a trilha sonora e algumas tomadas aéreas. Aprovado pelo Mestre do Horror Contemporâneo, cabe a nós apenas apreciar a visita aos cômodos do hotel maldito acompanhados de seres iluminados e poderosos, imaginando se esse universo ainda será retomado.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

Um comentário em “Doutor Sono (2019)

  • 16/11/2019 em 20:03
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    Penso que nenhum diretor de horror da atualidade poderia ter feito o que o Flanagan fez com tanta competência e classe. Me arrepiei quando ele aplicou aqueles movimentos de câmera típicos da filmografia dele nas cenas no Overlook.

    Ah, e eu também destacaria a atuação da Rebecca Ferguson. Há tempos não vejo uma vilã com motivações tão sólidas e bem explicadas na narrativa, e a entrega da atriz só potencializa isso.

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