Vampiros de Almas (1956)

4.5
(2)

Vampiros de Almas
Original:Invasion of the Body Snatchers
Ano:1956•País:EUA
Direção:Don Siegel
Roteiro:Daniel Mainwaring, Jack Finney, Daniel Mainwaring, Richard Collins
Produção:
Elenco:Kevin McCarthy, Dana Wynter, Larry Gates, King Donovan, Ralph Dumke, Virginia Christine, Tom FaddenJean Willes, Carolyn Jones, Guy Way

Segundo a lenda, Vampiros de Almas, de Don Siegel, causou verdadeiro rebuliço nos cinemas americanos quando foi lançado em 1956. E o motivo não podia ser outro senão aquela velha e mais do que conhecida intriga política que imperava no período, com o capitalismo e o comunismo em pé de guerra pelo domínio ideológico e armamentista do mundo pós-Segunda Guerra. Enquanto os países que foram o palco central dos acontecimentos batiam a poeira e tentavam se restabelecer, os Estados Unidos e a então União Soviética iniciavam o famoso e histórico xadrez psicológico que só veria seu fim com o término da chamada Guerra Fria no final da década de 1980, quase meio século após haver tido começo. Mas foi mesmo nos anos 50 e 60 – que são geralmente apontados como os “anos de ouro” da ficção científica – que a coisa ficou quente pra valer, com toda sorte de intrigas duvidosas sendo apontadas como algo a que se devesse temer e combater.

Segundo o próprio Jack Finney, o autor de “Invasores de Corpos“, o livro que inspirou o filme de Don Siegel, a sua intenção foi escrever uma história pura de terror e ficção científica, sem outra pretensão que não o divertimento e a distração, numa trama fantástica bem ao gosto do período. Diz ele, textualmente:

“Tenho lido explicações do ‘significado’ dessa história que me divertem pelo fato de que não há significados; foi simplesmente uma história feita para entreter, e com nenhum significado além desse. A primeira versão em filme do livro foi feita com grande fidelidade, exceto pelo final medíocre; e sempre me divertia com as argumentações das pessoas envolvidas com o filme de que eles tinham alguma espécie de mensagem em mente. Se era assim é muito mais do que eu jamais fiz, e, dada a proximidade com que eles seguiram minha historia, é difícil ver como essa mensagem surgiu. E quando a mensagem foi definida, sempre me pareceu um pouco pobre de espírito. A ideia de escrever um livro inteiro a fim de dizer que não é uma boa coisa que todos nós sejamos iguais, e que a individualidade é uma boa, me faz rir”.

Mas talvez houvesse mesmo alguma segunda intençãozinha dos produtores envolvidos com a película, incluindo o próprio Don Siegel, pois tão logo o filme começou a ser apresentado, as analogias políticas começaram a surgir, e com toda a força, ainda hoje sendo objetos de estudo e motivos de controvérsias. Mas a verdade é que nada disso importa realmente; o que importa é que Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers) é um dos ótimos filmes do período e está muito acima de qualquer definição ou rotulação que lhe possa ser imputado, além de deixar uma mensagem que – esta sim – vale até os dias de hoje: a tendência cada vez mais pronunciadamente vegetativa do ser humano.

Segundo Jeff Rovin, em sua monumental “The Encyclopedia of Monsters” (Facts On File, New York, 1989), a história foi publicada primeiramente em 1954 sob forma de conto, na revista “Coliers“, como “Sleep No More“, e expandida posteriormente sob a forma de romance.

E o filme segue fielmente o livro de Finney, mostrando uma aterrorizante invasão alienígena ganhando forma e substância na pequena Santa Mira, típica cidadezinha norte americana, daquelas onde todos conhecem todos. Os invasores são enormes vagens leguminosas que se alojam próximo a seres humanos em estado de letargia e lhes duplicam o físico e a mente, mas não as emoções, em cópias quase perfeitas; portanto mantém as características mais íntimas de sua essência vegetal. (Alguém já viu uma cenoura chorar?). Após o processo, o humano matriz, original, é destruído, restando só a cópia. A invasão se inicia com toda sua força e mesmo aqueles que passam a desconfiar da estranha mudança que vai se processando nada podem fazer – uma hora ou outra terão de dormir. A história gira em torno de dois casais que são aparentemente os únicos a perceber o insólito propósito das vagens espaciais e tentam avisar as autoridades, que, lamentavelmente, não dão credito, pois elas… bem, agora as autoridades desfrutam a vida como leguminosas antissociais. Dos casais, o único que se salva é o Dr. Miles (interpretado por Kevin McKarty), que foi justamente a primeira pessoa que se deu conta de que o que parecia ser apenas uma neurose coletiva era, na verdade, uma invasão alienígena de proporções impensáveis. Mas este “se salva” , como dizia Einstein, é relativo: foram feitos dois finais diferentes para o filme; um, otimista, em que a invasão se concentra apenas em Santa Mira, o que dá tempo de freá-la antes que atinja o restante do mundo (este é o final medíocre ao qual se referia Jack Finney); e outro, pessimista, onde vemos a invasão ganhando proporções geométricas irrefreáveis, com o Dr. Miles, desesperado, fechando com a pérola: “você será o próximo!“.

Este último sim é o final verdadeiro, e não se deixe enganar por um epílogozinho feliz, feito para atrair as pessoas ao cinema e deixá-las satisfeitas com o seu mundo que anda seguro e às mil maravilhas.

De tão boa, essa clássica história ganhou mais duas versões cinematográficas competentes, ainda que inferiores ao clássico de Don Siegel: uma em 1978, Invasion of the Body Snatchers (no Brasil traduzida como Invasores de Corpos), dirigida por Philip Kaufman e estrelada por Donald Sutherland e Leonard Nimoy; e outra em 1993, Body Snatchers (no Brasil como Os Invasores de Corpos), de Abel Ferrara e com Gabriele Anwar e Terry Kinney nos papéis centrais.

Quanto ao primeirão, Vampiros de Almas, pode ser encontrado por aqui em VHS (colorizado artificialmente) e DVD (no original preto & branco), pela Herbert Richers.

N.E.: Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine “Juvenatrix” # 78 (setembro de 2003). E depois chegou ao Boca do Inferno em sua versão antiga, lançada antes de Invasores, de 2007.

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E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

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