Invasores de Corpos (1978)

4.9
(15)

Invasores de Corpos
Original:Invasion of the Body Snatchers
Ano:1978•País:EUA
Direção:Philip Kaufman
Roteiro:W.D. Richter, Jack Finney
Produção:Robert H. Solo
Elenco:Donald Sutherland, Brooke Adams, Jeff Goldblum, Veronica Cartwright, Leonard Nimoy, Art Hindle, Lelia Goldoni, Kevin McCarthy, Don Siegel, Tom Luddy, Tom Dahlgren, Maurice Argent, Wood Moy, Robert Duvall

De tempos em tempos, uma nova invasão alienígena, inspirada na clássica obra de Jack Finney, inevitavelmente acontece. Seres de outro mundo encontram meios de destruir a raça humana, misturando-se à espécie, provocando paranoia, teorias da conspiração e muita insegurança. A primeira vinda aconteceu em 1956 com o intrigante Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers), de Don Siegel, com fotografia em preto e branco; depois houve um novo ataque em 1978 com o aterrorizante Invasores de Corpos, de Philip Kaufman, com Donald Sutherland; e, então, Os Invasores de Corpos: A Invasão Continua (Body Snatcher, 1993), com um título nacional justificado pelo retorno do argumento. Invasores (The Invasion, 2007), de Oliver Hirschbiegel, com Nicole Kidman e Daniel Craig, foi a última adaptação do texto original, somente para comprovar a intensidade da narrativa.

Ademais, se você fizer um estudo sobre a temática, vai descobrir inúmeras produções influenciadas ou que simplesmente copiaram a ideia principal. E pode até descobrir que, de certa forma, Finney não foi assim tão criativo. Em 1938, o conto “Who Goes There!“, de John W. Campbell Jr., já trazia criaturas que copiavam a raça humana para promover uma invasão e domínio, servindo de inspiração sutil para O Monstro do Ártico (1951) e posteriormente para o absoluto O Enigma de Outro Mundo (1982), de John Carpenter. Provavelmente, Finney imaginou algo parecido, mas em uma escala urbana, desenvolvendo os moldes para “a invasão dos ladrões de corpos“. Por fim, em 1998, a ficção-teen Prova Final (The Faculty, 1998) também abraçou a ideia, com momentos divertidos, e que homenageiam ambas as obras.

Dentre todas as incursões, a que mais me traz arrepios até hoje é a de 78. Invasores de Corpos me fazia sair da sala todas as vezes na cena em que um cachorro surge com o rosto de um homem. É um momento rápido, com menos de 5 segundos, com efeitos ruins para o olhar atual, mas suficientemente incômodos. Mas não é o único acerto de Kaufman: o elenco, encabeçado por Sutherland, ainda conta com Brooke Adams, Jeff Goldblum, Veronica Cartwright, Leonard Nimoy e uma pontinha de Kevin McCarthy e Don Siegel, ambos de Vampiros de Almas. Há acertos na direção, com ótimos posicionamentos de câmera, e no roteiro conspiratório de W.D. Richter (de Drácula, Os Aventureiros do Bairro Proibido e Trocas Macabras), que soube lidar com o caos urbano de maneira apavorante que somente a versão de 2007 conseguiria resgatar.

Essa primeira refilmagem foi lançada nos EUA no final de 1978, arrecadando U$25 milhões nos cinemas. Passou a ser cultuada nos anos seguintes, recebendo mais elogios à sua proposta de levar o medo a São Francisco – uma escolha pessoal do diretor e seu afeto pela cidade, definida por ele como “onde tudo acontece“. Kaufman nunca imaginou seu longa como um remake, mas sim uma releitura do texto original, com fotografia colorida. Embora seja fã do filme de 1956, ele só topou ler a obra de Finney quando lhe foi oferecida a direção. Fez um trabalho belíssimo, principalmente de controle de elenco, sabendo dosar elementos de ficção científica com o horror paranoico, com resquícios da Guerra Fria.

Seu longa começa já apresentando uma ideia para a chegada alienígena. Sem naves imensas cruzando os céus, apenas o passeio dos organismos, de origem vegetal, pela atmosfera até alcançar a flora, copiando plantas a poucos metros da população. Uma dessas flores é colhida por Elizabeth Driscoll (Adams), uma conceituada cientista do Departamento de Saúde, que chega em casa e encontra seu namorado Geoffrey (Art Hindle) largadão no sofá. Em poucos minutos de cena, a boa interpretação e o roteiro de Richter já permitem associar o personagem a alguém irresponsável, mas extremamente amoroso. Na manhã seguinte, o rapaz já está com roupas sociais e sem expressividade, preocupado apenas em se livrar dos cacos de vidro do recipiente onde a flor colhida estava e levar o lixo para a coleta.

Com a diferença notada, Elizabeth é aconselhada pelo amigo Matthew Bennell (Sutherland) a buscar apoio do experiente psiquiatra David Kibner (Nimoy), que estará em um evento lançando seu novo livro. No local, ela começa a notar a reclamação de uma mulher sobre a mudança de comportamento do marido, algo que o próprio Matthew irá perceber em um estabelecimento de lavagem de roupas. Aos poucos, mais elementos começam a circundar os dois e também o amigo e aspirante a escritor Jack Bellicec (Goldblum) e sua esposa Nancy (Cartwright), que administram um spa: as pessoas nas ruas começam a aparentar apatia, enquanto um homem insano (McCarthy) se atira na frente do carro dizendo coisas como “eles estão aqui.

Cria-se um ambiente de loucura e paranoia, sem que eles entendam realmente o que está levando as pessoas a agirem dessa forma. O ápice acontece na cena em que tentam dormir: as plantas liberam pequenos tentáculos que, ao adentrarem no organismo, começam a colher DNA até reproduzir uma cópia exata. A nova vida se desenvolve em processo acelerado, de embrião à forma adulta, até que, depois de tudo extraído, a pessoa morre, murchando e se desfazendo. Os efeitos especiais são adequados para a proposta, associando o desenvolvimento a uma trilha incidental que emite um ritmo pulsante.

À medida em que aumenta o número de “corpos roubados“, a sensação de insegurança proporcionalmente se amplia. Parece que não há escapatória, e se você é identificado como humano em meio à população alienígena um alerta sonoro agudo é expresso juntamente com a mão acusatória, atraindo a atenção de outros que irão persegui-lo pelas ruas, com o apoio da polícia e de quem mais já tiver sido trocado. Imagine o quanto isso é a evidência de um pesadelo vivo, em que você não tem em quem confiar e não sabe para onde correr!

Não há como negar a força narrativa da obra que deu origem a esse filme. E Invasores de Corpos faz jus à literatura, sabendo incomodar tanto os sobreviventes, que não podem simplesmente dormir, quanto o espectador, em um inferno de conspiração e ameaça, beneficiado pelos bons aspectos técnicos, pelo elenco e atmosfera: a simples cena em que um padre (pontinha ilustre de Robert Duvall) aparece no balanço de um parque dá a sintonia de que algo está fora do lugar.

Uma produção que soube envelhecer bem e se destacar entre outras similares, mas com menos expressão.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

3 thoughts on “Invasores de Corpos (1978)

  • 05/07/2023 em 16:58
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    Filme maravilhoso.

    Primeira vez que assisti foi no Corujão (ou talvez no Supercine) nos anos 90 ainda. É uma pena que não lançam o filme em blu-ray no Brasil.

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    • 06/07/2023 em 12:37
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      Filmaço! Extremamente tenso e angustiante, pra mim consegue ser melhor que o original.

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    • 06/07/2023 em 15:18
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      Filme do c …. Até hoje é imbatível . O começo com as sementes viajando pelo espaço e extraordinário … e o final … PQP … que final e aquele ? Perfeito .

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