Um Lugar Silencioso: Parte II (2021)

4.8
(6)

Um Lugar Silencioso - Parte II
Original:A Quiet Place Part II
Ano:2021•País:EUA
Direção:John Krasinski
Roteiro:John Krasinski
Produção:John Krasinski, Brad Fuller, Andrew Form, Michael Bay
Elenco:John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds, Cillian Murphy, Noah Jupe, Djimon Hounsou, Okieriete Onaodowan, Scoot McNairy, Zachary Golinger, Blake DeLong, Gary Sundown

Quando o primeiro filme foi lançado, estávamos tendo uma febre de produções de terror que abordavam, de maneira curiosa, os sentidos, como Bird Box, Hush – A Morte Ouve e Terror nas Trevas, todas muito bem conceituadas. Um Lugar Silencioso se mostrou muito mais eficiente que suas co-irmãs pela quase completa ausência sonora, que fez com o público praticamente não respirasse no cinema, e também teve acertos no elenco bem escolhido, nos personagens bem construídos – muitas pessoas demoraram para perceber que Regan (a talentosa Millicent Simmonds) era surda – e na concepção de uma ameaça realmente aterrorizante. E o fato do longa se concentrar numa única família, em uma zona rural, repleta de plantações, trouxe boas recordações de Sinais, estabelecendo um ambiente adequado para a construção de um longa repleto de possibilidades. E estas vieram com a realização do segundo filme, tardiamente lançado devido à pandemia do coronavírus.

Desde as primeiras entrevistas, após a confirmação da Paramount sobre uma continuação – convencida pelos mais de U$340 milhões de dólares que o primeiro arrecadou pelo mundo -, o diretor e ator John Krasinski já deixava entender que o segundo filme daria uma abordagem maior do terror apresentado, ao mostrar o primeiro dia de ataque das criaturas e também dar continuidade ao que aconteceu com a família Abbott, após a longa noite que envolveu parto, morte do pai e descoberta de uma forma de combate, a partir do aparelho de surdez de Regan. Assim, vários roteiros foram descartados pela vontade do cineasta de dar também um maior protagonismo à garota, uma vez que ela é a verdadeira antagonista dos monstros, a única capaz de entender o novo mundo.

A partir das ideias em desenvolvimento, o elenco do primeiro assinou para retornar – à exceção do garoto Cade Woodward, substituído por Zachary Golinger (o que justifica sua aparição no começo de costas e sem destaque) – e, em março de 2018, Cillian Murphy (sempre lembrado pelo apocalíptico Extermínio) foi contratado. As filmagens aconteceram no segundo semestre de 2019, tendo toda a sua fotografia principal finalizada em setembro. A pretensão era lançá-lo em março de 2020, mas foi adiado juntamente com diversos outras produções pelo Covid-19, e a estreia passou para maio de 2021 nos EUA, chegando aos cinemas brasileiros apenas no dia 22 de julho. Assim como o primeiro e ainda levando em consideração sua ida ao sistema de streaming Paramount +, Um Lugar Silencioso – Parte 2 já conquistou mais de U$290 milhões de dólares pelo mundo, justificando as primeiras conversas sobre um terceiro.

Com grande parte da crítica favorável, a principal questão é saber se o filme pode ser considerado melhor que o primeiro. Pode-se dizer que sim. Embora não traga muitas novidades, o universo desenvolvido por Krasinski é realmente apavorante. Bastava completar algumas lacunas, como o começo dos ataques sob o ponto de vista dos Abbott, e dar continuidade à luta pela sobrevivência, com mais vítimas, mais aparições dos monstros e muito mais sequências silenciosas de tensão. O longa fez exatamente isso, e manteve a narrativa dividida em pequenos núcleos, mostrando-se eficiente em torná-los interessantes e bastante movimentados.

A história começa no Dia 1, mostrando a família na cidade na chegada do que parece ser um objeto flamejante. Caos, veículos se colidindo nas tentativas de fuga e os Abbott buscando meios de resistir aos primeiros encontros, com algumas tomadas longas do diretor. Depois deste começo eletrizante, as ações se voltam à última cena do primeiro, Evelyn (Emily Blunt), Marcus (Noah Jupe) e Regan recolhem seus pertences como o amplificador e armas, e partem como retirantes em busca de um novo abrigo. Eles chegam a uma instalação, habitada por um conhecido da família, Emmett (Murphy), que sobreviveu com armadilhas de aproximação e o esconderijo em um bunker.

Com Marcus ferido e Regan curiosa por uma música que toca com frequência na rádio chamada Beyond the Sea – ela tem consciência pelas anotações do pai -, a narrativa logo se segmenta com Regan em uma jornada com Emmett em busca do tal refúgio, Evelyn tentando encontrar medicamentos para o filho machucado, e o próprio, isolado no bunker com o bebé recém-nascido. Todos serão incomodados pelos monstros e precisarão comprovar a coragem adquirida com o pai nos combates em ambientes diferentes, com destaque para Regan, que irá descobrir que, em situação extrema, muitas vezes a principal ameaça é o próprio ser humano. Ainda que seja uma temática recorrente em produção pós-apocalípticas, ela é necessária e condizente com a realidade, tendo em vista egocentrismo de nossa sociedade.

Sem a necessidade de dar profundidade aos personagens, Um Lugar Silencioso: Parte II consegue ser mais movimentado, com mais ataques e aparições. Não amplia a mitologia das criaturas, nem explica completamente suas origens, mas traz uma informação importante sobre a capacidade de resistência delas, algo que considerei um ponto negativo no primeiro. Os bons efeitos especiais e as atuações, principalmente de Emily Blunt e Millicent Simmonds, são os destaques da produção, embora também seja necessário ressaltar a direção adequada e as ambientações. Já o roteiro, do próprio Krasinski, faz uso de algumas conveniências e traz pouca ousadia, mas é compreensível pelo que já fora feito com as duas grandes perdas do primeiro.

Prometendo novos caminhos para a franquia e uma nova direção, agora é aguardar a terceira parte desse terror apocalíptico sob o viés da família Abbott, imaginando uma possível maior resistência da humanidade. De preferência, sem que o nosso apocalipse atual possa atrasar seu lançamento.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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