Depois (2021)

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Depois
Original:Later
Ano:2021•País:EUA
Autor:Stephen King•Editora: Suma

Eu vejo pessoas mortas.” Essa sentença, proferida por Haley Joel Osment no ponto-chave do filme O Sexto Sentido, é relembrada pelo protagonista do livro Depois (Later), de Stephen King, já nas primeiras páginas. Mas, ele já deixa claro que “não é como aquele filme com o Bruce Willis” e, embora possa estabelecer diálogos com os mortos e a relação permita desvendar seus segredos, sua história é de terror. E não se poderia esperar diferente de um escritor habituado a trazer relatos aterrorizantes com personagens tridimensionais, com sentimentos bem construídos, na produção de enredos macabros. Desta vez, ele o faz em um livro menor, quase um conto esticado, e que permite uma leitura mais acelerada para descobrir o que o dom de Jamie Conklin irá trazer de percalços para ele.

Vivendo com a mãe, uma agente literária que tem feito sua renda na publicação de uma série de livros que aborda os mistérios de Roanoke, o garoto de 8 anos Jamie se sente incomodado com a sua capacidade de ver e conversar com os mortos. Aparecendo na sua condição final, com os estragos causados pelo ferimento que os levaram à morte, a principal característica é a impossibilidade de mentir. Por mais íntimos que sejam seus segredos, basta que Jamie faça a pergunta certa para obter a resposta. E é essa condição que o leva a ser explorado pela mãe para saber os destinos dos personagens do escritor Regis Thomas, e também terá uma utilidade importante na revelação da última bomba de um assassino – uma provável referência a Theodore Kaczynski, conhecido como Unabomber -, com o pedido de Liz Dutton.

Assim, a obra de King adquire um tom mais de mistério, bem mais do que prometera Jamie. Com a linguagem infantil nas primeiras páginas – me lembrou uma passagem de Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade -, e o amadurecimento adquirido ao longo do livro, Jamie se vê aterrorizado por um dos mortos que não quer ir embora. Como eles costumam desaparecer em torno de uma semana, e a própria voz se desvai à medida em que vão se apagando da existência, um em especial passa a persegui-lo por onde quer que ele vá, restando ao garoto pedir a ajuda de um senhor para a realização do arriscado Ritual de Chud. Porém, a própria realização lhe trará insegurança e o despertar a qualquer momento de uma entidade adormecida.

Com um bom ritmo narrativo, que não desperdiça em desnecessárias descrições e situações que não levam a lugar nenhum, Depois pode servir de uma boa literatura de introdução aos textos de Stephen King. Não irá encabeçar qualquer lista dos enredos mais assustadores, nem estará entre os destaques da biografia do autor, mas diverte e apresenta uma boa possibilidade que o filme de M. Night Shyamalan não explorou, embora se veja ali a relação familiar e a convivência complicada entre um garoto e a mãe problemática. Cria-se um bom vínculo com o protagonista, instigando o leitor a querer saber mais sobre ele, e como ele iria lidar com o seu dom com o passar dos anos. Quem sabe não iremos reencontrá-lo….depois?

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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