A Sétima Vítima (2002)

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A Sétima Vítima
Original:Darkness
Ano:2002•País:EUA, Espanha
Direção:Jaume Balagueró
Roteiro:Jaume Balagueró, Fernando de Felipe e Miguel Tejada-Flores
Produção:Julio Fernández, Brian Yuzna
Elenco:Anna Paquin, Lena Olin, Iain Glen, Giancarlo Giannini, Fele Martínez, Stephan Enquist, Fermín Reixach, Francesc Pagés, Craig Stevenson, Paula Fernández, Gemma Lozano, Xavier Allepuz, Joseph Roberts.

Existem filmes que são lançados aqui no Brasil diretamente no mercado de vídeo, e outros que ganham uma oportunidade nos cinemas. Nem sempre essa política de lançamento recebe a atenção que deveria, com um estudo mais aprimorado e cuidadoso dos filmes que chegam até nós. Como resultado de um trabalho feito de forma deficiente e precária, temos uma série de possibilidades, desde o lançamento direto em vídeo de filmes interessantes que mereceriam também uma exibição anterior nas telas grandes (por exemplo, Garganta do Diabo), ou o contrário, filmes ruins que passam em nossos cinemas e deveriam ser completamente ignorados (como Anaconda 2: A Caçada Pela Orquídea Sangrenta), sendo que a melhor estratégia para eles seria o lançamento direto para o vídeo.

E ainda temos outras variações, como filmes muito bons que demoram demais para estrearem nos cinemas brasileiros (caso do remake de O Massacre da Serra Elétrica, 2003), e outros que ganham espaço nos cinemas, mas sem nenhuma campanha de divulgação, jogados literalmente em poucas salas e dificultando demais o acesso pelo público (como aconteceu com o interessante thriller francês Rios Vermelhos 2: Anjos do Apocalipse). Esses comentários são apenas para os casos de filmes que chegam ao Brasil, sendo que muito pior que isso é a infinidade de excelentes outros exemplos de todas as épocas e subgêneros do horror, produzidos ao redor do mundo, que ainda continuam inéditos por aqui, e que muitos deles provavelmente nem serão lançados.

A Sétima Vítima (Darkness, 2002) é mais uma co-produção entre Estados Unidos e Espanha, através do estúdio “Fantastic Factory”, de Brian Yuzna e Julio Fernández, e que estava previsto inicialmente para entrar em cartaz em nossos cinemas em 26/11/2004, e foi adiado para a semana seguinte, em 03/12. Com a mudança, haveria a coincidência com a estreia super atrasada também da refilmagem O Massacre da Serra Elétrica, que por causa disso foi transferida mais uma vez. A Sétima Vítima, que deveria ter recebido simplesmente o nome “Escuridão” como no original, bem mais apropriado com a temática de sua história, faz parte daquele grupo de filmes muito bons que demoraram demais para entrar no circuito de exibição nas telas grandes, além de ser disponibilizado apenas em poucas salas e de forma quase despercebida, com pouca divulgação na imprensa, atrapalhando muito para o público que aprecia o horror em tentar conferir sua exibição.

Na história, uma antiga criatura vive oculta nas trevas, habitando à espreita uma casa desde que foi invocada há longos quarenta anos. Abandonado, o misterioso ser apenas fica aguardando a chegada de uma nova família no local para poder colocar em prática um plano diabólico.

Uma família americana se muda para a Espanha, indo morar num casarão um pouco afastado da cidade. Formada pelo pai Mark (Iain Glen), portador de uma doença rara que em momentos de crise manifesta-se através de uma perigosa e violenta instabilidade nervosa, a mãe Maria (Lena Olin), uma enfermeira, além do casal de filhos, a adolescente Regina (Anna Paquim), que gosta de natação, e o caçula Paul, que passa o tempo livre fazendo desenhos.

Aos poucos, a ocorrência de fatos estranhos e misteriosos revela a existência de um segredo obscuro no passado da casa, causando uma série de conflitos que abalam a estrutura da família. O funcionamento intermitente da energia elétrica, os desenhos sinistros feitos por Paul, mostrando crianças feridas violentamente na garganta, e as aparições macabras de vultos escondidos nos cantos, entre outros eventos incomuns, acabam criando um clima de tensão no ambiente. E para aumentar ainda mais o mistério, surge também um homem enigmático, o arquiteto Villalobos (Fermín Reixach), que passa a observar do lado de fora a casa e a nova família que a está habitando, geralmente à espreita sob pesada chuva.

A jovem Regina sente-se extremamente incomodada na casa e percebe o estranho comportamento do irmão mais novo, em cujo corpo aparecem machucados inexplicáveis, e que diz estar sendo observado constantemente por crianças que o odeiam. Perturbada com a insólita situação, ela pede ajuda para um amigo espanhol fotógrafo, Carlos (Fele Martínez), e também para seu avô, o médico Albert Rua (Giancarlo Giannini), cujo passado reserva uma série de surpresas e revelações.

Sinceramente, eu não esperava muito de A Sétima Vítima, principalmente depois de constatar a passagem despercebida em nossos cinemas e a pouca atenção com a divulgação promocional do filme, além de ler a sinopse que revela tratar-se novamente de um tema já muito explorado no gênero fantástico, a velha casa que esconde um segredo obscuro envolvendo uma profecia amaldiçoada num ritual de violência e sangue para a invocação do mal absoluto. Sem falar que a história não apresenta elementos novos, apenas reciclando ideias desgastadas como a presença perturbadora de crianças e o tema da escuridão. Mas, principalmente a partir da segunda metade, com a história atingindo seu clímax com revelações importantes sobre a trama, além de um desfecho ousado e apropriado, o filme surpreendeu e merece uma atenção especial.

Entre os destaques, vale registrar as cenas no interior da casa onde vultos de crianças aparecem à espreita nas sombras, e o final fora do convencional, marcante e carregado de pessimismo, onde os produtores não tiveram receio em desagradar o grande público que sempre prefere as conclusões óbvias e tradicionais (uma prova disso eu testemunhei na sessão em que vi o filme, onde percebi uma reação de desaprovação das pessoas com o final, ou porque não entenderam completamente ou porque se decepcionaram com a mensagem proposta). Para os fãs do cinema de horror, e não aqueles apreciadores de cinema comercial em geral, o final é um dos melhores do ano de 2004, rivalizando apenas com o remake de Dawn of the Dead.

Já entre os pontos baixos em A Sétima Vítima, estão os clichês representados pela presença misteriosa de crianças, uma marca registrada em vários filmes de horror produzidos nos últimos anos, num tema que está se tornando desgastante, além das inevitáveis situações forçadas do roteiro, como por exemplo quando Regina pede para o amigo Carlos levar de carro a mãe e o irmão para o hospital para acompanhar a internação do pai doente (tinha acabado de sofrer uma crise de nervos), e ela fica sozinha na casa durante a noite, numa atitude insensata (mas providencial para os roteiristas) com o objetivo de enfrentar os mistérios do interior da mansão e tentar descobrir algo revelador sobre os estranhos acontecimentos envolvendo sua família e o lugar.

Curiosamente, no final de semana de estreia de A Sétima Vítima em nossos cinemas, houve também a exibição de outros três filmes de horror na televisão aberta, privilegiando o fã desse gênero. Além de Octopus (2000), sobre um polvo gigantesco que ataca um submarino, e o slasher Wishcraft: Feitiço Macabro (2002), sobre um totem mágico que permite a realização de qualquer desejo, ambos os filmes fracos e logo esquecidos, tivemos a exibição do excelente Cães de Caça (Dog Soldiers, 2002), uma produção de baixo orçamento e muita criatividade sobre lobisomens extremamente agressivos.

O produtor, cineasta e roteirista Brian Yuzna é um nome conhecido do cinema fantástico, diretor de filmes como A Noiva do Re-animator (90) e um dos episódios de Necronomicon: O Livro Proibido dos Mortos (93). Ao se unir ao produtor espanhol Julio Fernández eles criaram o estúdio “Fantastic Factory”, especializado em filmes de horror com a maioria da equipe técnica e locações na Espanha. Dessa parceria, além do thriller sobrenatural A Sétima Vítima, surgiram outros filmes que já foram lançados no Brasil em vídeo como Faust – O Pesadelo Eterno (Faust – Love of the Damned, 2000), Arachnid e Dagon (ambos de 2001), Re-animator: Fase Terminal (Beyond Re-animator, 2003) e Romasanta – A Casa da Besta (Romasanta – The Werewolf Hunt, 2004), além de outros como Rottweiler, Maldição e Mistério no Lago.

A Sétima Vítima teve um orçamento de US$ 12 milhões e foi lançado em vídeo nos Estados Unidos com um outro título original alternativo, trocando o manjado “Darkness” para o igualmente comum “The Dark”. O motivo da mudança é evitar um transtorno no público menos atento que poderia confundir o nome com o de outro filme , “Darkness Falls“, que recebeu o título de No Cair da Noite quando foi lançado por aqui nos cinemas em 28/03/2003.

Aliás, como o tema tanto de No Cair da Noite quanto de A Sétima Vítima é a escuridão, para encerrar esse artigo vale a pena reproduzir um pequeno texto do escritor Dennis Weatley (que também citei em minha análise crítica de No Cair da Noite), transcrito do final do filme Uma Filha Para o Diabo (To the Devil a Daughter, 1976), com o genial Christopher Lee:

“Na luz todas as coisas florescem e reproduzem… Na escuridão elas decaem e morrem. Eis porque nós devemos seguir os ensinamentos dos senhores da luz”.

Sobre isso, não posso deixar de reconhecer a sabedoria dessas palavras, principalmente depois de assistir A Sétima Vítima, mas também não posso deixar de revelar o quanto a escuridão exerce em nós, apreciadores do Horror, um misterioso fascínio, com suas trevas escondendo um mundo habitado por criaturas indizíveis, e um macabro universo repleto de sensações desconhecidas, aguardando apenas serem exploradas.

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Juvenatrix

Uma criatura da noite tão antiga quanto seu próprio poder sombrio. As palavras são suas servas e sua paixão pelo Horror é a sua motivação nesse Inferno Digital.

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