Veneciafrenia (2021)

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Veneciafrenia
Original:Veneciafrenia
Ano:2021•País:Espanha
Direção:Álex de la Iglesia
Roteiro:Álex de la Iglesia, Jorge Guerricaechevarría
Produção:Ricardo Marco Budé, Álex de la Iglesia, Ignacio Salazar-Simpson
Elenco:Ingrid García Jonsson, Silvia Alonso, Goize Blanco, Nicolás Illoro, Alberto Bang, Enrico Lo Verso, Cosimo Fusco, Caterina Murino, Armando De Razza, Nico Romero

Álex de la Iglesia é um nome ao qual se deve sempre ficar atento. Sua filmografia de críticas sociais, envoltas em sociedades imperfeitas, permite bons exercícios de reflexão, além do trato sempre adequado ao enredo e aos personagens. O principal exemplo de sua competência em apresentar narrativas profundas é, sem dúvida, o apocalíptico O Dia da Besta (1995), produção que trata da possível vinda do Anticristo e o quanto essa possibilidade abala (ou não) as pessoas envolvidas, contendo um humor sarcástico e imoral. Vale menção também o ótimo A Comunidade (2000), mais uma vez com acidez na construção de um cenário de inúmeras camadas. Apesar de ser associado ao fantástico – comandou também As Bruxas de Zugarramurdi e O Bar -, la Iglesia passeia adequadamente por outros estilos, como policial, drama, aventura e romance, isso quando não mescla tudo em uma única produção. Veneciafrenia é sua curiosa contribuição aos slashers (e até aos gialli, se considerar a ambientação), em mais uma trama que envolve sociedade problemática e violência.

Em Veneciafrenia, la Iglesia faz uso de notícias reais sobre o incômodo do turismo em Veneza. Um grupo de cidadãos faz protesto contra as embarcações que trazem constantemente turistas à cidade, espalhando vandalismo e sujeira, principalmente em eventos comemorativos como o tradicional carnaval. É durante essas festividades que cinco turistas espanhóis chegam ao local para a despedida de solteiro de Isa (Ingrid García Jonsson). Além dela, seu irmão José (Alberto Bang), a amiga Suzana (Silvia Alonso) e o casal Arantza (Goize Blanco) e Javi (Nicolás Illoro). A chegada já traz um desconforto quando utilizam o transporte aquático de Giácomo (Enrico Lo Verso), juntamente com uma figura que se veste como Bobo da Corte e foi visto anteriormente assassinando um casal de turistas.

Enquanto procura por festas e diversão, o grupo, que realmente faz muitas das ações que geram protestos, como beber e não pagar contas, passa a noite numa boate com diversos outros mascarados, e sente, na manhã seguinte, a ausência de José. Como o rapaz já havia perdido o celular, estaria sem o passaporte e tem o costume de não se exibir em fotos e redes sociais – conveniências do roteiro de La Iglesia e Jorge Guerricaechevarría -, os demais encontram dificuldades em provar que ele existe ao detetive Brunelli (Armando De Razza). E a busca por informações e recriação dos passos da noite anterior conduz os demais a novos encontros com o Bobo assassino e sequestradores.

Como se percebe, não é um roteiro inovador. O próprio torture porn O Albergue, de Eli Roth, apresentou quase a mesma ideia quinze anos atrás. Turistas incautos, curtição, desaparecimento de um, busca pelos desaparecidos e uma organização que planeja causar medo ao mundo. A diferença está no contraponto: em O Albergue, os vilões querem o turismo para seus propósitos. Além da discussão sobre a exploração do turismo, Veneciafrenia também traz a tradicional vingança por um incidente ocorrido no passado, embora a relação esteja com os realizadores de manifestações e protestos e não com os turistas, o que chega a ser irônico. De qualquer a forma, ainda que seja uma “ficcione“, o longa desenha uma Veneza com pessoas mal humoradas, frias, interesseiras e ainda faz menção ao excesso de ratos que habitam as noites no local. A exceção é Giácomo, que chega a discutir com manifestantes dizendo o quanto eles são importantes para o trabalho.

As boas cenas de morte – como a que culmina numa sinistra marionete – lembram os violentos gialli de outrora, e um cinema de sangue e mistério que faz falta. Álex de la Iglesia exagera nos cortes rápidos, mudanças de câmera e diálogos acelerados na primeira metade, incomodando um pouco a narrativa, mas depois assenta sua condução e diminui o ritmo intenso. É um ótimo diretor, apesar de certos exageros nas cenas que envolvem muitos atores em um mesmo cenário.

Distantes dos melhores trabalhos do diretor, ainda que mantenha sua crítica social evidente, Veneciafrenia é um curioso slasher anti-turismo e que pode talvez funcionar como uma mensagem de protesto contra os excessos, levando pessoas a buscar Veneza com mais respeito e admiração.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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