Obsessão (2025)

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Obsessão
Original:Obsession
Ano:2025•País:EUA
Direção:Curry Barker
Roteiro:Curry Barker
Produção:James Harris, Christian Mercuri
Elenco:Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless, Andy Richter, Haley Fitzgerald, Darin Toonder, Anthony Pavone, Justice, Anthony Casabianca, Chloe Breen, Malcolm Kelner

Certa feita, um mestre de literatura inglesa estava explicando numa aula sobre Shakespeare na faculdade a diferença entre AMOR e PAIXÃO. Eu estava entre os alunos que logo iniciariam um debate caloroso sobre dois termos que poderiam ser considerados sinônimos numa análise superficial. Ele disse que a melhor maneira de diferenciar os termos seria queimar lenha e palha: enquanto a madeira teria um fogo constante e duradouro, emitindo calor até mesmo quando ainda estivesse como brasa (o amor), a palha se incendiaria de maneira intensa e descontrolada (a paixão). Alunos ergueram as mãos em protesto quando ele disse que o amor é um sentimento perfeito, já a paixão envolve uma possessividade irracional. Pior ainda foi o debate quando citou o banquete de Platão e ainda ousou dizer que ninguém seria capaz de ferir ou matar por amor, mas pela paixão. Independente se você concorda ou não — não é o objetivo desse texto discutir sentimentos —, a realidade deixa evidências que a obsessão pode facilmente dialogar com a possessividade, um possível sintomas da paixão, mas não de forma tão divertida quanto mostrada no longa de Curry Barker.

O mundo real, das atrações insanas, das paixões platônicas, dos stalkers é extremamente assustador. Basta uma circulada por portais de notícia para encontrar relatos de fãs obcecados por artistas, pessoas que perseguem e matam seus companheiros por não aceitarem o fim do relacionamento, e aqueles que impedem que tenham contatos e se vejam como donos da pessoa com quem se relacionam. Barker faz uma alegoria de relações conturbadas com o longa Obsessão (Obsession, 2025), que teve passagens elogiosas por diversos festivais desde o ano passado quando estreou no de Toronto. A boa receptividade faz sentido pela proposta caricatural (e até no formato crônica sobrenatural) de representação de situações não muito diferentes das vistas por aí.

Bear (Michael Johnston) quer algo além da amizade com a colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette), mas lhe falta coragem para a travessia entre os portais do “você é uma boa amiga” para “você é a mulher da minha vida“. Mesmo com a ajuda de Ian (Cooper Tomlinson) e a conveniência de Sarah (Megan Lawless) por razões pessoais, todos funcionários de uma loja de instrumentos musicais, essa barreira parece intransponível, principalmente para alguém atrapalhado e que nem soube impedir que sua gata de estimação tenha acesso a medicamentos — uma ideia que antecede uma situação futura, mas que não soube trabalhar direito a emoção da perda do personagem por não permitir compreender o vínculo que ele tinha com o animal. Numa lojinha esotérica de itens místicos, ele compra um salgueiro mágico, capaz de lhe conceder um único desejo, mesmo com o alerta da vendedora sobre reclamações envolvendo o produto — aliás, muito divertida a ideia de fazer elo entre o sobrenatural e o SAC de uma empresa qualquer.

Eu gostaria que Nikki me amasse mais do que qualquer pessoa no mundo.” A sentença, acompanhada da quebra do graveto, traz um efeito imediato, mas oscilante. Em questão de segundos, Nikki salta de um ato consciente para uma atitude histérica para logo depois retornar ao seu “estado normal“. À princípio, Bear consegue conduzir bem a relação, sendo vistos grudados e aos beijos o tempo todo, como se a “Poção Nº 9” (alguém lembra da referência?) tivesse funcionado bem. Contudo, a obsessão de Nikki extrapola qualquer conceito de normalidade ao impedir aos berros que o companheiro possa sequer ir ao banheiro durante a madrugada ou sair para o trabalho, encontrar amigos numa reunião, ter vida própria. Auxiliada pela ótima atuação de Inde Navarrette, sua personagem parece um vulcão em vias de erupção, com ações impulsivas e imprevisíveis alternadas com atitudes de uma namorada comum, contando também com a ajuda da trilha incidental na construção de jumpscares ensurdecedores.

Como Barker compõe uma das metades de uma dupla de humoristas para o canal “That’s a Bad Idea” — Cooper Tomlinson é o seu parceiro de longa data —, expondo situações do dia-a-dia de maneira cômica, ele faz uso dessa veia bem-humorada para criar situações de tensão, agressividade e humor quase que concomitantes. Assim, Obsessão se constrói como um espelho bastante reflexivo em qualquer época e que pode tanto divertir quanto alertar. Quem já passou por experiências parecidas, ainda que não veja sua companheira arrebentar a própria cabeça, deve ter visto similaridades com certos comportamentos de Nikki, quando o apego passa a ter caráter doentio.

Assim como Juntos se saiu bem ano passado, Obsessão pode ocupar a mesma prateleira de destaque entre as produções do gênero. Algumas obviedades poderiam ser extraídas da trama, como sequências facilmente antecipadas pelo espectador, e o final também deveria seguir um rumo surpreendente, explorando a própria mitologia construída. De todo modo, Obsessão vale a experiência, seja para provocar arrepios ou risadas nervosas.

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