
![]() A Maldição de Cathy
Original:Cathy's Curse
Ano:1977•País:Canadá, França Direção:Eddy Matalon Roteiro:Myra Clément, Eddy Matalon, Alain Sens-Cazenave Produção:Nicole Boisvert, Eddy Matalon Elenco:Randi Allen, Beverly Murray, Alan Scarfe, Roy Witham, Linda Koot, Peter MacNeill, Hubert Noël |
A Maldição de Cathy é aquele filme de terror que, de tão ruim, se torna bom. Na trama, acompanhamos uma história arrepiante de terror sobrenatural que se desenrola quando a jovem Cathy (Randi Allen) se muda para uma casa isolada no campo com sua família. Logo após chegar, a garota é possuída pelo espírito inquieto de sua tia (Linda Koot, no papel de Laura), que morreu tragicamente ainda criança. À medida que o comportamento de Cathy se torna cada vez mais sinistro, incidentes estranhos e violentos começam a assolar a casa. Com mortes misteriosas se acumulando e o medo se espalhando entre aqueles ao seu redor, a família precisa desvendar o segredo sombrio por trás da maldição antes que ela os consuma por completo.
(contém spoilers)
Com efeitos práticos deliciosamente toscos, daqueles que em vez de atrapalhar, acabam dando charme, o filme se apoia sem pudor no exagero: sangue com aparência de molho de tomate, levitações improvisadas, teletransporte, vozes distorcidas… e o grande destaque, um quadro esquecido no sótão, cujos olhos fluorescentes parecem atravessar quem o encara. A pintura é de Laura, tia da menina, que morreu no acidente mostrado na abertura, um detalhe lançado sem muita explicação, mas que ecoa ao longo da história.
Assim que a família se muda para a antiga casa onde o pai, George (Alan Scarfe – Duplo Impacto, 1991), passou parte da infância, a atmosfera já soa estranha. A filha se adapta rápido demais, como se aquele espaço lhe fosse familiar. Mais intrigante ainda é o próprio George, que afirma lembrar com precisão de objetos da casa, como a poltrona do pai e uma estátua de mulher nua, que ele chama de sua “primeira paixão” — apesar de ter dito anteriormente que viveu ali apenas até os quatro anos de idade. São pequenas incoerências que ajudam a construir o desconforto.
Vivian (A esposa, no papel, Beverly Murray – The Carpenter, 1988), por outro lado, é quem mais sente o peso da mudança. Em recuperação de um colapso nervoso, ela se incomoda com a postura distante e condescendente do marido, mas tenta restabelecer a rotina. Junto da filha, começa a organizar a casa, até que a menina, entediada, inventa uma desculpa para escapar e passa a explorar o ambiente por conta própria. Inevitavelmente, chega ao sótão.
Lá, encontra dois elementos clássicos do terror: o quadro perturbador e uma boneca inquietante. A partir desse ponto, a narrativa mergulha de vez no estranho. Cathy, antes doce e obediente, passa a apresentar mudanças graduais de comportamento, tornando-se cada vez mais agressiva e imprevisível. Paralelamente, eventos bizarros começam a se acumular — quase sempre sem qualquer investigação ou reação proporcional por parte dos adultos.
Há episódios particularmente absurdos: uma tentativa de ferir outra criança durante uma brincadeira, a morte repentina de uma funcionária após cair da janela e o zelador Paul (Roy Witham – Agência de Assassinos, 1980), que acaba bêbado enquanto deveria cuidar da menina. Surge ainda uma médium, introduzida sem grande função narrativa, que testemunha situações alarmantes, incluindo o zelador embriagado ao lado da criança, mas simplesmente se omite. Nem mesmo quando retorna à casa, encontra Caty sozinha, presencia o ambiente perturbador do sótão e é ameaçada pela menina, ela toma qualquer atitude relevante. Apenas foge e desaparece da história.
George, por sua vez, permanece alheio a tudo, como se recusasse a enxergar o que está diante dele. Após buscar Vivian no hospital, ele a leva de volta para casa e a deixa sozinha por alguns minutos, tempo suficiente para que o sobrenatural se imponha. Cathy, já sob a influência do espírito da tia Laura, impede a entrada da mãe ao fechar portas e janelas de forma quase simultânea, num momento típico do gênero.
Mesmo fragilizada, Vivian é a única que percebe a gravidade da situação. No entanto, desacreditada pelo marido, acaba ainda mais isolada. O zelador, completamente incapaz de lidar com o que acontece, tenta intervir e acaba morto no quintal, com o rosto desfigurado. Há ainda um cachorro que surge sem contextualização clara, apenas para ser eliminado depois — mais um elemento descartável dentro da narrativa.
No desfecho, Vivian encontra a filha com o rosto queimado, segurando a boneca. Ao chamá-la, recebe a resposta inquietante: não é Cathy, mas Laura. Em um ato de desespero, a mãe toma a boneca e arranca suas pestanas; a menina grita, a boneca sangra, e a possessão acaba tão abruptamente quanto começou.
E assim, sem maiores consequências ou explicações, a história se encerra, os créditos subindo como se tudo aquilo fosse perfeitamente natural. Ainda assim, entre estranhezas, incoerências e escolhas narrativas questionáveis, o filme se sustenta justamente pelo seu charme peculiar: uma verdadeira pérola dos anos 70 e seus efeitos toscos, que faz cada minuto dedicado à sua exibição valer a pena.





