![]() Párvulos: Filhos do Apocalipse
Original:Párvulos
Ano:2024•País:México Direção:Isaac Ezban Roteiro:Isaac Ezban, Ricardo Aguado-Fentanes Produção:Natalia Contreras, Isaac Ezban, Eduardo Lecuona, Javier Sepulveda Elenco:Carla Adell, Mateo Ortega Casillas, Leonardo Cervantes, Farid Escalante Correa, Norma Flores, Emilio Galvan, Noé Hernández, Omar Karim, Horacio F. Lazo, Efrain Rosas Léono |
Filmes de zumbi são conhecidos por seus incontáveis clichês, e, vez ou outra, surge alguma produção querendo desafiar conceitos e revitalizar o subgênero. São os casos de Pontypool, Todo Mundo Quase Morto, Lá Fora, Extermínio (que absolutamente revolucionou esse nicho em sua época) e muitos outros. Em Párvulos: Children of the Apocalypse, a intenção parece ter sido semelhante. Na produção de Isaac Ezban, a ênfase não está nas grandes sequências de ação à lá Guerra Mundial Z ou no terror aos moldes de REC; aqui, o objetivo é contar uma história emocionante, carregada por personagens complexos e pelos dramas que florescem em um mundo pós-apocalíptico.
Em busca de uma solução para a pandemia de COVID-19 (sim, os piores anos desta década são canônicos nesse filme), diversos países começam a utilizar uma vacina recém-lançada no mercado farmacêutico que não passou por nenhum tipo de inspeção necessária e simplesmente foi aplicada na população em escala global. O que parecia ser a salvação revelou-se, não muito tempo depois, o mais terrível dos pesadelos: 80% dos vacinados se transformaram em seres horrendos, com força e velocidade acima do natural e uma fome insaciável por carne humana. Nesse contexto, anos após a queda da humanidade, três irmãos vivem em uma casa isolada, sobrevivendo ao apocalipse e alimentando algo misterioso preso no porão.
Se a premissa te deixou com vontade de assistir ao filme, saiba que somos dois!
A premissa do filme é, sem sombra de dúvidas, interessantíssima. Claro, não é nada super inovador (inclusive, algumas sequências de roteiro e direção me fizeram recordar instantaneamente de The Walking Dead), mas com certeza fisga um público que deseja certo frescor ao universo zumbi. Ademais, o primeiro ato, mais lento e cadenciado, apresenta protagonistas carismáticos e, acima de tudo, complexos; o filme, nesse início, aposta em uma imersão orgânica: não existem grandes explicações sobre quem são essas pessoas, o que elas estão fazendo ou quais são as ameaças daquele mundo. As menções a “monstros” e “Trombetas” intensificam o clima.
De maneira positiva, Párvulos: Children of the Apocalypse fecha seu primeiro arco destacando as características principais do trio de irmãos. Temos o primogênito, que assume um papel maior de responsabilidade e toma as rédeas do grupo; outro que está naquela fase pré- adolescente, começando a enxergar a verdadeira natureza das coisas; e um caçula com a cabeça cheia de sonhos e fantasias. Existe mais alguma coisa também: um segredo obscuro e perigoso, que movimenta a trama. É justamente da interação entre essa família, de suas diferentes características, que a história avança.
Infelizmente, quando uma revelação específica acontece (um plot twist, que, com toda certeza, não foi tão twist assim), as coisas desandam: o filme abandona os simbolismos e a calmaria tão apreciada. De repente, estamos em uma cena extremamente expositiva, na qual todos os mistérios são revelados por meio de diálogos enfadonhos. Na sequência, um novo personagem chega e parece movimentar as coisas, apenas para ser escanteado em sequência. Subitamente, você está assistindo a uma discussão em família, ao possível nascimento de um mini-psicopata (Carl Grimes estaria orgulhoso), a uma crítica à Igreja e, nos minutos finais da prorrogação, a uma tentativa de cena de ação tão vergonha alheia que precisei pausar diversas vezes e respirar fundo, lutando contra a vontade de simplesmente desligar a televisão. O clímax se esforça para aparentar grandiosidade: surge um vilão com frases de efeito, planos malignos e uma performasse tão exagerada que só consegue causar humor. Tudo é tão deslocado do restante que soa apenas forçado.
O filme tenta ser diferente e estava chegando lá, até acabar se rendendo a um amontoado de aleatoriedades tão disformes que a minha impressão foi a de ter assistido a, pelo menos, cinco histórias dentro de uma só. O texto, como anteriormente mencionado, começa forte. Mas, infelizmente, os personagens parecem sofrer de transtorno de personalidade, pois, se em uma cena dizem X, pode ter certeza de que, logo na seguinte, dirão Y e se comportarão de maneira completamente diferente. Não há constância; não tem como saber quem são aqueles em tela, já que mudam de uma hora para outra. O drama, dessa forma, desaparece, pois nenhum arco é concluído enquanto novos são iniciados a todo instante.
Por fim, ainda que a direção seja capaz de compor momentos visualmente interessantes (como em todo o episódio relacionado à comemoração de um feriado), a inabilidade de construir qualquer tensão legítima priva o telespectador de se importar com o que está acontecendo em tela. Em nenhum instante senti medo ou preocupação acerca de algum personagem; terminei sem gostar de nenhum dos apresentados, e o mais destacável entre eles não esteve em cena por mais de dez minutos (justiça a Norma Flores!)
Para mim, esse foi um filme frustrante; um enorme desperdício. Por mais que possua instantes que saltem aos olhos, não é algo que tenho vontade de rever, pois não penso ser capaz de suportar, pela segunda vez, assistir a uma ideia tão boa falhar em alcançar seu potencial. O pior, com toda certeza, é que esse nem é um potencial imaginário: ele estava lá e se perdeu…
E talvez esse seja o mais triste dos dramas.






