![]() 2019 - O Ano da Extinção
Original:Daybreakers
Ano:2009•País:Austrália, EUA Direção:Michael Spierig, Peter Spierig Roteiro:Michael Spierig, Peter Spierig Produção:Chris Brown, Bryan Furst, Sean Furst Elenco:Ethan Hawke, Willem Dafoe, Sam Neill, Claudia Karvan, Damien Garvey, Gabriella Di Labio, Tiffany Lamb, Renai Caruso Christopher Kirby, Isabel Lucas, David Vallon |
Não sou exatamente fã de filmes de vampiros, mas, de vez em quando, acabo vendo algum que apresente ideias mais modernas, fugindo daquela velha fórmula de estacas no coração, água benta e toda a parafernália que acompanha esse universo já tão saturado desses seres míticos.
Eu tinha assistido a Daybreakers alguns anos após sua estreia e, ontem, depois de ver um título mais recente — o mediano Living Among Us (2018, dirigido por Brian Metcalf), lançado oito anos depois de Daybreakers —, senti uma enorme vontade de revisitá-lo. Lembrava vagamente da história, mas tinha a sensação de que minha interpretação hoje seria bem diferente, considerando tanto os acontecimentos recentes no mundo quanto mudanças no meu próprio estilo de vida, como o fato de eu ter me tornado vegana. Não se trata de levantar nenhuma bandeira, vale deixar claro — é apenas uma reflexão sobre como nossa forma de perceber uma história muda quando a revisitamos com o passar do tempo.
Na primeira vez em que assisti, lembro de ter ficado incomodada com a ideia de humanos sendo usados como rebanho — aprisionados para a extração de sangue. Agora, com essa mudança de perspectiva, foi interessante me ver “do outro lado”.
Já começando pelo título em português, 2019: O Ano da Extinção, é impossível não traçar um paralelo com a realidade que vivemos durante a pandemia de COVID-19. Embora oficialmente declarada em 2020, os primeiros casos surgiram em Wuhan, na China, em dezembro de 2019. E aí vem aquele arrepio inevitável: fantasia à parte, não nos tornamos “vampiros”, claro, mas o fato de uma pandemia ter começado justamente em 2019, causada por um vírus que dizimou parte significativa da população mundial, torna essa coincidência com a premissa do filme inquietante. Na história, um vírus se espalha pelo planeta, transformando a maior parte da população em vampiros, restando apenas 5% de humanos — com ambas as espécies à beira da extinção.
Aqui há uma inversão interessante: o filme subverte o clássico cenário de horror vampírico, transformando os humanos em uma espécie caçada, à beira da extinção. Os vampiros deixam de ser minoria e passam a dominar quase completamente o mundo, reorganizando toda a estrutura social a partir dessa nova realidade. Um exemplo curioso são as “creches noturnas”, onde pais vampiros deixam seus “morceguinhos” enquanto saem para trabalhar.
Apesar de conseguirem circular durante o dia com carros adaptados e, quem sabe, algum tipo de protetor solar avançado, eles ainda não podem se expor diretamente à luz solar. O filme também mantém alguns clichês clássicos, como a ausência de reflexo — evidenciada logo no início, quando Edward Dalton (Ethan Hawke, A Entidade, O Telefone Preto) sai do carro e, ao olhar no retrovisor, vê apenas suas roupas, sem o próprio reflexo.
(contém spoilers)
Ao longo da narrativa, surgem diversas camadas de crítica política: o poder dos mais fortes sobre os mais fracos, a exploração da minoria, a desigualdade extrema — em que muitos passam fome enquanto poucos vivem com abundância — e líderes que, sob uma fachada de boas intenções, fingem buscar soluções sem qualquer interesse real em beneficiar a maioria.
Na trama, Edward Dalton (Ethan Hawke), um hematologista vampiro, tenta desenvolver um substituto para o sangue. Nesse processo, ele conhece Lionel (Willem Dafoe, Anticristo, O Farol) e Audrey (Claudia Karvan, Isolados, O Culto Secreto), dois humanos fugitivos que afirmam ter encontrado uma possível cura. Edward passa a trabalhar com eles, na esperança de aperfeiçoá-la antes que seja tarde demais.
A partir daí, inicia-se o clássico embate entre bem e mal. Edward tenta convencer seu chefe, Charles Bromley (Sam Neill, O Enigma do Horizonte, A Profecia III) — o principal antagonista — a agir de forma diferente. Bromley é o proprietário corrupto da Bromley Marks Pharmaceuticals, a maior fornecedora de sangue do mundo, responsável por “cultivar” humanos. Vampiro convicto, ele enxerga o vampirismo como uma dádiva, já que o salvou de um câncer antes da disseminação do vírus.
O personagem funciona como uma crítica direta à indústria farmacêutica e aos magnatas sedentos por poder. Ironicamente, é ele quem acaba desencadeando o processo de cura: ao morder Edward, sem saber que seu sangue já continha o antídoto, transforma-se novamente em humano — apenas para ser atacado por vampiros famintos, que passam a morder uns aos outros, espalhando a cura em efeito cascata.
No fim das contas, Daybreakers deixa de ser apenas uma história sobre vampiros e passa a funcionar como um espelho incômodo da nossa própria realidade. O verdadeiro terror não está nas presas, na ausência de reflexo ou na sede por sangue, mas na forma como um sistema inteiro se sustenta explorando até o último recurso disponível, mesmo que isso signifique caminhar rumo à própria extinção.
A escassez de sangue no filme não é apenas uma questão de sobrevivência física, mas o reflexo de um modelo predatório, em que a ganância fala mais alto que qualquer instinto coletivo de preservação. E talvez seja aí que o horror realmente se instala: na percepção de que não é preciso um vírus para nos transformar em algo monstruoso. Quando o poder e o lucro se tornam prioridades absolutas, a humanidade deixa de ser uma condição — e passa a ser apenas um detalhe descartável.






