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Dia D
Original:Disclosure Day
Ano:2026•País:EUA
Direção:Steven Spielberg
Roteiro:Steven Spielberg, David Koepp
Produção:Kristie Macosko Krieger, Steven Spielberg
Elenco:Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo, Wyatt Russell, Henry Lloyd-Hughes, Elizabeth Marvel, Hettienne Park, Tommy Martinez, Gabby Beans, Jeremy Shamos

Todas as vezes em que dirigiu filmes sobre o contato com extraterrestres, Steven Spielberg esteve sintonizado com o espírito da época. Como bom fruto da geração flower power, ele ressignificou a abordagem dominante na ficção científica americana da década de 1950, que retratava os alienígenas como terríveis invasores e uma alegoria para a “ameaça comunista”. Assim, Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e E.T.: O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982) eram contos de maravilhamento diante do contato com seres de outros planetas, seres esses que, mais do que apenas nossos vizinhos no universo, poderiam se tornar nossos amigos.

Pós-11 de Setembro, Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) chega então substituindo o fascínio novamente pelo medo. Os extraterrestres são uma ameaça externa decidida a dominar nosso planeta – ou, leia-se, são a Al-Qaeda empenhada em erradicar o tal modo de vida americano.

Chegamos a 2026. Uma divulgação como jamais vista até então é promovida pelo governo americano em relação a arquivos confidenciais sobre OVNIs (agora chamados de Fenômenos Anômalos Não Identificados, UAP na sigla em inglês) e vida extraterrestre. A humanidade, que em abril não deu muita bola para o lançamento de uma missão tripulada à Lua após mais de meio século, agora volta a olhar para o céu. E, efeito psicológico ou não, começa a ver muita coisa.

É nesse cenário que Dia D (Disclosure Day, 2026) chega aos cinemas. No filme, assim como na vida real, conflitos armados entre nações estão prestes a eclodir, deixando o planeta à beira do precipício. Mas, diferentemente do que está acontecendo em nosso mundo, o governo americano (ou um dos seus órgãos) não está disposto a deixar que as pessoas saibam a verdade sobre a vida extraterrestre. Daniel Kellner (Josh O’Connor), um agente renegado, rouba uma infinidade de arquivos secretos sobre o assunto, que ele pretende divulgar com a ajuda de uma rede clandestina liderada por Hugo Wakefield (Colman Domingo). Paralelamente a isso, Margaret Fairchild (Emily Blunt), a carismática apresentadora da previsão do tempo em uma emissora de Kansas City, começa a manifestar estranhas habilidades, como comunicar-se em uma linguagem desconhecida e descobrir segredos íntimos apenas ao olhar para uma pessoa.

É inteligente a escolha de uma “garota do tempo” como protagonista. Embora a função de Margaret seja informar as mudanças no clima, ela passa longe das notícias sobre o “aquecimento da temperatura” na política global, e sua participação no telejornal é um momento de descontração em meio a reportagens alarmantes. Ela bem que gostaria de ter um papel mais sério no programa, mas nós sabemos que, em suas obras sobre extraterrestres, Spielberg sempre opta pelo herói comum – um eletricista de Indiana, um garoto lidando com a separação dos pais, um operador de guindaste. Eles somos nós. Tanto que, até Margaret cruzar o caminho de Daniel, o lado espionagem da trama segue sem nada de muito inovador e traz alguns dos momentos mais cansativos do longa.

Ao mesmo tempo, através de Margaret o diretor reafirma sua crença na importância do jornalismo, algo que ele já fizera quase dez anos atrás em The Post: A Guerra Secreta (The Post, 2017). Mas, considerando-se o estado atual da internet, com seus deep fakes e manipulações por IA, é ainda mais representativo que os personagens recorram a uma velha mídia quando chega a hora de divulgar algo com o poder de mudar o mundo.

Após uma sequência de tirar o fôlego envolvendo um trem, na qual Spielberg mostra por que é um dos artífices do que conhecemos hoje como suspense cinematográfico, a história vai se desenrolando para um clímax extremamente emocional, não de fazer o coração saltar pela boca, e sim de encher os olhos de lágrimas. Alguns irão considerar o filme piegas – não sem razão -, e um elemento inserido nos últimos minutos feito um elefante enfiado numa loja de cristais realmente não ajuda. Mas Spielberg é e sempre foi um humanista. É alguém que tem fé – no poder da imprensa, na existência de vida extraterrestre, e, acima de tudo, nas pessoas. Você, como eu, pode não se alinhar com sua crença de que os alienígenas são seres que desejam estender sua empatia a nós. Porém, em um mar de cinismo e ironia, como é bom ver um artista que realmente acredita em um futuro mais brilhante.

E, vai saber… dependendo das novidades seguintes nos céus do nosso planeta, talvez Dia D acabe se tornando a ficção científica mais importante das próximas décadas.

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