![]() Clearcut / A Verdade de um Sonho
Original:Clearcut
Ano:1991•País:Canadá Direção: Ryszard Bugajski Roteiro:Robert Forsyth, M.T. Kelly Produção:Ian McDougall, Stephen J. Roth Elenco:Ron Lea, Graham Greene, Michael Hogan, Floyd 'Red Crow' Westerman, Rebecca Jenkins, Tom Jackson, Raoul Max Trujillo, Michael Millar |
Observando indicações de folk horror redes sociais adentro, me deparei com esse estiloso Clearcut, longa canadense lançado em 1991 sob a direção do polonês Ryszard Bugajski, e que aqui no Brasil recebeu o poético título A Verdade de um Sonho. Esse sonho, como é de se esperar, é um pesadelo, mas um pesadelo daqueles com inúmeras camadas bem amarradas que costumam encher os olhos de quem assiste. E aqui já vale acrescentar que, apesar dos elementos “folk” participarem ativamente da narrativa, Clearcut “rende” melhor como eco-horror devido seu forte discurso ambientalista.
O filme começa durante um embate entre polícia e militantes indígenas que estão tentando parar a atividade de uma madeireira, que tem desmatado a floresta tradicionalmente vinculada à comunidade local por meio do “corte raso” (clear-cutting). O advogado da comunidade indígena é Peter Maguire (Ron Lea), branco liberal cujos insucessos contra a empresa madeireira o atraíram até Arthur (Grahan Greene), ativista indígena misterioso com uma aura sobrenatural e que chega com uma pegada totalmente oposta ao legalismo passivo de Peter. Quando este sugeriu, numa ironia de gosto duvidoso, que sequestrar, amarrar e esfolar o dono da madeireira, Bud Rickets (Michael Hogan), seria uma forma de resolver a questão, Arthur aquiesceu e iniciou os preparativos para a emboscada. O advogado se envolve (é envolvido) no sequestro do rival e o que se segue é um emaranhado de vingança e conflitos morais amarrados de forma genial.
O ponto alto do filme certamente é o personagem Arthur, interpretado por Graham Greene. Um personagem que evoca raiva, rebeldia, descrença com o mundo, mas com um profundo respeito pela sua tradição. A forma como brinca com a rigidez moral hipócrita de Peter e com a falsa percepção que o advogado tem de si dá o movimento do filme. Um humor cínico aliado à uma imprevisibilidade anárquica e um profundo sentido espiritual são características que atraem todos os elementos em cena para ele – a floresta, majestosa e imponente, inclusive, se comunica com Arthur, reforçando ainda mais que há algo de sobrenatural sobre o indígena.
A forte crítica ambiental e social imbricada à história, que até serve para segmentar Clearcut como eco-horror, é cortesia do diretor Ryszard Bugajski, realizador polonês mais lembrado pelo longa Interrogação, de 1982, descrito como “o filme mais anticomunista da Polônia”. Seu olhar sobre o tema resultou numa obra de realismo desconcertante sob qualquer perspectiva. Um trabalho técnico competente e muito bonito, diga-se de passagem, em cima do roteiro M.T. Kelly e Robert Forsyth, este elegantemente crítico e com um toque de loucura que amamos concordar.
O ápice do filme se dá com a culminância do plano de “sequestrar, amarrar e esfolar” proposto no início, sendo esta a cena mais gráfica do filme. Apesar do desconforto gerado pelo realismo, é um momento de impacto em que a moralidade da situação é observada sob vários vieses. Peter é o personagem que concentra o questionamento moral da narrativa, e é quase possível ouvir as engrenagens da sua mente trabalhando enquanto processa a vingança de Arthur, idealizada por ele, sendo realizada. O contraponto entre a violência em curso e a grandiosidade, beleza e paz emanada pela paisagem, em meio à natureza canadense, é igualmente desconcertante.
Clearcut não foi lançado oficialmente no Brasil. Ele está disponível no blog RareLust, e é uma boa pedida não só para quem gosta da temática. Ele combina vários elementos, como a narrativa interessante, personagens bem desenvolvidos, a crítica sólida e um subtexto político-espiritualista que, aliados à boa realização, não te deixam indiferente.






