
![]() Monstro: A História de Lizzie Borden
Original:Monster: The Lizzie Borden Story
Ano:2026•País:EUA Direção:Max Winkler, Sarah Adina Smith Roteiro: Ian Brennan Produção:Ryan Murphy, Ian Brennan Elenco:Ella Beatty, Vicky Krieps, Charlie Hunnam, Rebecca Hall, Scarlett DeMeo, Chris O'Shea, Ember Ambrose, Sandra Kate Burck, Brian Knoebel, Aimee McGuire, Therese McLaughlin, Oliver Spenceman, Jessica Barden, Joey Pollari, Linda Reiter, Sarah Paulson, Jessie Lee, Bernadette Guckin, Billie Lourd |

A nova vítima das fanfics de Ryan Murphy e Ian Brennan é Lizzie Borden, a famosa assassina do machado, na quarta temporada da série que aborda assassinos populares. A escolha pela Lizzie é mais do que acertada, uma personagem histórica complexa e cheia de nuances, que se tornou conhecida pelo envolvimento em um crime sangrento ocorrido em Fall River, Massachusetts, em 1892, abalando a sociedade da época e despertando reflexões sobre a falha do processo de julgamento. Desde então, ela virou tema de publicações diversas, uma canção infantil e produções destacando A Lenda de Lizzie Borden (The Legend of Lizzie Borden, 1975), com Elizabeth Montgomery, A Arma de Lizzie Borden (Lizzie Borden Took an Ax, 2014) e a minissérie The Lizzie Borden Chronicles (2015), ambos com o protagonismo de Christina Ricci.
Os assassinatos dos Bordens até hoje não foram esclarecidos. Há várias teorias e até conspirações sobre o que teria realmente acontecido naquele fatídico 4 de agosto, mas Lizzie passou a ser a principal referência pelos depoimentos contraditórios, pela postura fria em dados momentos e atitudes estúpidas como a de queimar um vestido em plena época de investigação. O que se sabe é que Andrew, pai de Lizzie, e a madrasta Abby foram brutalmente mortos naquela manhã, vítimas de múltiplos golpes de machado. As linhas de investigação conduziram Lizzie a um julgamento no ano seguinte, mas as provas inconsistentes e as trapalhadas dos investigadores não foram suficientes para condená-la pelos crimes.
Como é de costume na série, a base histórica é engolida pelas criações de seus realizadores, conectando outras figuras conhecidas e alterando significativamente a linha narrativa. Embora traga o título “A História de Lizzie Borden“, a série parte para ideias absurdas e muita liberdade de criação, servindo apenas como uma produção ficcional sobre o tema. Tendo a consciência do formato, principalmente se você conferiu as temporadas anteriores, você irá acompanhar uma obra divertida e de fácil digestão, um sangrento romance feminista com toques inventivos de Cinderela.
Ambientada no final do século XIX, a série apresenta Lizzie Borden (na doçura de Ella Beatty), uma jovem que sofre horrores nas ações de sua madrasta, Abby (a ótima Rebecca Hall), tratada como Sra. Borden, e do pai distante, Andrew (Charlie Hunnam, o Ed Gein da terceira temporada). A religiosidade do passado real de Lizzie é substituído pela postura agressiva de Abby, considerando-a um incômodo na mansão em que residem. A situação muda quando chega uma nova empregada, Bridget “Maggie” Sullivan (Vicky Krieps), que traz uma visão diferenciada de mundo e apresenta a Lizzie através da literatura francesa a condessa húngara Elizabeth Bathory, uma assassina do século XVII que ficou conhecida por ser banhar do sangue de moças jovens com o intuito de preservar a beleza. Essa conexão fantasiosa funciona muito bem aos propósitos do enredo por servir a Lizzie como o despertar de uma condição vingativa. A reconstrução da época é bem feita, seja na forma como são mostradas as frias ajudantes da condessa como no próprio banho sangrento, inspirando Lizzie a criar uma situação parecida com cerejas.
Outro diálogo entre personagens de épocas distintas é visto no acréscimo de cenas com a assassina Aileen Wuornos (Sarah Paulson em mais uma construção perfeita), uma serial killer condenada à morte por sete assassinatos entre 1989 e 1990. Na proposta da série, Aileen era extremamente fã de Lizzie — algo nunca comprovado — e lia sobre a trajetória da garota como inspiração de suas ações criminosas. Ela até faz uma visita à casa onde viveu Lizzie e tem alguns encontros psicóticos com os mortos da época, incluindo um final bobo e transcendental. A dinâmica é até interessante pela ideia de mostrar três gerações de mulheres fortes e justiceiras.
Dentro desse conceito, o enredo faz de Lizzie uma representação feminina de sua época, colocando-a até mesmo como ativista entre as sufragistas, lutando em passeatas pelo direito da mulher votar. Enquanto homens sempre são vistos como julgadores — embora o júri convencido pela Lizzie não tenha presença feminina — e exploradores sexuais, as moças lutam pela liberdade de escolha e direitos políticos, mensagens sempre bem-vindas ainda que pelos meios tortuosos de uma produção fantasiosa.
Com sequências violentas pelo propósito de um horror gráfico e chamativo, Monstro: A História de Lizzie Borden é mais um grande acerto de uma franquia que deve ser vista com a mente aberta, seja pelas liberdades criativas e conexões engenhosas ou pelas machadadas na parte detrás da cabeça, oriundas de uma das mais interessantes assassinas da história.




