Na edição anterior de Engrenagens do Terror, prosseguimos explorando a Estrutura de 3 Atos, o formato mais clássico para estruturação de roteiros de cinema. Com base no trabalho da autora Anna Taborska, falamos sobre o Incidente Incitante, um acontecimento que altera de alguma forma o funcionamento do Mundo Comum do protagonista.
Na edição de hoje, seguimos no Primeiro Ato, quando, após o momento que Taborska chama de “dúvida e negação”, nosso protagonista se vê tendo que reagir ao Incidente Incitante de maneira mais efetiva.
Como aponta o roteirista português João Nunes, “este momento do compromisso do protagonista com a ação, do seu envolvimento definitivo e irreversível com a história, chama-se 1º Ponto de Virada, que assinala a transição do Primeiro Ato para o Segundo Ato”. O protagonista deixa o Mundo Comum, ou seja, uma situação familiar que foi modificada pelo Incidente Incitante, e entra em uma situação nova e incomum, um Mundo Desconhecido (que, apesar do nome, pode se situar até mesmo dentro de sua própria casa).
Na mais do que consagrada estrutura narrativa conhecida como Jornada do Herói, esse momento equivale ao que o escritor e mitólogo Joseph Campbell chamou de Cruzamento do Primeiro Limiar. Tal cruzamento é muitas vezes marcado ou simbolizado por algum limite geográfico – uma ponte, um portal – ou pela presença de algum personagem – que, na Jornada do Herói, é chamado de Guardião do Limiar, alguém que se empenha em impedir o avanço do protagonista por desejar seu fracasso ou apenas por temer pela sua segurança.
Poucos subgêneros ilustram tão bem o Cruzamento do Primeiro Limiar/1º Ponto de Virada quanto o slasher. Já se tornou uma convenção desse tipo de história a cena em que o grupo de jovens, a caminho do acampamento, da casa de campo ou coisa que o valha, para em um posto de gasolina a fim de abastecer e/ou pedir informações. É aí que surge um personagem com ares de profeta do Apocalipse e alerta-os dos perigos de seguir para aquele local, pois é assombrado ou foi palco de terríveis assassinatos, etc. É claro que os jovens não darão ouvidos a ele e irão adentrar esse Mundo Desconhecido para, ao longo do Segundo Ato, encontrarem um destino aterrador. Esse “pitstop” pode ser visto em O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974) – roteiro de Kim Henkel e Tobe Hooper, a partir de uma história de Henkel -, Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980) – apresentando o inesquecível Crazy Ralph vivido por Walt Gorney – e tantos outros. Quem brincou de maneira muito inteligente com essa convenção foi O Segredo da Cabana (The Cabin in the Woods, 2011) – roteiro de Joss Whedon e Drew Goddard. Vale muito a pena conferir.
Taborska também nos dá mais um bom exemplo de 1º Ponto de Virada: “Em Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, 1979) [– roteiro de Dan O’Bannon, a partir de uma história dele e de Ronald Shusett –], o facehugger se fixa em Kane [(John Hurt)], forçando a tripulação a agir. Eles agora estão lidando com uma ameaça alienígena. Esse evento encerra a missão de exploração e dá início à sua jornada de terror e sobrevivência, conduzindo diretamente ao começo do Segundo Ato, no qual a tripulação retorna à Nostromo com Kane e tenta ativamente compreender e combater a ameaça alienígena.”
No Segundo Ato, as apostas serão ainda mais altas. Muito será arriscado e cada passo é um ponto sem volta. Por isso, prepare-se: na próxima edição de Engrenagens do Terror, caminharemos lado a lado por esse terreno sombrio e arriscado que é o Segundo Ato nos filmes de terror.
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