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por Juarez Parolin

Nunca vou esquecer da primeira vez que eu assisti a Eraserhead, de David Lynch. Era uma madrugada. Estava sozinho em casa, na frente do computador. Headphone nos ouvidos, tapando qualquer ruído externo, casa escura apenas iluminada pela luz do monitor e aquele ruído branco permanente do filme entrando na minha cabeça e penetrando na minha alma. Aquele ambiente industrial e desolador me causando desconforto. Eu não piscava. Não me mexia. Posso dizer com propriedade que assistir a esse longa foi a experiência mais marcante da minha vida como amante de filmes de terror.

Eraserhead narra a “história” de um cara esquisitão de cabelo engraçado chamado Henry, que, após ir a um jantar extremamente desconfortável e estranho — e põe estranho e desconfortável nisso — com os pais de sua namorada, Mary X, descobre que ela teve um filho dele depois de apenas quatro semanas de gestação e que agora terão que se casar e cuidar da criança. O bebê torna a vida do casal difícil e, depois de chorar sem parar, faz com que Mary surte e vá embora, deixando Henry para criar a criança sozinho.

Ok, temos aí a base do filme. Agora junte essa história relativamente comum a um bebê monstruoso e assustador que não para de chorar, um cara deformado chamado Homem no Planeta, que fica sentado próximo a uma janela operando uma alavanca, uma mulher chamada Mulher no Radiador, que possui bochechas enormes e canta uma música suave, um mundo completamente opressor e imagens estranhas que vão desde um frango vivo servido como refeição no jantar até a cabeça do protagonista saindo do corpo e indo parar em uma fábrica de lápis para virar uma borracha. É com esse tipo de bizarrice que você vai se deparar quando for assistir a esse filme.

É um clichê dizer isso hoje, mas David Lynch se consagrou como um diretor surrealista, com obras confusas, estranhas e de difícil compreensão. Ele já havia dado o tom de sua obra com os inúmeros curtas que realizou antes de fazer Eraserhead e elevou seu gosto pelo surreal à máxima potência quando decidiu realizar seu primeiro longa-metragem. Para quem já está familiarizado com a filmografia do diretor, vai se deliciar com a estranheza apresentada aqui. Agora, quem ainda não faz ideia da proposta de seus filmes vai achar tudo isso apresentado na tela, no mínimo, indigesto demais.

A graça e a beleza do longa estão justamente na parte sensorial, e a indigestão faz parte da experiência. Quando coloquei a palavra “história” entre aspas, não foi de forma gratuita, apenas para fazer graça. É porque o longa literalmente não possui, de fato, uma história, um enredo propriamente dito, mas sim uma sequência de imagens perturbadoras que se assemelham a um sonho — ou melhor, a um pesadelo. E isso não é um demérito. Isso é a alma do filme e o que faz dele extremamente único.

Aqui temos uma obra que precisa ser sentida, experimentada. Não tente ficar buscando significados ocultos nela como se fosse um quebra-cabeça, porque isso vai tirar toda a graça do filme. Esqueça a razão e se deixe levar única e exclusivamente pela emoção para ter a experiência completa.

Quem é o Homem no Planeta? Quem é a Mulher no Radiador que canta In Heaven? Por que diabos o bebê é um monstro? Por que literalmente todo mundo nesse universo é estranho? Eu não faço ideia. E, para ser sincero, eu não quero saber. Não quero descobrir nada disso. A partir do momento em que você começa a tratar o filme como um mero mistério a ser desvendado, você acaba por completo com a proposta da obra.

Quando eu disse lá em cima que o filme tocou a minha alma, não foi exagero. Quando você fica completamente imerso na obra, ela te proporciona inúmeras sensações: estranheza, desconforto, aflição, irritação, desolação, medo. Nada é explicado. O filme tem pouquíssimos diálogos. A fotografia expressionista em preto e branco, combinada com o ruído branco que se estende do começo ao fim, te coloca em um mundo industrial, niilista e claustrofóbico para te fazer sofrer ao longo de 89 minutos. Um sofrimento sem fim, no melhor sentido da expressão.

Falamos aqui de um filme de terror completo, que mistura literalmente todos os sentimentos ruins relacionados ao gênero para criar um universo bizarro. Se você acha que o terror se resume a sustos típicos de filmecos de shopping, talvez esse filme não seja para você. Na verdade, ele definitivamente não é para você. Agora, se você gosta do gênero e procura um longa que vai colocar na tela aqueles sonhos esquisitos que você tem e não sabe explicar absolutamente nada, isso aqui é para você.

A maior frustração é não poder ter a memória apagada e sempre poder ver esse filme pela primeira vez. Claro que, a cada revisita, ele desperta uma sensação nova, mas a primeira vez é algo completamente diferente; uma experiência única. Existem filmes que a gente simplesmente assiste. Existem aqueles que a gente entende. E existem aqueles que nos atravessam. Eraserhead é um desses. E é isso que o torna tão especial.

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