![]() Temporada das Bruxas
Original:Hungry Wives / Season Of The Witch
Ano:1972•País:EUA Direção:George A. Romero Roteiro:George A. Romero Produção:Nancy Romero Elenco:Jan White, Raymond Laine, Virginia Geenwald, Joedda McClain, Bill Thunhurst, Esther Lapidus, Dan Mallinger, Daryl Montgomery, Ken Peters |
Revisitando o cinema desse grande mestre, George A. Romero, escolhi, ao acaso, um filme que foge do seu cenário apocalíptico mais conhecido. Posso dizer que foi uma experiência um pouco cansativa, principalmente pelo ritmo muitas vezes arrastado, porém o filme tem seus pontos fortes.
Logo no começo, assistimos à protagonista atravessar um bosque com o marido, em uma cena muito bem construída. Nela, vemos a representação do tédio em que ela vive e a falta de interesse e cuidado do companheiro. A música se encaixa perfeitamente em sua angústia, aumentando ou diminuindo a intensidade de acordo com seus devaneios. Essa primeira parte do filme nos apresenta, por meio dos pesadelos da personagem, e com um toque de exagero, as situações que ela vivencia. A cena em que ela, de coleira, é levada pelo marido a um “hotel para animais” e deixada lá durante o fim de semana, porque seu “dono” precisa viajar, é uma das mais surreais.
Romero não é para todos; sua construção cinematográfica é brutal e artística. Porém, quem aprecia o horror quase tem a obrigação de conhecer o seu trabalho, gostando dele ou não.
Dando prosseguimento ao pesadelo, encontramos a protagonista em uma sala, onde recebe informações sobre a casa. Um homem lhe apresenta todos os benefícios e comodidades disponíveis. Coisas do tipo: três televisões, materiais para costura e bordado na biblioteca e instruções que lhe darão “ideias“, caso já não as tenha. Como se, por ser mulher, só tivéssemos capacidade para passar o dia assistindo TV, bordando ou remendando cuecas e meias furadas de nossos maridos. Há ainda clichês como a ideia de que mulher só serve para gastar dinheiro ou fofocar com as amigas, coisas que me fazem revirar os olhos.
Na história, Joan Mitchell (Jan White, Touch Me Not, 1974) é uma dona de casa de classe média alta que vive em um subúrbio cinzento. Ignorada pelo marido, Jack Mitchell, um executivo agressivo e ausente (Raymond Laine, There’s Always Vanilla, 1971), Joan sofre de depressão, ansiedade e pesadelos recorrentes que refletem seu sentimento de aprisionamento doméstico. Sua rotina muda drasticamente após conhecer Marion (Virginia Greenwald, The Amusement Park, 1975), uma mulher misteriosa que se assume abertamente como bruxa e praticante do ocultismo. Fascinada pela promessa de independência e de controle sobre a própria vida, Joan começa a estudar feitiçaria em sua casa. O que se inicia como uma fuga psicológica rapidamente se transforma em uma jornada surreal que confunde os limites entre a emancipação e o colapso mental.
Essa obra, frequentemente subestimada, solidifica, a meu ver, o papel de Romero como cronista das crises sociais americanas. Longe do cenário apocalíptico dos mortos-vivos, ele utiliza o terror psicológico e a feitiçaria como metáforas para a opressão de gênero e a alienação suburbana.
Para os fãs, este filme prova que o olhar crítico do diretor não se limitava aos monstros clássicos. Ao contar a história de Joan, Romero antecipou debates cruciais da segunda onda do feminismo e do movimento de libertação das mulheres (Women’s Lib). Em Temporada das Bruxas, o verdadeiro horror não reside em rituais satânicos ou forças sobrenaturais, mas na violência doméstica cotidiana e no tédio sufocante que moldavam o ideal de vida da classe média da época, sobretudo para as mulheres.
A performance de Jan White humaniza a metáfora criada por Romero. Sem sua capacidade de tornar palpável o vazio existencial daquela mulher, o filme seria apenas um exercício estético. Em uma época em que o cinema de horror frequentemente recorria a reações exageradas e gritos estridentes, White entrega uma atuação contida e profundamente melancólica, capturando com precisão a essência da depressão e da dissociação feminina.
Outro ponto positivo do filme é a trilha sonora folclórica e psicodélica. O uso de melodias folk acústicas, tradicionalmente associadas à paz, à natureza e à inocência, cria um contraste desconfortável quando sobreposto às imagens dos pesadelos e dos rituais.
A inclusão da emblemática canção folk-rock “Season of the Witch”, de Donovan, sintetiza perfeitamente o espírito da época. Sua linha de baixo hipnótica e a letra repetitiva funcionam como um feitiço sonoro, antecipando a transição de Joan de dona de casa submissa para uma mulher emancipada.
Através da opressão psicológica retratada em Temporada das Bruxas, Romero nos mostra, mais uma vez, que os verdadeiros monstros não pertencem ao além, mas às estruturas da própria sociedade.
Para os fãs do gênero, assistir à obra de Romero é um exercício constante de autodescoberta e confronto. Sua genialidade residiu na capacidade de equilibrar orçamentos limitados, estética experimental — como o uso brilhante da música psicodélica e das montagens surreais — e críticas políticas profundas, sem perder a capacidade de chocar. Romero elevou o terror à categoria de arte sociológica, deixando um legado em que o sangue derramado nas telas serve, acima de tudo, para revelar os medos e as injustiças do mundo real.





