![]() Furnas Fundas
Original:Furnas Fundas
Ano:2026•País:Brasil Direção:Beto Marquez Roteiro:Reinaldo Moraes, Antonia Baudouin Produção:Marcus Spilimbergo Volpe, Angelo Gastal, Rubi Schumacher Elenco:Gabriela Dias, Natália Lage, Otávio Müller, Felipe Rocha, Johnnas Oliva, Eriberto Leão, Elisa Volpatto, Lourenço Mutarelli |
Numa pequena cidade do interior povoada por cachaceiros chamada Furnas Fundas, Rosália (Natália Lage), esposa traída do atual prefeito, Marcão (Otávio Müller), passa a disputar a prefeitura com o marido. Se isso já não bastasse para virar o lugar de ponta-cabeça, um grupo de vampiros ancestrais (encabeçado por Eriberto Leão e Elisa Volpatto) possui planos ainda piores para os habitantes, e apenas um pequeno bando de desajustados (Gabriela Dias, Johnnas Oliva e Felipe Rocha) tentará se opor aos sugadores de sangue.
Com vibe de telenovela boa dos anos 1980, como Roque Santeiro (1985-1986) e Tieta (1989-1990), com suas cidadezinhas perdidas no tempo e suas mitologias locais, feito lobisomens, “cadeirudos” e “mulheres de branco”, a comédia de terror Furnas Fundas (2026) é uma ótima surpresa no cinema nacional. O segundo longa-metragem dirigido por Beto Marquez chega como quem não quer nada e entrega muito mais do que algumas obras cheias do oba-oba gerado por um selo Globo Filmes, Netflix ou coisa que o valha. É vibrante, engraçado e extremamente competente. É atual (estreia bem às portas de uma eleição) e ao mesmo tempo atemporal, como as boas histórias de vampiro costumam ser.
Apesar de correr por fora no disputadíssimo circuito comercial dos cinemas brasileiros, Furnas Fundas conta com inúmeros rostos conhecidos de outros filmes e da tevê. Felipe Rocha como o caçador de vampiros Tinhorão Policarpo chega inusitado como uma espécie de Van Helsing meio hipster. Comicamente patético e lamentavelmente verídico, Otávio Müller está impecável como o prefeito em um caso de amor com duas mulheres e, acima de tudo, com o agronegócio. Até mesmo Eriberto Leão em uma chave canastrona convence como o vampiro Kesabel, cheio de pompa e maneirismos à la Expressionismo Alemão. Mas é Natália Lage como Rosália quem abocanha o filme e, ao longo da duração, devora-o sem pudor. Seu personagem cresce de maneira surpreendente e deliciosa à base de um bom texto e da entrega total da atriz.
Mas nem só de telenovela vive Furnas Fundas. Existe um exagero intencional ali que deve muito ao teatro, bem como à plasticidade cartunesca das histórias em quadrinhos. Quando o assunto é o próprio cinema, as referências são as chanchadas brasileiras e os clássicos de terror da Universal Pictures e do já mencionado Expressionismo Alemão. A trilha sonora de André Abujamra e a fotografia de Paulo Vainer trabalham nesse sentido, esta última, intercalando o preto e branco e as cores, às vezes dentro de uma mesma cena.
O que incomoda é uma predominância de planos abertos, que acabam mantendo o espectador um pouco distante do que está acontecendo e prejudicam a imersão. E talvez isso até mesmo contribua para a sensação de que o filme é um pouco mais longo do que deveria, ainda que recupere o ritmo em seu clímax.
É um alívio constatar que Furnas Fundas foge de uma tendência muito comum entre filmes brasileiros com elementos de gênero que é aquela postura “não conseguimos fazer como os gringos, então vamos só tirar um sarrinho“, o equivalente a entrar num jogo de futebol e dar um bicudo na bola pra fora do campo ao invés de ao menos tentar chutar pro gol. O filme de Marquez não apela para o trash pelo trash como manobra autoindulgente para tentar fazer graça. Os efeitos visuais são caprichados e a violência é violenta. O humor vem do roteiro, das atuações e do contexto muito contemporâneo, e não de precariedade ou inaptidão.
Com tudo isso, dá para se dizer que Furnas Fundas é possivelmente o filme brasileiro mais divertido do ano até agora.
Confira a nossa entrevista com alguns dos talentos de Furnas Fundas, clicando aqui.





