O que poderia tornar ainda mais caótica uma eleição para prefeito disputada por um casal em pé de guerra? Em Furnas Fundas, comédia com elementos de terror que estreia nos cinemas brasileiros em 17 de setembro, a resposta é: um grupo de vampiros ancestrais sedentos por sangue e, por que não, um pouco de sexo também.
A fim de inserir nossos infernautas no divertido universo de Furnas Fundas, o diretor do filme, Beto Marquez, o criador da história, Reinaldo Moraes, a roteirista Antonia Baudouin, o ator Lourenço Mutarelli e o compositor da trilha sonora, André Abujamra, falaram com exclusividade para o Boca do Inferno sobre os bastidores da produção.

Furnas Fundas é o segundo fruto da parceria entre Beto Marquez e o cultuado escritor underground Reinaldo Moraes. Porém, enquanto Maior que o Mundo (2022) transita pelo universo da Rua Augusta, em São Paulo, o novo filme volta sua mira para uma daquelas típicas cidadezinhas do interior do Brasil pelas quais todo mundo já passou ao menos uma vez na vida. Bom, talvez Furnas Fundas não seja tão típica quanto aparenta, e é por isso que ela se torna quase um personagem do filme.
Moraes conta que o título original da obra era Vampidemia, uma vez que a ideia toda surgiu durante a pandemia de Covid-19. Assim como no livro Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, em que um fenômeno sobrenatural muda a dinâmica de uma pequena cidade, a chegada dos vampiros chacoalha as estruturas político-sociais de Furnas Fundas. E, como as criaturas sugadoras de sangue já eram metáfora suficiente para a pandemia, o título foi então alterado e o nome da cidade em questão ganhou destaque. O quase subtítulo “Uma Fábula Gótica Brasileira” completa o tom.
“Todo mundo quer ser um vampiro, porque ele tá cagando e andando pras regras sociais”, comenta Moraes. “Ele tem um lado monstruoso, mas tem também um lado atraente que as pessoas gostariam de abrir a torneirinha e deixar jorrar. O vampiro é uma mente desreprimida, que, no limite, pode gerar monstruosidade”.
Mas, como Marquez comenta, “não é um filme de vampiro, é um filme com vampiro” – até porque os maiores vilões da trama não são eles, e sim os próprios seres humanos. Essa noção orientou até mesmo a trilha sonora, composta pelo veterano André Abujamra. Como ele explica, a ideia foi subverter: quando os vampiros estão em cena, a música é uma “bateria bêbada”, enquanto as trilhas de terror propriamente ditas entram nos momentos em que está presente o pessoal do agronegócio – esses, sim, os verdadeiros “sanguessugas” da história. Cada núcleo de personagens tem seu próprio tema, e esses temas todos vão se juntando ao longo do filme até explodirem em uma verdadeira cacofonia durante o clímax, com direito a experimentações como, por exemplo, um cântico árabe rodado ao contrário.

Abujamra ressalta a liberdade que Marquez lhe deu para a composição da trilha sonora. O mesmo aconteceu com Moraes, que, de tanta liberdade na escrita, acabou entregando um roteiro de 400 páginas! Como cada página de roteiro equivale a um minuto de filme, esse verdadeiro calhamaço foi então entregue à roteirista Antonia Baudouin, que precisou cortar sequências inteiras, eliminar alguns personagens e fundir outros, até deixar tudo com cerca de cem páginas. Na etapa seguinte, Baudouin, que também é atriz, acompanhou os ensaios do elenco, o que lhe possibilitou realizar algumas reescritas de diálogos.
Assim como Baudouin, outro membro da trupe também combina a escrita e a atuação em sua carreira. Lourenço Mutarelli, célebre quadrinista e autor de livros como O Cheiro do Ralo, interpreta em Furnas Fundas um personagem que não tem falas, exceto por dois textos que abrem e encerram o filme, escritos por ele próprio a pedido do diretor. Para isso, Mutarelli buscou uma linguagem mais arcaica, muito inspirada em Camões. O resultado convence como algo que poderia ter sido escrito há alguns séculos.
Uma das peculiaridades das filmagens nas locações foi a enorme quantidade de besouros que se aglomerava em volta dos equipamentos – e muitas vezes em cima do elenco – assim que a iluminação era ligada (uma cena pós-coito com os atores Otávio Müller e Letícia Lima nus foi particularmente tragicômica de se filmar). Ao invés de deixar-se intimidar, Mutarelli decidiu entrar em sinergia com a fauna local, e ficava perto dos refletores para familiarizar-se com os bichinhos. Para quem já havia contracenado com baratas em Natimorto (2009), os besouros até que foram ótimos parceiros de cena.

Falando em locações, a cidade que viria a se tornar Furnas Fundas foi encontrada graças a uma feliz coincidência. Depois de rodar por cerca de 30 cidades na fase de pré-produção, Marquez ainda não havia achado o local ideal. Foi então que um dos produtores do filme comentou essa dificuldade com seu pai. Nascido em Ribeiro dos Santos, distrito de Olímpia, cidade no norte paulista, o pai indicou a pequena localidade. Foi amor à primeira vista.
A opção pelo interior paulista também ajudou a viabilizar a produção no sentido do financiamento. Como explica Marquez, “há uma demanda onde menos se pensa”, ou seja, fora das capitais. Existem leis de incentivo para a realização de produções audiovisuais no interior do estado, e, particularmente em Olímpia, houve a possibilidade de patrocínio de empresas sediadas na região.
Quem também esteve presente nas filmagens foi parte da equipe de pós-produção. Fez-se necessária uma coordenação conjunta entre direção e equipe de efeitos visuais para encontrar os enquadramentos corretos a fim de que a magia digital pudesse ser realizada posteriormente, desde o efeito da morte dos vampiros – estilo “explosão de pólvora”, típico do Expressionismo Alemão – até um certo órgão genital masculino, que, para o bem da autoestima de todos nós, homens, é, sim, um efeito especial.
Marquez explica que a estética cartunesca do filme é bastante influenciada pelos quadrinhos, mas é inegável que boa parte do elenco é muito associada à televisão, com nomes como Natália Lage, Eriberto Leão e outros já mencionados.
“Gosto de fazer um filme-B com rostos conhecidos”, comenta o diretor. “Não custa convidar quem se admira. Não é porque a pessoa tá na tevê que ela não vai querer fazer um filme como esse. É preciso sonhar alto”.
E sonhar alto parece ser um pré-requisito para qualquer um que deseja fazer cinema fantástico no Brasil, especialmente quando se é colocada em dúvida a existência de um público consumidor local. “Eu pensava, ‘não é possível que só eu gosto disso!’”, conta Marquez. “O público pra um ‘Gótico Rural’ existe, e é muita gente!”. Prova disso é que Furnas Fundas conseguiu espaço em várias salas de cinema pelo país, além de figurar em festivais mundo afora.
Realmente, é preciso sonhar alto.

