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Cuidado com o que Deseja
Original:La Silla
Ano:2026•País:Espanha
Direção:Ángel de la Cruz
Roteiro:Ángel de la Cruz
Produção:Frank Ariza
Elenco:Jaime Lorente, Christina Ochoa, Iñaki Urriza, Daniel Urriza, Eva Rufo, Alba de la Fuente, Estíbaliz Veiga, Santiago Molero

Filme de confinamento é um subgênero que parece simples no papel e é muito difícil de fazer funcionar na tela, porque ele tira do cineasta quase tudo o que normalmente segura a atenção do público e deixa só o personagem, o lugar onde ele está preso e o tempo que passa. Quando dá certo, o resultado é algo como Enterrado Vivo (2010), de Rodrigo Cortés, que se sustenta por noventa minutos dentro de um caixão, ou Jogo Perigoso, o romance de Stephen King de 1992 adaptado por Mike Flanagan em 2017, em que uma mulher algemada a uma cama transforma a própria cabeça no verdadeiro cativeiro. Cuidado com o que Deseja (La Silla), filme de 2026 dirigido por Ángel de la Cruz e baseado no livro de David Jasso, entra nessa tradição com uma premissa que tem tudo para funcionar: Daniel Lonces (Jaime Lorente), um escritor de terror que vive o sucesso do seu último livro, “O Dedo que Acusa”, termina amarrado a uma cadeira dentro da própria casa depois de um acidente doméstico, sem conseguir pedir ajuda e sem ter como se soltar. O problema é que o filme inteiro se apoia em ideias que estão ali, visíveis, e quase nenhuma delas é realmente desenvolvida, o que faz de La Silla um filme mais interessante de descrever do que de assistir.

O traço mais curioso do filme é o seu lado metalinguístico, porque Daniel não é só um escritor de terror, é claramente um fã de Stephen King. E, no entanto, dá para perceber rápido que o fanatismo não é só do personagem, mas também de quem escreveu o filme, já que a estrutura de La Silla está cheia de ecos de King. Aqui cabe uma ressalva: eu não li o livro de David Jasso, e Ángel de la Cruz assina tanto a direção quanto o roteiro, então não dá para saber se os problemas que vou apontar nascem no romance ou na adaptação. Independentemente de onde eles venham, o resultado que chega à tela é um roteiro com dificuldade séria de transformar boas intenções em cinema.

E as intenções começam muito bem. A cena de abertura, que mostra as consequências sofridas por um adolescente depois de ler “O Dedo que Acusa”, é intensa e montada num plano longo coreografado com muito cuidado, e ela coloca logo de cara a pergunta que o filme deveria responder, que é qual a responsabilidade de um autor sobre aquilo que ele coloca no mundo. Não vou entrar em detalhes sobre essa cena, porque isso estragaria parte da experiência, mas é o momento mais forte do filme e também uma promessa que ele não cumpre. O primeiro ato e a virada para o segundo são a melhor parte de La Silla, porque o filme consegue fazer com que uma situação que, dita em voz alta, soa quase ridícula vire uma angústia real, e o espectador entende a geografia da casa, as limitações do personagem e começa a calcular junto com ele o que poderia ser feito.

Assim que o argumento principal está estabelecido, porém, o filme começa a perder força, e não estou falando só do terceiro ato, que costuma ser onde thrillers desse tipo, quando não bem feitos, desabam. Aqui a queda começa no segundo ato, que se arrasta de um jeito surpreendente para um filme de apenas 76 minutos, e vai até a conclusão num ritmo protocolar, de quem está cumprindo etapas. Não acredito que a montagem resolveria isso, porque o que trava o filme são decisões de roteiro que não teriam como ser refeitas na edição. O roteiro se debruça demais sobre a sequência de ações do personagem, uma tentativa depois da outra, e muito pouco sobre o que acontece dentro dele, e é aí que a comparação com Jogo Perigoso pesa contra o filme. O livro de King entende que o confinamento físico só funciona como drama se ele abrir caminho para um confinamento psicológico, com a protagonista obrigada a encarar memórias e culpas que vinha evitando há anos. La Silla claramente bebe dessa fonte, principalmente nas visões que Daniel começa a ter, mas não sabe replicar o conceito, e essas visões aparecem como enfeite, sem construir paranoia e sem dizer nada sobre o estado de alguém que está preso, sem comer, sem beber e sem dormir. Faltou um compromisso mais realista com o que a psicologia e a psiquiatria dizem sobre como a mente e o corpo reagem a uma pressão extrema como essa. O mesmo vale para o corpo do protagonista, porque a gente vê os braços e as pernas dele cada vez mais marcados pelo que o prende à cadeira, ouve o próprio personagem falar em gangrena mais para o final, mas em nenhum momento sente que está diante de alguém perdendo a sanidade e a integridade física numa velocidade assustadora. A ferida está na maquiagem, mas não está na experiência do personagem.

O que mais me incomodou, no entanto, foi a falta de verossimilhança, que num filme desse tipo não é detalhe, é o elemento principal para que a gente acredite no que está vendo. Há decisões que seriam as mais lógicas de serem tomadas logo no começo e que o personagem não toma, ou toma apenas como tentativa e abandona rápido, mesmo sendo exatamente as que mais funcionariam, e o pior é que elas voltam a aparecer no final, confirmando que não havia motivo nenhum para abandoná-las tão cedo. Somado a isso, o filme abusa das coincidências, como as baterias do celular e do notebook acabando exatamente no momento em que o personagem vai usá-las, numa espécie de deus ex machina reverso, em que o acaso não aparece para salvar, mas para atrapalhar na hora mais conveniente para o roteiro. Essas baterias poderiam ter acabado em qualquer outro momento, e o impacto, por ser menos fabricado, provavelmente seria muito mais pesado e mais crível. Quando o espectador percebe que o roteiro está empurrando a situação em vez de deixá-la evoluir, a tensão deixa de vir do personagem e passa a vir da mão de quem escreveu.

O roteiro também é sobrecarregado, com uma série de visitas e acontecimentos que entram e saem da casa sem acrescentar nada, como se o filme tivesse medo de deixar o protagonista sozinho com ele mesmo, e reviravoltas que deveriam surpreender acabam se tornando previsíveis. Duas ideias clássicas sobre suspense ajudam a entender o que falta aqui. A primeira é a de Hitchcock, que explica que uma bomba que explode sem aviso rende um susto de segundos, mas uma bomba que o público sabe que está debaixo da mesa transforma cada minuto de conversa banal em tensão. A segunda é a chamada arma do dramaturgo Tchekhov, que escreveu em suas cartas que não se deve colocar um rifle carregado em cena se ninguém pretende dispará-lo. La Silla falha nas duas frentes, porque insere diversos elementos que não são retomados, ou que só ganham explicação no final, provocando apenas um “ah, tá, era isso”, sem peso suficiente para que a gente tivesse ligado os pontos por conta própria. O filme até parece querer seguir a lógica de uma história que vai se desdobrando, como faz Missing (2023), um screenlife muito bem escrito em que o público investiga junto com a protagonista, mas aqui nem o personagem está investigando nada, nem o filme nos dá material para investigar no lugar dele.

Pior ainda, o filme tira o peso da própria tensão que constrói. O caso extraconjugal de Daniel, revelado ao longo da história, em vez de acrescentar peso dramático, provoca uma espécie de alívio, como se finalmente tivéssemos uma razão para não sentir tanta pena dele, mas esse alívio passa e o triângulo amoroso não acrescenta nada, a não ser mostrar que o autor de “O Dedo que Acusa” tem uma personalidade dúbia e também deveria ser acusado, assim como ele provavelmente acusa pessoas e comportamentos no próprio livro. É uma ironia boa, talvez o subtexto mais promissor do filme, mas que fica na sugestão, como acontece com o ocorrido com o  adolescente, as redes sociais, a fama e o desapego do escritor diante das consequências do que escreve. São temas citados e nunca tratados, e por isso a culpa nunca chega a ser forte o bastante para que o filme se ancore nela como consequência de tudo o que acontece com Daniel. A ideia de um thriller sobre o peso moral das decisões de um homem funciona melhor como ideia do que como thriller.

Isso deixa ainda mais frustrante o fato de que a direção de Ángel de la Cruz tem méritos reais. O diretor sabe trabalhar o espaço limitado da casa, e o que mais me chamou atenção foi a escolha por planos mais abertos, que mostram o personagem dentro do ambiente e deixam claro o quanto tudo está perto e fora do alcance ao mesmo tempo, contrapostos a planos mais fechados que nunca chegam a uma claustrofobia de câmera. Os enquadramentos são bem pensados, o blocking é muito bem resolvido e os planos mais longos ajudam a construir o desconforto, principalmente nos momentos de silêncio, em que fotografia e som trabalham juntos. No entanto, nem tudo são flores, já que a fotografia exagera no granulado, que em vários momentos parece mais um filtro do que uma escolha, e não trabalha os ambientes escuros e as cenas noturnas com o mesmo cuidado das diurnas, perdendo definição justamente quando o filme mais precisaria dela. A trilha sonora é competente, mas não se destaca.

Nas atuações, Jaime Lorente tem uma interpretação engessada e um pouco artificial no primeiro ato, e ela só começa a funcionar quando o protagonista está preso e o ator precisa entregar tudo com mais visceralidade, nos gritos e no olhar, com uma entrega física que sem dúvida existe, mas que não chega a dar a sensação de alguém se desfazendo diante da câmera. Quem me convenceu mais, apesar da participação curta, foi Christina Ochoa como Irene, a esposa, que constrói muito bem uma mulher desconfiada do marido, com gestos e silêncios que dizem mais sobre aquele casamento do que muitos diálogos do roteiro.

O final segue a mesma lógica do resto, acelerado demais, sem peso e extremamente previsível, já que a própria estrutura telegrafa que o autor terminaria em situação semelhante à que que estava no início, uma simetria que faz sentido no papel mas chega sem que o filme tenha construído o suficiente para que ela signifique alguma coisa. La Silla tem uma premissa forte, uma abertura muito boa e um diretor que sabe posicionar a câmera, mas se apoia em ideias que são executadas de forma rápida, rasa e, em alguns momentos, soando inexperiente. Para quem gosta de filmes de confinamento, o primeiro ato vale a experiência, e os fãs de Stephen King vão se divertir caçando as referências espalhadas pela casa de Daniel. Quem chegar esperando a força psicológica de Jogo Perigoso ou a tensão sustentada de Enterrado Vivo, porém, vai encontrar um filme que conhece muito bem as suas referências e não sabe o que fazer com elas.

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