
![]() Enterrado Vivo
Original:Buried
Ano:2010•País:EUA, Espanha, França Direção:Rodrigo Cortés Roteiro:Chris Sparling Produção:Adrián Guerra, Peter Safran Elenco:Ryan Reynolds, José Luis García Pérez, Robert Paterson, Stephen Tobolowsky, Samantha Mathis, Ivana Miño, Warner Loughlin, Erik Palladino, Kali Rocha, Chris William Martin, Mary Birdsong |
Uma das cenas mais assustadoras do excelente A Maldição dos Mortos-Vivos (1988), de Wes Craven, é aquela em que Dennis Alan (Bill Pullman) é contaminado por uma droga que paralisa as pessoas, deixando-as como mortas, mas conscientes, e corre pelas ruas do Haiti gritando “Não deixem que eles me enterrem. Eu não estou morto.“ O espectador acompanha lentamente o processo de seu enterro pela visão do rapaz até que seus músculos voltam a funcionar já no interior do caixão. Uma Thurman também comeu o pão que o diabo enterrou quando interpretou a Noiva, em Kill Bill (2003/2004), de Quentin Tarantino, tendo que usar as lições do mestre Pai Mei (Gordon Liu) para se livrar de sua sepultura. O diretor depois repetiria a dose em Grave Danger, episódio do CSI, quando Nick Stokes (George Eads) é enterrado vivo por um homem que queria vingar a filha. Muitos irão se lembrar do clássico Supercine, Sepultado Vivo (1990), de Frank Darabont (The Walking Dead), em que Clint Goodman (Tim Matheson) acorda há sete palmos sob a terra, graças ao ato cruel de sua esposa Joanna (Jennifer Jason Leigh) e de seu amante. A experiência foi tão ruim para Matheson que ele próprio resolveu dirigir uma continuação/remake em 1997 intitulada Enterrada Viva, colocando sob a terra Ally Sheedy – que interpreta Laura Riskin.
Há muitas outras produções que apresentam a tapocrifação como mote com consequências diversas, mas a mais marcante é, sem dúvida alguma, Pavor na Cidade dos Zumbis, filme dirigido por Lucio Fulci em 1980. Depois que Mary (Katherine MacColl) começa a se debater durante uma sessão espírita, ela perde os sentidos e é considerada morta, sem passar por exames médicos ou autópsias. O seu desespero ao acordar em seu leito final é extremamente convincente, pois ela arranha o teto do caixão, arrancando as unhas e esfolando os dedos contra a madeira, num belíssimo trabalho de sonoplastia.
Dizem às más línguas que a tafofobia ou o medo de ser enterrado vivo está associado ao mito do uso das estacas nos vampiros. Como não tinham como confirmar a morte de um indíviduo – e marcas em caixões indicavam que muitos haviam sido enterrados vivos -, um ato comum na Antiguidade era utilizar estacas de madeira na tampa do caixão. Elas serviriam para fincar o corpo na terra e ao mesmo tempo evitar que a pessoa retornasse dos mortos. Esse medo também faz com que muitas pessoas hoje em dia queiram levar aparelhos de comunicação como celulares e até uma corda com um sino para sua cova. Exagero? Coloque-se no lugar da vítima, acordando num ambiente fechado, abafado, com pouca movimentação, sem luz, alimentos…ou melhor, coloque-se no lugar de Paul Conroy.
Escuridão total. Amarrado e amordaçado. Pouco espaço para se movimentar. O motorista de caminhão Paul Conroy (Ryan Reynolds de Horror em Amityville) não está morto. Ele acorda dentro de uma caixa de madeira sem entender como chegou ali. Com muita dificuldade, ele livra seus braços e sua boca e começa a gritar pedindo ajuda. Não está sozinho. Há um canivete, um isqueiro, uma lanterna problemática e um celular com bateria gasta lhe fazendo companhia. Ele tem apenas 90 minutos – o tempo de duração do filme – para encontrar um meio de sair dali antes que o local se torne sua última morada.
Enterrado Vivo é definitivamente o melhor filme de 2010! Não é à toa que o longa tenha vencido o prêmio NBR, de Melhor Roteiro Original, e que tenha sido ovacionado pela plateia do Festival de Sundance, sendo disputado por diversas distribuidoras até a LionsGate adquirir os direitos. Tenso, claustrofóbico, inovador…o filme de Rodrigo Cortés (Dirt Devil) é uma experiência de luta pela sobrevivência que faria JigSaw revirar em seu túmulo.
A partir de um roteiro de Chris Sparling (An Uzi at the Alamo), o filme tem a ousadia de conduzir todos os seus 90 minutos SEM SAIR DO CAIXÃO e ainda assim proporcionar cenas de suspense e momentos de tirar o fôlego. Se você achou que Joel Schumacher havia feito um bom trabalho em Por um Fio ou se Chris Kentis fez você beijar o chão ao sair do cinema em Mar Aberto, o que pode ser dito do trabalho de Cortés? O diretor dá uma aula de dinamismo em seu filme independente, e pode ser que você se veja dando uma inspirada profunda ainda na sala de cinema quando os créditos surgirem na tela.
A grande inspiração do diretor é assumidamente Hitchcock. Ele foi o cineasta que deu o pontapé inicial em produções com um único ambiente (Um Barco e Nove Destinos) e realizadas em plano único em tempo real (Festim Diabólico). Cortés comenta o desafio assumido: “Uma vez que as engrenagens da máquina dramática estão no lugar, o próximo passo é conceber o filme visualmente em sua cabeça, fazer uma lista de planos que juntos possam cativar o espectador, segurar a atenção sem deixar brecha para a distração; e a narrativa deve variar com o avanço da história, por meio de ritmos diferentes e um leque variado de opções expressivas usado para manter a história original e os olhos do espectador grudados na tela.
Se existia uma regra na concepção de Enterrado Vivo, esta era: Nunca sair para a superfície. Mostrar flashbacks ou sonhos do protagonista seria uma forma do próprio diretor fugir de seu desafio, como se o próprio não conseguisse suportar a pressão vivida pelo personagem. Assim, Cortés conduz seu filme dando pequenas pistas para que o espectador fique com a missão de juntar as peças e entender o que está acontecendo. O dinamismo ocorre através dos telefonemas de Paul para familiares, amigos, agentes do governo americano e até mesmo com o responsável por sua estada ali.
Talvez o único defeito da produção esteja no próprio celular. Se você já está acostumado a ver filmes onde o celular nunca funciona, perde o sinal ou está sem bateria, felizmente em Enterrado Vivo isso dificilmente acontece. Não chega a ser tão absurdo quanto aquele Celular – Um Grito de Socorro, mas ainda assim é estranho imaginar o personagem telefonando do Iraque para os EUA, de dentro de um caixão, e ainda assim conseguir uma boa comunicação em diversas situações.
Se já não bastasse todo o ambiente sufocante, a narrativa ainda consegue proporcionar momentos agudos de tensão como aquele envolvendo uma cobra e fogo ou a explosão de bombas nas proximidades – é o popular ditado: Não há nada tão ruim que não possa ficar pior. Além disso, o filme traz críticas sociais como a dificuldade em conseguir informações rápidas pelo telefone – sabe aquela musiquinha de espera? Você nunca imaginou o quanto isso pudesse ser uma tortura… -, o preconceito (se ele tivesse dinheiro ou fosse alguém importante, o tratamento poderia ser diferente) e ainda apresenta uma imagem satírica da relação EUA e Iraque, remetendo sem modéstia à crise pós-11 de setembro.
Ryan Reynolds está bem no papel do desesperado Paul. É provável que a carga dramática exigida tenha sido além das capacidades do ator, se você comparar a atuação dele com a de Katherine MacColl ou Tim Matheson, porém ainda assim ele soube trabalhar bem seus quase monólogos e transmitir com eficiência a dor do personagem no seu auto-flagelo no ato final. Embora o ator ainda consiga manter sua veia cômica da época em que fazia Two Guys, a Girl and a Pizza Place proporcionando algumas risadas involuntárias em seus diálogos absurdos.
Aqueles que curtem filmes no estilo MTV, com muita ação e cortes de cena a cada segundo, ou completamente convencionais (produções que não evitam os lugares-comuns e clichês do gênero), podem ficar um pouco decepcionados com Enterrado Vivo . É importante entender a proposta antes de ousar assisti-lo, lendo críticas e informações sobre a produção. Trata-se de um filme diferente, extremamente criativo e excepcional, daqueles que você costuma guardar para sempre, sem a necessidade de cavar muito para trazê-los para a superfície da memória.






Como faz pra baixar?
Como já dito, o filme é tenso, claustrofóbico, sufocante!
Consegue fazer o que parece impossível, passar o tempo todo dentro do caixão e ainda ser uma ótima trama.
Excelente.
Excelente filme!
é engraçado que alguém considere a atuação do Ryan boa ele que é sempre visto com um ator canastrão!o filme deve ser bom mesmo!