Editorial #5 2019: Terror no Divã – Os 18 anos do Boca do Inferno

O sonho de todo adolescente é fazer 18 anos. Imagina-se que a idade permita seguir caminhos mais distantes, com mais possibilidades – direitos outrora negados, liberdade para fazer o que quiser – e menos questionamentos. Vistos de maneira diferente, ainda que o visual que os associa a alguma tribo permaneça o mesmo, eles descobrem com o tempo que, com todos os alcances, também existem responsabilidades maiores. Com o Boca do Inferno, acontece quase a mesma coisa. Fazer 18 anos, resistindo a todas as mudanças e evoluções da internet, exige um cuidado maior no trato do material que será publicado, ao passo que se permite a ir a lugares ainda mais profundos no submundo do gênero. Criou-se uma marca, ela se estabeleceu com o público (ser fã de horror e nunca ter ouvido falar no site torna-se cada vez mais raro) e foi se expandindo cada vez mais na aparência, organização e textos publicados, sem perder sua ideologia original, que é tratar o horror da forma como ele merece ser tratado, com a sinceridade que apelidou Gregório de Matos.

Durante todo esse percurso, houve altos e baixos, dificuldades e conquistas. Lançamos uma HQ e posteriormente um livro, divulgamos o terror na TV, nas rádios, jornais e revistas; encontramos alguns problemas com o provedor de hospedagem – o que foi preciso pedir o apoio do Infernauta através do padrim -; ganhamos e perdemos membros da equipe; moldamos nosso canal no youtube; filmamos um curta-metragem; e fizemos nosso festival de cinema! É uma história rica em mudanças, descobertas e alcances, mas sempre mantendo o respeito pelo nosso público, ajudando na divulgação de eventos, livros e filmes, mesmo tendo consciência que o retorno nunca é como se espera.

Falar somente das conquistas do site, das visitas diárias e dos eventos desenvolvidos é sempre muito bom e divertido – embora seja um disco riscado. Por isso, peço licença para um desabafo como sinal da maturidade do Boca do Inferno, alcançada com os seus 18 anos. A impressão que muitas vezes temos é que a cada ano o Infernauta menos se importa. Sabe aquele parente que está ali todos os dias, com sua rotina de dedicação nas tarefas domésticas, mas às vezes se sente invisível, um morto-vivo que caminha lentamente em direção ao seu túmulo. Quando ele se vai, a falta é sentida e todos aqueles que o ignoravam passam a perceber o quanto ele era importante. Já viram esse filme várias vezes…

Com o Boca do Inferno acontece assim: temos um excelente número de visitantes, uma quantia boa de seguidores na nossa página no Facebook e no instagram, o que mostra o quanto o público tem um carinho especial pela página. Mas, esse mesmo infernauta que prestigia a página diariamente e nos segue nas redes sociais não tem o nosso livro, nunca foi a nenhum dos festivais, não nos ajuda no padrim, às vezes nem comenta as postagens! Vamos por parte:

Medo de Palhaço: lançamos esse livro em 2017, mesmo ano do filme It – A Coisa. Todas as pessoas que o adquiriram disseram que se trata de um trabalho completo sobre a coulrofobia, muito bem feito (seja no trato gráfico, seja nos artigos, nas pesquisas, resenhas…) e interessante. Divulgamos nas redes sociais, fizemos parcerias com youtubers, levamos à feira de livros e fizemos 6 lançamentos no Brasil, sendo quatro em São Paulo. Porém, ele ainda está disponível para venda em estoque. Mesmo com promoções que o deixou com preços irrisórios (o Mercado Livre chegou a vendê-lo por menos que 20 reais), muita gente não o comprou. Por isso, até o momento não conseguimos lançar o segundo livro, sobre uma outra fobia. Ele está pronto desde o final de 2017, mas sem o alcance necessários nas vendas a editora não pensa em lançar uma nova obra do Boca do Inferno!

Festival Boca do Inferno (FBI): este ano estamos indo para a sexta edição, também apelidada de 666. Estamos prestes a iniciar as inscrições de um evento que é feito sem a ajuda do governo (não conseguimos o edital), sem verba alguma. Para ele existir, contamos com a colaboração voluntária dos envolvidos: a gentileza da SpCine em fornecer o espaço (e aceitar que ele será gratuito), a ajuda de pessoas como os membros da equipe e Chris Costa, que fez os catálogos e toda a arte do evento gratuitamente, e o apoio de alguns sites na divulgação. Os mesmos que pedem a ajuda do Boca do Inferno para divulgar seus eventos não o faz com o FBI; somos ignorados por alguns portais (como o Catraca Livre e sites grandes de cinema) por simplesmente não contratarmos (cadê a verba?) uma assessoria de imprensa. E o infernauta? Com exceção dos que moram longe e não conseguem se deslocar até o evento, cadê o público de São Paulo para lotar as sessões e ajudar o evento a se tornar cada vez maior? Tivemos sessões ano passado com 15 pessoas presentes – e eram curtas maravilhosos, com legendas que demoraram dias para serem feitas e foram bem caprichadas. Você talvez diga que a razão seja a falta de movimentação do infernauta paulista…..mas, muitos destes são os primeiros a pedir ingresso quando fazemos pré-estreias em parcerias com distribuidoras aqui mesmo em São Paulo!

Padrim: pedimos esse apoio do infernauta não para ter lucro e viajar com a família. Simplesmente porque não temos condição de fazer o que antes era comum: uma vaquinha entre os colaboradores para pagar as mensalidades. Com sua estrutura grandiosa, foi sorte termos conseguido um provedor de hospedagem que cobrasse apenas 140 reais mensais. Só isso? Multiplique por 12 para saber o quanto ficaria por ano; depois some ao custo do preço do domínio internacional. Ainda que você possa considerar pouco, lembre-se: não vivemos do Boca do Inferno. Cada membro do site tem seus empregos, sua vida particular. E se ainda conseguíssemos o apoio necessário (atualmente o valor conquistado é de 131 reais, o que não paga a hospedagem), a ideia era crescer ainda mais: trazer personalidades do gênero todo ano, lançar livros a cada seis meses, promoções semanais, comprar um equipamento para gravar as Horreviews e outros programas em vídeo etc. E pensar que o Infernauta pode ajudar o site doando apenas 1 real por mês…

Comentários nas postagens: há um esforço grande da equipe para que, mesmo com suas rotinas profissionais diárias, o site tenha textos novos a cada dia. Há sempre resenhas novas, artigos e notícias. Além de visitar a página e clicar na notícia (estamos conscientes que hoje em dia as pessoas estão cada vez lendo menos, optando por vídeo em vez de textos), seria muito bom que eles viessem com comentários, uma maneira de mostrar para o site que aquilo lhe serviu de alguma forma. São poucas pessoas que comentam as postagens comuns, embora as promoções tenham muitas manifestações. Muitos desses infernautas são aqueles que querem fazer parte da equipe de críticos, mas como aceitá-los se eles nem sequer deixam a opinião sobre o que andam vendo?

Assim, chegar aos 18 anos é motivo de comemoração, sim. Mas, também de reflexão. As responsabilidades que chegam com a idade nos levam a olhar tudo o que foi feito até agora com orgulho, afinal é o enredo de um bom filme de terror, e pensar sobre o futuro. Será que vale a pena continuar na tarefa de trazer o melhor do gênero, mesmo com tantos percalços e a constante sensação de que o Infernauta está cada vez se importando menos?

Ajude-nos a refletir a respeito do papel do terror hoje em dia e, principalmente, o do Boca do Inferno para o gênero, enquanto apaga as velhinhas malditas sobre o bolo de carne humana!

 

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

11 comentários em “Editorial #5 2019: Terror no Divã – Os 18 anos do Boca do Inferno

  • 05/06/2019 em 22:13
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    eu ate intendo que hoje talvez nao seja possivel fazer aquelas criticas e resenhas enormes de paginas e paginas ,ate porque o modo de se escrever principalmente na internet muda muito rapido.Mas como fonte de pesquisa seria maravilhoso.

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  • 05/06/2019 em 22:05
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    Eu acompanho o site a muitos anos…e admiro muito o trabalho de vcs,mas como sempre estou dizendo e sempre volto nessa tecla sinto muita falta do material antigo do site que se perdeu,fato que ate hoje nao ficou muito claro do porque aconteceu e nem porque nunca foi recuperado como chegaram a dizer que aconteceria.

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    • Marcelo Milici
      05/06/2019 em 22:28
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      Oi, Roland! Tudo bem?

      O material do site, nesses 18 anos, está sendo, sim, reposto. Aliás, sempre esteve. Porém, alguns dos autores não fazem mais parte do Boca do Inferno. Eles não nos proibiram de republicar o material deles, mas temos que priorizar quem está na casa, vendo filmes e escrevendo. Caso sinta falta de algum texto específico, é só pedir que podemos acelerar o seu retorno ao Boca do Inferno!

      Abraços

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      • 06/06/2019 em 12:43
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        Intendi …e obrigada pela atenção.E agora me lembro do que vc disse que alguns altores saíram do site. Nao sabia que o material antigo estava sendo reposto porque nunca mais vi um artigo ou crítica de várias páginas como antigamente.por isso achei que nao estava sendo reposto.

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  • 12/05/2019 em 16:44
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    O que dinamiza a caixa de comentários de qualquer blog é a interação dos autores. Se os próprios autores não respondem, desestimula. Conheço sites e blogs com um fluxo grande de comentários e já percebi que via de regra é a atenção dos autores do site/matéria/post que incentiva a participação.

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    • Marcelo Milici
      12/05/2019 em 20:15
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      Sempre quando há alguma dúvida passível de ser respondida, há a interação dos autores. Pode buscar nas postagens que os autores sempre estão comentando ou respondendo o que foi questionado. Se não há resposta, pode ser que os próprios não saibam respondê-las.

      Abs

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      • 15/05/2019 em 23:25
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        Compreendo, apesar de considerar que a interação podia ser maior. Obrigado pela resposta.

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  • 11/05/2019 em 01:15
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    Realmente há de se concordar com o que foi abordado por você Marcelo, eu mesmo sou um infernauta que acompanha o site há alguns anos e já fui mais ativo em relação a colaboração com o site, cheguei inclusive a adquirir a HQ e a Camiseta do boca na época do lançamento. Ótima reflexão para que nos tornemos mais ativos no intuito de fomentar as atividades do site e do gênero do Horror e Fantasia. Parabéns ao Boca do Inferno!!!!

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  • 10/05/2019 em 18:40
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    Desde meus primeiros acessos à internet, o Boca estava entre eles. Quando pesquisava por algum filme, era sempre direcionado ao site. Vocês foram responsáveis por aumentar meu repertório de filmes, me apresentando raridades, novidades, e deixando por dentro de toda filmografia de horror. Parabéns gurizada medonha, e vida longa ao site! Vocês são demais!!

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  • 10/05/2019 em 11:58
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    Caro Marcelo, apenas no ano passado fiquei sabendo da existência do excelente Boca do Inferno.
    Li seu editorial e imediatamente encomendei o meu exemplar do Medo de Palhaço.
    Parabéns a toda a equipe.
    Abraço!

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  • 10/05/2019 em 10:24
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    Vida longa ao Boca! Maior e melhor site de horror do Brasil!

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