Filme cult de Felipe M.Guerra, Entrei em Pânico… ganha versão redux no XVII Fantaspoa

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Estamos em 2001.

Ainda não existe YouTube, nem redes sociais. Jovens usam o Internet Explorer em seu Windows 95 para “conversar” em sites de chat, ou aplicativos de troca de mensagens como o ICQ. Eles não podem “ver” nada do interlocutor além do seu nome, a não ser que este mande uma foto (algo muito difícil de acontecer, pois não há câmeras digitais e é preciso colocar uma foto revelada, em papel, num scannner para digitalizá-la; só que scanners são caros e o arquivo digitalizado é muito grande para enviar pela lentíssima internet discada).

Telefones celulares não são tão comuns, portanto para conversar com um amigo você precisa ligar para o telefone fixo da casa dele – e torcer para ele estar em casa. Também não há arquivos digitais de filmes e músicas simplesmente porque a internet discada (de novo ela!) não comporta downloads desta natureza. Logo, as pessoas ainda escutam CDs e assistem filmes em enormes fitas VHS.

É neste universo curioso, que soa como a pré-história mas aconteceu há apenas 20 anos, que vivem os personagens de ENTREI EM PÂNICO AO SABER O QUE VOCÊS FIZERAM NA SEXTA-FEIRA 13 DO VERÃO PASSADO.

São jovens que moram em uma pequena cidade do interior gaúcho, acabaram de sobreviver ao catastrófico Bug do Milênio, testemunharam o alvorecer de uma nova era com o fatídico 11 de setembro, mas têm outras prioridades: comemorar sua formatura no Ensino Médio numa noite de sexta-feira 13 e talvez conquistar aquela menina com quem “conversam há tempos” pela internet.

Isso, claro, se sobreviverem aos violentos ataques de um psicopata mascarado, vestido com o traje do assassino da série Pânico, de Wes Craven, que era muito popular na época (e ganhou uma sobrevida recentemente).

Filmado com a ajuda de amigos e familiares e um orçamento total de R$ 250,00 (lembremos que o salário mínimo em 2001 era de R$ 180,00!), ENTREI EM PÂNICO… logo se transformou em uma das produções mais famosas e conhecidas do cinema independente brasileiro. A curiosidade pelo filme de horror de baixo orçamento gravado na Serra Gaúcha levou seus realizadores à grande mídia, com reportagens em jornais como Zero Hora e Folha de São Paulo, revistas de cinema como a saudosa SET, e até ao horário nobre da Rede Globo, onde ganhou longas matérias no programa dominical Fantástico e no Caldeirão do Huck. Nenhuma produção independente brasileira realizada nestes mesmos moldes teve tamanha repercussão desde então.

Agora, 20 anos depois e em tempos de “Snyder Cut” e remontagem de O Poderoso Chefão III, o diretor resolveu retomar sua produção de maior sucesso para dar-lhe um formato menos tosco e improvisado. Os 120 minutos da versão original, editada usando aparelhos de videocassete e muita paciência, foram jogados no lixo: Felipe voltou às fitas originais com o material bruto do longa, digitalizou tudo, e remontou o filme do zero. Cortou cenas, alterou a ordem de outras, mudou toda a trilha sonora, inseriu um novo design de som que o videocassete não permitia, e até mesmo uma meia dúzia de efeitos digitais para tornar algumas cenas originalmente chatas mais dinâmicas e divertidas.

O resultado, que pode ser visto no Fantaspoa 2021 a partir de 9 de abril, é um experimento bizarro e uma ode apaixonada ao cinema de guerrilha – aquele realizado com muita paixão e poucos recursos. Um filme que soará particularmente nostálgico para quem viveu a época, ao mesmo tempo em que deverá incentivar as novas gerações, rodeadas de recursos tecnológicos à disposição, a tentar fazer seus próprios filmes.

Em tempos movidos a nostalgia graças a seriados como Stranger Things e filmes como Capitã Marvel (que se passam nas décadas de 1980 e 1990 respectivamente), ENTREI EM PÂNICO… é a coisa verdadeira: foi filmado pouco depois da virada do milênio e acabou imbuído daquele clima de fins de 1990s, início de 2000s.

É uma produção independente travestida de sátira aos filmes de horror, mas na essência funciona muito melhor como um documento sentimental e sem retoques da juventude daquele período, que tinha como grandes desafios sobreviver à tirania do irmão mais velho e suportar a ansiedade do intervalo de quatro minutos entre conectar a internet discada e finalmente conseguir acesso ao ICQ para checar as mensagens dos amigos/pretendentes (uma nova cena inteira mostra o longo processo para conectar-se à internet).

Entrei em Pânico (2001)

Com seu título quilométrico que presta homenagem a vários filmes de horror, ENTREI EM PÂNICO… é o segundo longa-metragem do cineasta independente gaúcho Felipe M. Guerra, então com 21 anos. No período ainda não existiam câmeras digitais e cinema era algo caríssimo filmado em película, mas alguns apaixonados idealistas resolveram fazer seus filmes com câmeras VHS – o formato mais popular, e consequentemente com pior qualidade de áudio e vídeo, então disponível no mercado.

Antes demonizado, o VHS agora é “vintage”: os populares filmes de horror no estilo found footage levaram a câmera tremida e as imagens fora de foco para os grandes estúdios de Hollywood, e mesmo produções feitas como dinheiro, como o recente filme nacional Os Jovens Baumann, tentam emular/imitar a “estética” do vídeo.

Novamente, ENTREI EM PÂNICO… é a coisa real, já parecia e soava como VHS ruim antes de isso virar modinha. Vinte anos depois, talvez ele esteja pronto para ganhar uma nova geração de fãs e retomar seu status de “produção cult”.

Serviço:
Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado – (2001). 14 anos
Onde: Wurlak/Darkflix
Quando: 09 à 18 de abril de 2021
Preço: Exibições gratuitas

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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