Engrenagens do Terror #4: O Terror em poucas linhas – uma logline matadora

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O premiado roteirista e dramaturgo norte-americano David Mamet – que, ao lado de Steven Zaillian, corroteirizou Hannibal (2001), adaptando o livro de Thomas Harris – define drama (referindo-se a dramaturgia) como “a missão do herói para ultrapassar aquilo que o impede de alcançar um objetivo específico e urgente”. Sendo assim, é possível dizer que existem três elementos essenciais na narrativa clássica, ou seja, no tipo de narrativa mais tradicional e utilizada na ficção. São eles: o herói (o protagonista da história), o objetivo (aquilo que o protagonista deseja) e o obstáculo (o que quer que impeça o protagonista de conseguir tal objetivo). A partir desses três elementos, é possível construir aquela que é a versão mais sintética, resumida, concentrada, da ideia por trás de uma história: a logline.

A logline é a premissa da sua história resumida em duas ou três linhas. É muito provavelmente a primeira coisa que alguém irá ler em um projeto audiovisual. É o cartão de visitas de um filme, de uma série, ou mesmo de um livro ou de uma história em quadrinhos. A logline tem o apelido de “pitch de elevador”. Pitch é a apresentação, geralmente oral, de uma ideia. E por que “de elevador”? Imagine que você deu a tremenda sorte de pegar o elevador com Jason Blum, o chefão do estúdio Blumhouse, ou com alguém da A24, ou da New Line Cinema, enfim, com um produtor de algum estúdio responsável por vários filmes de terror que amamos. Bem, para tentar vender o seu projeto a essa pessoa você contará somente com aquele curto espaço de tempo até que ela desça no andar ao qual se dirige. Num momento como esse, nada melhor do que ter na ponta da língua uma logline potente, matadora, que fisgue rapidamente o ouvinte.

“Uma jovem cadete do FBI recebe a ajuda de um assassino canibal manipulador em sua caçada a um maníaco que esfola suas vítimas.”; “Um menino vítima de bullying forma uma amizade única com sua nova vizinha, uma garota peculiar com um segredo sombrio.”; “Elvira trava uma batalha contra sua deslumbrante meia-irmã em um reino onde a beleza reina absoluta. Ela recorre a medidas extremas para conquistar o príncipe em meio a uma competição implacável pela perfeição física.”

Estas são loglines encontradas no site IMDB, especializado em cinema e séries. Pertencem, respectivamente, a O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991), Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008) e A Meia-Irmã Feia (Den stygge stesøsteren, 2025). Em todas elas, lá estão os três elementos: “Uma jovem cadete do FBI”, a protagonista, tem como objetivo capturar “um maníaco que esfola suas vítimas”, mas seu obstáculo é depender de “um assassino canibal manipulador”. “Um menino vítima de bullying”, o protagonista, encontra no “segredo sombrio” de sua nova vizinha um obstáculo para a “amizade única” que deseja manter com ela. A protagonista, “Elvira”, tem como objetivo “conquistar o príncipe”, porém “sua deslumbrante meia-irmã” e “uma competição implacável pela perfeição física” surgem como obstáculos. Nem toda logline precisa ser construída dessa maneira, mas com certeza guiar-se por esses três elementos ajuda bastante.

Adjetivos também ajudam muito a transmitir ideias: “Uma jovem cadete”, “um menino vítima de bullying (“a bullied boy”, em inglês), a deslumbrante meia-irmã”… Adjetivos são mais importantes em uma logline do que propriamente os nomes dos personagens.

Depois da logline vêm a sinopse e o argumento. Ambos são resumos da sua história, sendo que a sinopse costuma ter entre uma e três páginas e pode ou não contar toda a história, inclusive o final. Já o argumento necessariamente irá contar a história com começo, meio e fim, e geralmente possui até 10 páginas.

É muito importante que a sinopse e o argumento já transmitam o tom da sua história. Se é uma história de terror, então é preciso passar uma sensação de medo, ameaça, choque, estranheza, etc. Se um produtor não a considerar assustadora no papel dificilmente irá acreditar que poderá ser assustadora nas telas.

Este é um trecho do argumento que Kevin Williamson escreveu para Halloween H20: Vinte Anos Depois (Halloween H20: 20 Years Later, 1998) – o roteiro do filme é de Robert Zappia e Matt Greenberg, a partir de uma história de Zappia -:

“Ela entra e tranca a porta da frente com a chave e a trava de segurança. Examina a casa. Não parece ter havido invasão ou roubo.

RING! Rachel pula de susto quando o telefone toca. Ela atende. É a polícia. Eles ainda estão a caminho. Rachel continua checando o local. Tudo parece em ordem. Exceto em seu escritório. Alguns arquivos foram abertos. Damos uma olhada neles. O nome KERI TATE aparece rapidamente. O rosto de Rachel empalidece. Ela vai imediatamente em direção ao telefone. CLANG! Ouve-se um barulho. Ela não está sozinha na casa. Ela percorre a casa e descobre a porta da frente escancarada. Merda. Dispara para fora.

Rachel sai correndo pela porta e volta para a casa do vizinho. BATE com força na porta. ‘Timmy!’ A porta se abre e revela… MICHAEL MYERS.

Parado, imóvel, com olhos malignos queimando através das fendas de sua característica máscara. Pela porta ela vê a sala de estar. Seinfeld está passando na TV. O corpo ensanguentado e sem vida de Timmy está estirado diante dela.

A última coisa que Rachel vê é a lâmina de uma faca rasgando seu corpo, matando-a.

CORTA PARA…

BRIARCLIFF, MAINE. ESCOLA PREPARATÓRIA TYLER”

Sentiu o drama?

A logline, a sinopse e o argumento são textos que, quando escritos de uma maneira sedutora, podem ajudar a chamar atenção para o seu projeto. Tal qual com roteiros, eles vão se tornando melhores quanto mais você pratica.

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Até a próxima edição de Engrenagens do Terror!

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