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It Ends
Original:It Ends
Ano:2025•País:EUA
Direção:Alexander Ullom
Roteiro:Alexander Ullom
Produção:Evan Barber, Carrie Carusone
Elenco:Phinehas Yoon, Akira Jackson, Noah Toth, Mitchell Cole, Jenny Doyle, Jon Linstad, Alexander Ullom

Impossível assistir ao filme de Alex Ullom sem se lembrar da clássica música de Milionário e José Rico. Trata-se de um road thriller tão reflexivo quanto Rota da Morte (Dead End, 2003), também envolto numa atmosfera de episódio da clássica série Além da Imaginação. Não é uma produção daquelas que você gostaria de ver mais vezes, e talvez não funcione para todos os públicos, principalmente aqueles que gostam de cinema convencional, mas é uma que pode percorrer suas lembranças sempre que estiver numa longa viagem de carro em uma estrada que parece não ter fim.

It Ends estreou no popular SXSW, em 2025, e depois passeou por vários festivais independentes, conquistando algumas boas críticas e prêmios, até ser adquirida pela Letterboxd Video Store, na inauguração da “Unreleased Gems“, um selo que permite que você assista produções que não foram adquiridas para distribuição por estúdios, mesmo com a boa aceitação em festivais. Depois a Neon comprou os direitos para dar a It Ends a chance de uma exibição nos cinemas, ainda que o filme possa ser visto pela Letterboxd. Contudo, o interesse da Neon pode ter dado a It Ends a visibilidade que merece, principalmente com o envolvimento na produção executiva de Chris Ferguson, o que permite que o cartaz informe: “Dos mesmos produtores de Backrooms, Animais Perigosos e Longlegs“…

Se isso não for suficiente para atrair olhares curiosos, a Neon promoveu um concurso bastante peculiar: Last Person Standing, onde grupos de até quatro pessoas deviam permanecer no cinema por 36 horas com exibição sem interrupções do filme It Ends. Cada minuto no local premia os resistentes em 25 centavos, e se você resistir até o final pode sair dali com US$540 dólares e mais um adicional de US$500 pela conquista. Para participar da maratona, o concorrente deveria residir em Nova York e postar um vídeo no instagram de apenas um minuto explicando porque consegue vencer o desafio, marcando a hashtag #ItEndsMarathonContest. O evento aconteceu entre os dias 21 e 23 de agosto, no Chelsea, do fundador do Alamo Drafthouse, Tim League. Se você consultar essa hashtag irá se divertir com os vídeos dos concorrentes, até imitando personagens no veículo.

Será que o filme vale esse esforço? No longa, os recém-formados James (Phinehas Yoon), Day (Akira Jackson) e Fisher (Noah Toth) se unem ao amigo Tyler (Mitchell Cole) numa viagem de carro, sem que o destino final seja justificado. Não fazem o estereótipo dos jovens acéfalos do gênero: não usam drogas, não falam de sexo ou têm ideias idiotas, parecendo um grupo verdadeiro de amigos, com perspectivas sobre o futuro, conversando sobre término de relacionamento e empregos. O único assunto bobo que discutem é um meme sobre colocar em confronto ratos, falcões, gorilas e um caçador, com Ullom mostrando como funcionam as escolhas.

Quando Tyler acredita que perdeu uma entrada, ele faz o retorno no local, mesmo contrariando James, de olho no GPS. No entanto, na volta pela estrada, o grupo é surpreendido por uma mata fechando a passagem, quase como a árvore de From. Depois que saem do carro e estranham a situação, eles são atacados por uma multidão que surge por todos os lados, cercando o carro como zumbis maratonistas. Sem dizerem nada além de gritos incessantes e desespero, as pessoas ferem o braço de Fisher e demonstram interesse apenas no veículo. Os jovens conseguem fugir do local para somente tempos depois pararem mais uma vez no percurso e serem novamente atacados pelos loucos que residem nas matas.

Outras situações estranhas passam a incomodá-los como o fato de, não importando o tempo que rodem, o combustível jamais diminui, eles nunca ficam com fome, sede ou apetite sexual. Esse interminável pesadelo irá acompanhá-los na jornada, levando-os a questionar se estão mortos e aquele seria uma espécie de limbo, se foram amaldiçoados por algum erro do passado e se estão sendo testados. Eles cronometram o tempo em que demora para serem atacados para investigar a mata e até prendem um das pessoas para interrogá-la, enquanto se sentem perdidos, desorientados e desanimados quando sentem que não há uma saída, não importando o que façam.

Ullom divide o tempo de resistência dos quatro com capítulos que se apresentam em milhas, e traz pistas estranhas como veículos largados pelo caminho e mudanças sutis na rotina. Nos tempos de parada, eles aproveitam para extravasar, gritar, dançar, enquanto temem que aquilo possa ser o inferno e que ficarão para sempre nessa viagem sem volta, sem reencontrar familiares, sem a oportunidade de realizarem seus sonhos. A dinâmica do roteiro, os cortes ágeis, nunca deixam o infernauta como uma sensação de que nada acontece. Há um mistério ali a ser desvendado e você se envolverá em teorias e reflexões, imaginando um possível desfecho para o sofrimento dos jovens.

Spoilers especulativos a seguir
Não há uma resposta clara, mas It Ends propõe um jogo de reflexão sobre a vida. Ora, são jovens com sonhos distantes e que, muitas vezes, não sabem até onde podem ir. Nessa “longa estrada da vida” há as pessoas que tentarão atrapalhar sua jornada, sentirão inveja de suas conquistas, e a ideia é ir adiante, planejar, continuar lutando. Nem todos estarão com você; alguns preferirão abandonar o percurso por falta de uma realização imediata, não dispostos a enfrentar o que encontrarão pela frente. E há os insistentes, os resistentes, que mesmo com todas as dificuldades, seguirão em frente com o objetivo pré-determinado.
Fim dos spoilers

It Ends vale por essas ideias que irão despontar no percurso. Como não há respostas claras a la Rota da Morte, pode ser que você não se interesse em acompanhar a trajetória dos jovens, e fique até um pouco decepcionado com o final ainda mais instigante do que conclusivo. Aliás, a ideia ali deveria ter sido pensada antes por eles, pois seria um caminho natural para buscar explicações. Mas se compreende pelo receio, assim como o de não comer o único doce que encontraram no carro. Ao término, fiquei me perguntando o que eu teria feito no lugar deles, se arriscaria a buscar atalhos ou aceitaria o que a estrada poderia reservar para mim. Ela pode ser a mesma para todos, mas a forma como iremos atravessá-la e que determinará o nosso destino.

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