Em Pânico (Scream, 1996) – roteiro de Kevin Williamson -, Billy Loomis (Skeet Ulrich), namorado da protagonista Sidney Prescott (Neve Campbell), é desde o início do filme um dos principais suspeitos de ser o assassino mascarado Ghostface. Anote as evidências: Billy é traumatizado pelo abandono materno; costuma se esgueirar pela janela de Sidney à noite, e deixa claro que o relacionamento deles não vai tão bem; ele surge novamente no quarto da namorada imediatamente após Ghostface a ter atacado, e derruba do bolso um telefone celular que poderia muito bem ter sido utilizado pelo assassino em seus telefonemas ameaçadores (vale lembrar que em 1996 pouca gente carregava um celular). Por causa disso, Billy é detido como suspeito. Porém, enquanto ele está na cadeia, Sidney recebe outro telefonema de Ghostface, um telefonema que seu namorado não poderia ter feito. Billy então é libertado. Com o passar dos dias, ele e Sidney se reconciliam e têm sua primeira noite de sexo. Logo em seguida, o rapaz é esfaqueado pelo assassino. Mais tarde, Billy aparece ferido, mas vivo, e ajuda os amigos a se refugiarem. E é então que revela ser Ghostface, juntamente com seu melhor amigo, Stu (Matthew Lillard).
Na maior parte de Pânico, fica tão “na cara” que Billy Loomis é culpado que todo espectador pensa: “não, então não pode ser ele.” E, quando Billy é esfaqueado, todas as suspeitas que ainda poderiam existir dissipam-se completamente.

Billy Loomis é muito provavelmente um dos maiores red herrings do cinema de terror. Em roteiro, um red herring significa um elemento inserido na trama com o intuito de distrair o público e levá-lo a conclusões errôneas. Em outras palavras, trata-se de uma pista falsa. Assim como um bom mágico de palco, o roteirista faz o público prestar atenção em uma de suas mãos, enquanto o truque está sendo preparado na outra.
Acredita-se que a técnica tenha ganhado esse nome devido a uma antiga prática de caça. A fim de treinar cães farejadores, caçadores enterravam no campo uma porção de arenque defumado (red herring, em inglês), um peixe que possui um odor muito forte. Os cães deveriam aprender a ignorar o cheiro mais evidente – a pista falsa – para seguir aquele que realmente interessava, o cheiro da presa. Com o tempo, o termo foi sendo incorporado ao vocabulário dos escritores.
Existe ainda outro red herring muito importante em Pânico: Neil Prescott (Lawrence Hecht), pai de Sidney. Neil teve a esposa, Maureen (Lynn McRee), assassinada um ano antes do surgimento de Ghostface, e ele era notoriamente um marido traído. Sua viagem a trabalho logo no início da onda de assassinatos passa a parecer suspeita, especialmente após os telefonemas do assassino serem rastreados pela polícia até o seu celular. Seu carro é encontrado escondido nos arredores da casa de Stu durante a festa que ali se desenrola. Assim, ele é o principal suspeito em boa parte do filme. Neil, no entanto, não passa de um red herring plantado pelos próprios assassinos, que pretendiam incriminá-lo após matarem Sidney e despontarem como os “únicos sobreviventes” do massacre. Conscientes das convenções narrativas do cinema, é claro que Billy e Stu não iriam perder uma chance dessas, não é?
Toda a saga Pânico é repleta de red herrings a respeito da identidade dos assassinos. Afinal, trata-se de uma franquia whodunit, como se convencionou chamar as histórias que giram em torno da descoberta da identidade do vilão – o termo vem de “who [has] done it?”, “quem fez isso?”, em inglês.
Outro red herring poderoso é a mãe de Norman Bates (Anthony Perkins) em Psicose (Psycho, 1960) – roteiro de Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch. A maneira como Norman se refere a ela, sua silhueta na janela do casarão e na cena do banheiro, as discussões entre os dois… tudo leva o público a crer que a velha senhora está viva e é a assassina de Marion Crane (Janet Leigh). Quando a verdade é revelada, somos brindados com um dos mais célebres plot twists da história do cinema.
O red herring é uma ferramenta de roteiro tão popular que foi até homenageada em um universo que é whodunit na sua mais pura essência. Na série animada O Pequeno Scooby-Doo (A Pup Named Scooby-Doo, 1988 – 1991), o personagem que Fred (dublado por Carl Steven) sempre suspeita ser o “monstro da semana” – e nunca é – chama-se nada menos do que Ruivo Herring – no original, Red Herring (dublado por Scott Menville).
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Até a próxima edição de Engrenagens do Terror!



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