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Goth – Almas Obscuras
Original:Goth
Ano:2025•País:Japão
Autor:Otsuichi•Editora: DarkSide Books

A complexidade da mente humana é objeto de estudo há séculos. Por que nos comportamos de determinado jeito? Por que algumas pessoas são mais insensíveis do que outras? Por que alguém sente prazer em infligir dor no próximo? Uma pessoa que parece perfeitamente solícita e simpática pode cometer um crime hediondo um dia, o técnico que visita sua casa pode ser um assassino em série, seu vizinho passeando com o cachorro pode sentir prazer em mutilar corpos. Há muitos cantos obscuros na psique humana, nunca sabemos exatamente com quem, ou o quê, estamos lidando. Otsuichi (pseudônimo do escritor e cineasta Hirotaka Adachi) disseca um pouco desse lado perturbador em  Goth – Almas Obscuras, publicado no Brasil pela DarkSide Books.

No livro, acompanhamos dois estudantes do ensino médio que possuem um interesse em comum: a fascinação pelo mórbido. Assassinatos, cadáveres e desaparecimentos chamam a atenção desses jovens, que a todo momento se envolvem em casos do tipo. Yoru Morino parece ser um ímã para assassinos, ao mesmo tempo que é rejeitada por todos de sua classe pelo seu jeito sério e soturno, diferente de seu único colega, que é extrovertido e carismático com todos, mas na verdade possui uma alma cheia de escuridão. Em sete histórias, acompanhamos a verdadeira essência do colega do Morino – cujo nome não é revelado até os momentos finais, apesar de ser o maior protagonista – se revelando aos poucos.

Na primeira história, intitulada Goth, conhecemos Morino e seu colega falando sobre os assassinatos que rondam a região. A jovem encontrou a caderneta do provável assassino, com detalhes de cada morte, e mostra ao seu único amigo, que imediatamente investiga os locais ali descritos. Com uma inteligência acima da média, não tarda para ele desconfiar quem é o assassino e qual será sua próxima vítima. A pergunta é se ele vai fazer alguma coisa sobre isso ou apenas ser um espectador.

Em Cão, cachorros de pequeno porte começam a desaparecer na vizinhança, mas desde a primeira página o culpado por isso nos conta que é o responsável e qual o terrível destino desses animais. Aqui, o autor nos engana até a última página, entregando uma conclusão inesperada.

Na história seguinte, descobrimos que Morino teve uma irmã gêmea, que morreu de forma trágica. Eventualmente, a garota tem noites insones por lembrar disso, e a única coisa que a acalma é se enforcar com o tipo certo de fio até quase a inconsciência. Ao longo das páginas, seu colega, que já sabemos que tem como passatempo visitar locais onde corpos foram encontrados, vai até o local onde a irmã de Morino morreu e descobre a verdade por trás do que aconteceu. É a única história que temos algum vislumbre da vida da garota para além de sua apatia com todos, o que nos faz compreender o motivo de sua fascinação com a morte.

Em O Caso dos Punhos Cortados, notícias sobre um criminoso que amputa a mão das vítimas circulam, e nosso misterioso protagonista revela que teve um envolvimento com esse caso antes de começar a dividir interesses macabros com sua colega de poucas palavras. O assassino guarda a mão de todas as suas vítimas na geladeira, coisa que o adolescente descobre, mas contar isso às autoridades nunca fez parte de seus planos. Suas verdadeiras intenções são muito mais obscuras, e é a partir daqui que percebemos que seu interesse em assassinatos não é como o de Morino, seus propósitos são muito mais nefastos.

Em Cova acompanhamos um homem que possui um jardim impecável, mas as belas plantações escondem algo que ninguém desconfia. Esse homem enterrou uma criança viva e o manteve ali, respirando por apenas um pequeno tubo, por dias a fio, até assassiná-lo de uma forma brutal. O assassino começa a ter vontade de matar de novo, e rapta uma estudante que passa por ali todos os dias para calar as vozes de sua cabeça. Morino está desaparecida, e em suas investigações sobre seu paradeiro, seu colega acaba chegando na residência do desprezível homem. Novamente, temos um plot twist inesperado nas últimas páginas, e o protagonista se revela cada vez mais estratégico em suas ações.

Na penúltima história, Voz, as máscaras do colega de Morino começam a cair, de forma que até mesmo a jovem perceba que ele possui uma escuridão dentro de si muito maior do que ela incialmente imaginou. Acompanhamos uma moça teve sua irmã assassinada, e agora precisa lidar com pais que não conseguem superar esse terrível acontecimento. Um dia, recebe uma misteriosa fita e, ao tocá-la, percebe que é a voz da falecida irmã, narrando seus últimos momentos com vida. Foi o assassino quem enviou essa fita, e agora ele está atrás da irmã para terminar o serviço.

Por último, encerramos com Morino vai à Floresta. Como o título sugere, é exatamente isso que a garota vai fazer, pois pretende tirar fotos em um determinado local afastado. Ali, há um fotógrafo que se oferece para tirar fotos da jovem, e ele acha muito curioso as poses que ela faz: como se estivesse morta. Ao perguntar sobre isso, Morino revela que gosta de tirar fotos em locais onde corpos foram encontrados e posar como se fosse a vítima, e naquele lugar o corpo mutilado de uma jovem havia sido encontrado um tempo atrás. Mais uma vez, Morino corre perigo sem nem se dar conta disso, e sem sequer imaginar que o perigo maior está mais próximo do que imagina.

Não há uma construção de personagens, exceto o breve vislumbre do passado de Morino em Gêmeas, todas as histórias vão direto ao ponto. Sabemos que o protagonista finge ser uma pessoa normal, quando na verdade é um sociopata frio e calculista, mas nada além disso. Há uma sensação crescente de desconforto por causa dessa frieza frente a atrocidades, ao mesmo tempo que ficamos curiosos para entender mais sobre eles, assim como eles fazem com os assassinos.

Em Goth, não temos assassinos com motivações ou traumas, apenas a crueldade deles sendo exposta, e esse é o objetivo de Otsuichi. Ele não quer mostrar o lado humano, quer mostrar apenas o horror, apenas o lado de pura maldade da mente de alguém. Também não há grandes desenvolvimentos nos enredos, com a maioria deles apenas relatando acontecimentos, sem algo ter sido feito de fato, o que pode tornar a obra um pouco repetitiva em alguns momentos, apesar de algumas revelações surpreendentes. Não há qualquer intenção de punir os assassinos, apenas de relatar seus atos e tentar compreender a psicologia sombria da mente perturbada por trás.

Sobre o título, o autor em momento algum retrata algo da subcultura gótica e, no posfácio, afirma que deu esse título por causa de Morino, que possui um ar mais soturno, admitindo que é um motivo um tanto simplista.

Em 2003, Otsuichi ganhou o Prêmio Honkaku de Mistério por Goth e, em 2008, sua obra ganhou adaptações em mangá e um longa-metragem intitulado Goth: Love of  Death, dirigido por Gen Takahashi.

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