O sobrenatural sempre teve múltiplas formas de ser representando. Podem ser os versos algumas vezes sarcásticos de Dante ou os sombrios castelos do gótico inglês, mas também pode ser o tom cômico da crítica social de Charles Dickens. Os fantasmas estão à solta em todas as artes há muitos séculos ou mesmo milênios, e podem, ao mesmo tempo que assustam, fazer rir. Essa é em certa medida a premissa da série Ghosts, ainda exibição, desde 2021.
Na série, a protagonista Samantha, interpretada por Rose Mciver, herda a casa de uma parente distante, e muda-se com seu marido, Jay. Na casa residem fantasmas de diversas épocas. Depois de sofrer um acidente e quase morrer, Samantha começa a poder enxergar os fantasmas. Essa interação leva ao desenvolvimento de um relacionamento entre a Sam e os fantasmas e inclusive à elucidação de mistérios envolvendo os diversos personagens.
Mciver, além de um pequeno papel em Master of sex e de ter participado de uma das dezenas de temporadas de Power Rangers, é mais conhecida por ter interpretado a médica Olivia Moore, protagonista da série iZombie. Em iZombie também se tenta trabalhar um tom cômico em um tema tradicional no horror, no caso, a transformação de pessoas em zumbis.
Retornando a Ghosts, a série apresente uma diversidade de fantasmas. O que todos têm em comum é o fato de terem morrido, ao longo de uns mil anos, no terreno onde está a casa herdada por Sam. Comenta-se que outros fantasmas estiveram por lá e já se foram em algum outro momento, sendo “chupados” (o uso desse termo é intencional e leva a algumas piadas eventualmente). Embora apareçam alguns outros fantasmas de forma esporádica, como os soldados britânicos mortos em combate na luta de independência ou uma assustadora fanática religiosa, há um núcleo central permanente.
Isaac era um capitão puritano da Guerra de Independência, formal, arrogante e que escondeu sua homossexualidade por toda a vida. Na série, sua história é desenvolvida a partir de duas perspectivas, uma das quais o rancor que sente por ter sido um personagem apagado nas narrativas da luta pela independência. Outra perspectiva passa pelo receio em assumir sua homossexualidade e a paixão pelo soldado britânico cuja morte foi causada pelo próprio Issac.
Hetty Woodstone era uma baronesa esnobe, controladora e da alta sociedade vitoriana, parente distante de Sam. Sua história em grande medida passa pelo paulatino abandono de ideias machistas que possui sobre a questão das mulheres. Hetty também serve para ironizar a visão das elites novecentistas sobre trabalho, escravidão, sexualidade, entre outros temas.
Entre os demais fantasmas mais antigos, estão Thorfinn, um guerreiro viking melancólico e um tanto agressivo que foi deixado por seu grupo, e Sasappis, um contador de histórias da tribo nativa americana Lenape, bastante cínico e sarcástico. Thorfinn descobre que seu filho foi em busca dele e acabou morrendo nas proximidades do terreno. Sasappis rende muitos comentários irônicos sobre a ocupação do território dos nativos da região e a hipocrisia dos colonizadores.
Existem também alguns fantasmas de tempos mais recentes. Alberta Haynes era uma cantora de jazz da época da Lei Seca. Sua morte e a investigação sobre o assassinato são temas de mais de um episódio. São apresentados em alguns episódios também uma parente sua e um fã obcecado por sua figura.
Outro fantasma é Flower, uma hippie pacífica que viveu em uma comunidade nos anos sessenta e costuma ser bem “viajona”. Ela foi morta ao tentar abraçar um urso. Defensora do “amor livre”, acaba tendo um relacionamento com Thorfinn. Flower se envolveu também em um assalto a banco, realizado por um dos grupos do qual fez parte.
Pete Martino, outro fantasma, era um líder de escoteiros, sendo sempre muito otimista e amigável. Morreu acidentalmente com uma flecha no pescoço. Em alguns episódios aparece sua esposa, que, descobre-se, o traía ainda em vida. Ele possui o poder de sair da propriedade, se tornando uma das formas de contato dos fantasmas com o mundo externo.
Trevor, por fim, o fantasma mais “jovem”, era um investidor de Wall Street festeiro, sarcástico e que anda sempre sem as calças. Os motivos da perda de sua calça são explicados ao longo da série, mostrando que, apesar de comentários sexistas que costuma fazer, era uma pessoa bastante bondosa.
Os episódios, de forma geral, não têm uma relação direta, contando histórias pontuais sobre algum dos personagens. São explorados temas como as comemorações do Halloween, desdobramentos das mortes de cada um dos fantasmas ou mesmo situações vivenciadas pelo cotidiano da pousada. Contudo, há a exceção em episódios em torno de temas que necessitam de mais desenvolvimento, como a escrita do livro de Sam sobre Issac, que de uma obra de história se torna um romance sobre vampiros, ou a preparação para a abertura do restaurante de Jay.
Utilizando-se de um tom cômico, a série coloca como centro das histórias os fantasmas, ou seja, figuras do passado que permitem fazer reflexões sobre o presente. Em alguns momentos, brinca-se com elementos do horror, como sombras e cenas de suspense, mas que logo passam pela quebra da expectativa por meio do tom cômico. Como distração e reflexão para temas atuais, a série mostra-se uma competente e agradável narrativa, permitindo momentos de boas risadas.




Adoro está série, divertida e leve, mesmo quando se apresenta algum drama.