Engrenagens do Terror #7: A Morte Inaugural

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Em uma das primeiras edições de Engrenagens do Terror, falei sobre como surgem as ideias (link). Já na edição de hoje, a minha ideia é mostrar que a sua ideia é só uma ideia se ela não possuir uma estrutura. E, se eu usei três vezes na mesma frase a palavra ideia, isso foi proposital, pois a estrutura mais utilizada em roteiros cinematográficos é a estrutura de 3 atos.

Assim como a minha frase começa apresentando uma proposta (“a minha ideia”), depois a desenvolve (“é mostrar que a sua ideia”) e por fim oferece uma resolução (é só uma ideia”), a estrutura de 3 atos também nos possibilita, de uma maneira muito natural, desenvolver uma história com começo, meio e fim. Afinal, até quando contamos a um amigo alguma coisa que aconteceu no nosso dia, começamos dizendo onde estávamos ou o que estávamos fazendo, daí introduzimos algo digno de nota (o motivo de estarmos contando aquela história a ele) e encerramos dizendo como a situação terminou. Concorda?

Syd Field, autor que escreveu diversos livros sobre roteiro, chamou o Primeiro, Segundo e Terceiro Atos de, respectivamente, Setup, Confrontation e Resolution. E, obviamente, começaremos falando do Primeiro Ato: Setup. Porém, vamos extrapolar Syd Field a fim de abordar o estudo da cineasta, roteirista e autora de terror Anna Taborska, que nos apresenta uma estrutura de 3 atos levando em consideração as particularidades do gênero terror.

Taborska batizou o Primeiro Ato dos filmes de terror de Inícios Sinistros (Sinister Beginnings). É nele que apresentamos os personagens, principalmente o protagonista, e o mundo comum da história. Afinal, se não mostrarmos minimamente como esse mundo funciona e como o protagonista se encaixa nele, o público nem irá perceber que algo mudou quando o Incidente Incitante (falaremos dele em breve) der uma chacoalhada nessa normalidade. E, por normalidade, entenda-se que pode até mesmo se tratar de uma realidade pós-apocalíptica infestada de zumbis como em Extermínio: A Evolução (28 Years Later, 2025) – roteiro de Alex Garland -, uma vez que o protagonista já está acostumado com esse caos todo e sabe se virar em meio a isso.

Opcionalmente, é possível abrir o Primeiro Ato com um recurso clássico do terror, a Morte Inaugural, “um choque súbito e intenso, como um assassinato ou outro incidente violento, que permanecerá sem explicação até um momento posterior”, como indica Taborska – e eu duvido que não se acendeu imediatamente no seu cérebro a imagem de Drew Barrymore fazendo pipoca e conversando ao telefone com um estranho armado com muito mais do que apenas um conhecimento enciclopédico sobre slasher movies… Outra Morte Inaugural muito impactante é a de Corrente do Mal (It Follows, 2014) – roteiro de David Robert Mitchell.

O objetivo desse tipo de sequência de abertura é justamente capturar já de cara o público, estabelecer o tom do terror que será apresentado e introduzir um mistério.

Taborska aponta que esse início do Primeiro Ato também pode ser utilizado para sinalizar “qualquer vulnerabilidade emocional ou falha psicológica do protagonista, a fim de que, mais tarde, isso possa ser usado contra ele pelos elementos de terror do seu filme. Logo nos primeiros cinco minutos de A Visita (The Visit, 2015) – roteiro de M. Night Shyamalan -, quando vemos Tyler (Ed Oxenbould) usando toalhas de papel para manusear a maçaneta da porta de um banheiro, descobrimos que ele evita a todo custo o possível contato com germes, uma maneira de se sentir no controle da sua vida após a separação dos pais. Isso tornará ainda mais terríveis as cenas em que Tyler será exposto às fraldas sujas de seu estranho avô (Peter McRobbie).

Também é o momento de, como mostra Taborska, “prenunciar o horror, com pequenas pistas ou indícios que sugerem que algo não vai bem, como sons estranhos ou imagens inquietantes.

O Pranto do Mal (El llanto, 2024) – roteiro de Isabel Peña e Pedro Martín-Calero – segue com muita competência toda essa trilha. A abertura do filme contém uma cena tétrica e enigmática em uma boate, “um choque súbito e intenso […] que permanecerá sem explicação até um momento posterior”. Depois, é introduzida a protagonista, Andrea (Ester Expósito), uma jovem que vive com os pais adotivos (Tomás del Estal e Sonia Almarcha) em Madri e frequenta a universidade (Mundo Comum). Andrea tenta lidar com um namoro a distância e a ansiedade em descobrir quem são seus verdadeiros pais, o que revela a “vulnerabilidade emocional ou falha psicológica do protagonista, a fim de que, mais tarde, isso possa ser usado contra ele pelos elementos de terror do seu filme”. E o “prenúncio do horror”, “pequenas pistas ou indícios que sugerem que algo não vai bem, como sons estranhos ou imagens inquietantes”, surge por meio de um choro fantasmagórico e de um vulto furtivo que parecem cercar Andrea.

Na próxima edição de Engrenagens do Terror iremos continuar falando sobre o Primeiro Ato, com bastante destaque para o Incidente Incitante. E, se você pretende se aprofundar ainda mais na escrita de roteiros para cinema e tevê, vale a pena conhecer meus cursos, além dos serviços de Consultoria e Mentoria de Roteiros, em linktr.ee/marcelomarchi77.

Até mais!

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