Engrenagens do Terror #8: O Incidente Incitante

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Na edição anterior de Engrenagens do Terror, demos início à nossa jornada pela Estrutura de 3 Atos, que é o formato mais utilizado para se estruturar um roteiro cinematográfico. Baseando-se principalmente no trabalho da autora Anna Taborska, falamos sobre o início do Primeiro Ato, com a Morte Inaugural, a apresentação dos personagens e o prenúncio do horror.

Já na edição de hoje, seguimos no Primeiro Ato e chegamos ao momento que dá o verdadeiro start na nossa história: o Incidente Incitante. Nas palavras de Robert Mckee, “o Incidente Incitante, o primeiro grande evento da narrativa, é a causa primária de tudo o que segue”, e, em geral, “ocorre diretamente com o protagonista ou é causado por ele”, e “desarranja radicalmente o equilíbrio de forças” em sua vida, mudando-a para o positivo ou para o negativo. Ou seja, depois de termos apresentado ao público o Mundo Comum do nosso protagonista, agora introduzimos um acontecimento que irá chacoalhar as estruturas, complicar o funcionamento, alterar o status quo, desse mundo.

Como aponta McKee, esse acontecimento vai envolver de alguma forma o protagonista, podendo este ser sua vítima ou seu causador, ou mesmo ambos. Se nosso protagonista, ainda que involuntariamente, abre um baú antigo onde encontra-se aprisionada uma força maligna, ele é o causador do terror que irá se iniciar, bem como será sua vítima. Já Alice (Adrienne King) não tem culpa alguma pelo Acampamento Crystal Lake ser reaberto e isso reacender a fúria sanguinária da Sra. Voorhees (Betsy Palmer) em Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980) – roteiro de Victor Miller e Ron Kurz (não creditado). Mas, por ser uma das monitoras do acampamento, Alice se vê envolvida em todas as consequências negativas dessa decisão alheia.

McKee também ressalta que o Incidente Incitante irá mudar a vida do protagonista de positivo para negativo ou vice-versa. O mais comum, especialmente no terror, é que mude para o negativo. Mas também pode ser uma mudança positiva. Por exemplo, o protagonista pode descobrir que um tio que ele nem conhecia lhe deixou como herança uma incrível mansão. Ou a protagonista pode ter sido convidada para o baile pelo bonitão do colégio por quem ela sempre foi apaixonada. No entanto, mais tarde a mansão pode se mostrar uma casa assombrada e o bonitão do colégio pode se revelar um íncubo!

O Incidente Incitante também irá despertar no protagonista o desejo consciente por algo que, ele acredita, poderá restaurar o equilíbrio da sua vida. Ele agora terá que alcançar determinado objetivo ou resolver certo problema a fim de retornar àquela situação inicial, que, mesmo que pudesse não ser tão brilhante, ainda assim parecia melhor do que a situação atual, ou ao menos mais familiar.

De acordo com Taborska, no Incidente Incitante “algo acontece para perturbar a normalidade e desencadear o horror. Muitas vezes, os personagens principais fazem uma escolha que os coloca em rota de colisão com o ‘monstro’. Às vezes, recebem um aviso para voltar atrás, ao qual não dão ouvidos. Esse é, frequentemente, o momento em que têm o primeiro contato com a ameaça, embora não seja um confronto direto e total; é apenas o bastante para indicar claramente que algum tipo de atividade antinatural ou violenta está acontecendo”.

Após o Incidente Incitante, é natural que o protagonista se recuse a agir durante algum tempo. Afinal, costumamos nos agarrar à ideia de que tudo pode se resolver sozinho, sem que precisemos nos envolver. Esse é o momento que Taborska chama de “dúvida e negação”, quando “os protagonistas não se dão conta do verdadeiro perigo da escolha que fizeram ou daquilo com que se depararam. Muitas vezes, tentarão encontrar uma explicação para o que viram ou ouviram, ou desejarão acreditar que tudo não passou de fruto de sua imaginação. Se relatarem a experiência a outras pessoas, estas poderão negar que os eventos sequer tenham ocorrido.”

Ela dá o ótimo exemplo de O Iluminado (The Shining, 1980) – roteiro de Stanley Kubrick e Diane Johnson, baseado no livro de Stephen King. Apesar de o gerente do Hotel Overlook (Barry Nelson) revelar a Jack (Jack Nicholson) a história dos assassinatos ocorridos no local algum tempo antes, Jack aceita o emprego de zelador (esse é o Incidente Incitante). Enquanto isso, o filho de Jack, Danny (Danny Lloyd), que possui habilidades psíquicas, pressente que a decisão do pai não será nada boa para a família. Mas o que ele pode fazer?

Na próxima edição de Engrenagens do Terror iremos descobrir como nossa história avança do Primeiro para o Segundo Ato e como as coisas podem – e vão – ficar ainda piores do que já se encontram.

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Até mais!

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